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Terra > Outubro/2008 > México

Depressão profunda

Um mergulho vertiginoso nas Barrancas del Cobre, as surpreendentes fendas mexicanas mais longas e mais fundas do que o Grand Canyon

Henrique Skujis

Matéria publicada na edição 198 (Outubro/2008) de Terra


Everton Ballardin

Os cânions das Barrancas del Cobre, no México

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Quatro da tarde e o sol pensa que é meio-dia. Quarenta graus. O suor escorre no rosto, nas costas, nas pernas. Dois bigodudos com chapéus de caubói enfrentam com elegância a sauna a céu aberto na praça central de Batopilas. O calor pesa, faz o corpo dobrar. Nas vielas apertadas de pedra, heranças dos tempos áureos da mineração, grandes picapes zanzam meio sem rumo. Não combinam com a calma e o porte acanhado da cidade mexicana escondida nas profundezas das Barrancas del Cobre - uma sucessão de espetaculares desfiladeiros maiores e mais fundos que o Grand Canyon. O porquê desses carrões circularem por aqui você saberá mais tarde. Antes, é mais importante mergulhar nesses imensos despenhadeiros de quase 2 quilômetros de profundidade que, com a braveza de Pancho Villa, a ousadia de Frida Kahlo e a beleza de Salma Hayek, peitam o famoso cânion norte-americano.

Para começo de conversa, é preciso deixar claro que a maneira mais gostosa de desvendar esta desconhecida porção do México é pelos 652 quilômetros de trilhos da Chepe, uma sinuosa linha férrea que perfura 87 túneis e atravessa 36 pontes em uma das mais cênicas viagens de trem do mundo. A ferrovia parte do desértico estado de Chihuahua, sobe aos 2.500 metros de altitude na Sierra Madre (lar dos cânions), entra no estado de Sinaloa e desliga os motores em Los Mochis, a 24 quilômetros do Oceano Pacífico. Tudo isso em menos de 14 horas. Esticar o corpo na confortável poltrona reclinável, sentar à mesa do aconchegante vagão-restaurante, degustar uma porção de tacos, esvaziar uma taça de margarita, puxar papo com o povo e, o melhor de tudo, assistir à paisagem pela janela são as deliciosas obrigações a bordo.

Corpo e mente, no entanto, vão lhe pedir para dar uma volta e conhecer os arredores da ferrovia. Afinal, apesar das imagens impressionantes que surgem no vidro, é preciso saltar do trem para descortinar as vistas mais belas desta porção do planeta onde uma infinidade de erupções vulcânicas ocorridas entre 20 milhões e 40 milhões de anos atrás abriu gigantescos buracos e deu à luz montanhas que, vez ou outra, lembram a nossa Chapada Diamantina - mas, que nos desculpem os baianos, a fazem parecer uma maquete. É com os pés em terra firme também que você vai ficar cara a cara com as duas maiores cachoeiras do México, caminhar por vales com estranhas formações rochosas, entender por que há tantos carros caros em vilarejos como Batopilas e bater palmas para a moda hiper-ultra-mega-supercolorida das tímidas índias tarahumaras.

A locomotiva começa a puxar o comboio em direção à Sierra Madre Ocidental todo santo dia às 6h. No trem de primeira classe, há sempre um vagão-restaurante e um vagão-bar. No de segunda, que sai uma hora depois e faz mais paradas, não há vagão-restaurante (grave!) nem bancos no bar (muito grave!). Mas o preço pode compensar: 63 dólares ante os 120 cobrados no trem mais luxuoso. Os valores são do trecho integral, entre Chihuahua e Los Mochis, ou vice-versa. Mas como há muito a ser visto no meio do caminho, cai bem comprar cada trecho separadamente. A primeira parada eleita por mim e por quase todo forasteiro que chega por aqui é a cidade de Creel, encimada a 2.338 metros de altitude e onde no inverno as temperaturas caem para zero grau. Há hotéis de todos os preços, diversas agências que organizam viagens para cânions e cachoeiras, restaurantes que dão conta do recado e uma vida agitada por jovens locais e viajantes dos quatro cantos do mundo.

COGUMELOS E MONGES DE PEDRA


Batizada em homenagem ao ex-governador de Chihuahua Enrique Creel, o vilarejo conta com pouco mais de 5 mil habitantes. Uma semana antes da nossa chegada, no final de agosto, 13 deles foram metralhados em plena luz do dia - inclusive uma criança de 1 ano. O crime chocou a população, já que há 26 anos não acontecia aqui um homicídio sequer. Carros circulavam com bandeiras brancas, faixas de protesto estampavam a fachada da igreja, policiais armados com AR-15 rondavam e o funesto assunto aparecia nas conversas de esquina. Ação de narcotraficantes ou acerto de contas entre apostadores de corridas de cavalo? O caro leitor pode pensar que estamos em um destino perigoso, onde o faroeste rola solto e balas perdidas zunem nas ruas. Nada disso. Este pedaço do México, apesar de forrado de plantações de maconha e de tratar o uso de drogas leves e pesadas com conivência muito maior que a sociedade brasileira, é um sossego só. A sangrenta chacina foi um episódio isolado. Viajantes atentos sempre esbarram nessas histórias, mas basta não mexer com elas para que elas não mexam conosco. Mesmo porque há muita coisa mais interessante com o que se preocupar quando se está nos arredores de Creel.

Comecemos por um imenso vale onde se esparramam cogumelos, rãs e monges petrificados. Encontrar uma ou outra pedra com esses formatos em lugares de relevo rochoso não é exatamente uma descoberta. Mas aqui elas são muitas e estão misteriosamente agrupadas de acordo com a forma. Primeiro, brotam dezenas de cogumelos gigantes. Um quilômetro depois, surgem os anfíbios de 3 metros de altura. Mais meia hora de pedalada (vale a pena fazer o trajeto sobre duas rodas), elevam-se do chão monólitos de 50 metros de altura que lembram monges de pé ou, para as mentes mais atrevidas, enormes falos lapidados em pedras vulcânicas. Esse rincão pedregoso e recheado de pinheiros é território dos tarahumaras, a segunda maior tribo indígena e uma das menos aculturadas da América do Norte. São 50 mil indivíduos dispersos pela Sierra Madre. Os nativos ganharam a posse dessas terras no começo do século passado em uma reforma agrária levada a cabo por Pancho Villa.

ÍNDIOS OLÍMPICOS


As índias tarahumaras colorem a região com suas vistosas combinações de roupa. Já a maioria dos índios deixou para trás a típica tanga e o pano vermelho nas costas para adotar o jeans e a camiseta. Elas plantam, produzem e vendem artesanato. Os homens cortam madeira para vender, apreciam muito beber tesquino, uma potente poção alcoólica à base de milho, e são exímios corredores - na Olimpíada da Cidade do México, em 1968, dois deles chegaram a participar da maratona, mas não se deram bem, por terem estranhado os tênis, o relevo nada acidentado e a falta de álcool no sangue. Um estudo do antropólogo John G. Kennedy em 1996 calculou que um tarahumara gasta em média 100 dias do ano preparando, bebendo e se recuperando do porre causado pela bebida. Como as condições climáticas na serra são extremas - da neve aos 40 graus -, os tarahumaras são seminômades. Muitos têm mais de uma casa (na borda e no fundo dos cânions) e os antigos ainda vivem em cavernas de pedra. Marta Villalobos, moradora de uma casa de madeira perto do Vale dos Monges, foi a indígena menos tímida com quem conversamos. Marta vive da madeira vendida pelo marido e das plantações de milho e feijão. Acha as cidades lugares feios e diz não sentir falta de televisão. Aos domingos, para encontrar amigos e parentes, gosta de ir à Igreja de São Ignácio de Loyola, construída ali perto em 1904 por padres franciscanos.

Hora boa de rodar por aqui é a partir da segunda quinzena de setembro, quando termina a época das chuvas e as três cachoeiras da região estão esplêndidas: Cusarare (30 metros), Basaseachi (246 metros) e Piedra Bolada (453 metros). As duas últimas são as maiores do país. Para chegar até a Basasechi, nosso motorista pegou uma estrada em perfeito estado rumo ao sul. No caminho, dezenas de pessoas pediam carona à beira do asfalto. Ele parou para todos, o que me pareceu a prova definitiva de que o episódio de Creel foi uma aberração casual. Onde impera o bangue-bangue, caronas são impossíveis.

Juventino Moreno, 44 anos, subiu na caçamba de nossa picape em um pequeno entroncamento rodoviário. Bigode, violão, botas e chapéu de caubói, havia saído de sua aldeia e rumava para Cuauhtémoc em busca de trabalho. "Quero ganhar dinheiro com a música. Mas se não der vou tentar alguma coisa na construção civil ou nas plantações dos menonitas", contou, referindo-se à seita religiosa que desembarcou em Cuauhtémoc nos anos 1920, vinda da Europa. De pele clara, cabelos loiros e roupas que parecem tiradas de um filme de época, os menonitas destoam completamente da população mexicana. De carona nos acompanharam também três adolescentes na faixa dos 16 anos. Os amigos seguiam para uma mina de prata recém-aberta pelo governo na tentativa de aumentar a oferta de emprego. "É uma medida para compensar o combate às plantações de maconha", analisou nosso motorista.

A Basaseachi surgiu no topo de um imenso paredão de pedra. Não é, como você vê na foto desta matéria, apenas mais uma queda-d'água candidata ao batismo de Véu de Noiva. Merece horas de contemplação dos vários mirantes postados nos paredões vizinhos. A caminhada até o seu "pé" também é imperdível. São quase duas horas de descida (e outro tanto de subida) por bosques de pinheiros e cânions com quase 1 quilômetro de profundidade. Os amantes do trekking, no entanto, vão se saciar mesmo com a pernada mais desejada e famosa das Barrancas del Cobre: três dias de um duro sobe-e-desce cortando terras tarahumaras, dormindo em barracas, entre Urique e Batopilas, duas pequenas e antigas cidades mineiras no extremo fundo dos cânions.

Seja na sola do pé, seja sobre quatro rodas, não deixe Batopilas para a próxima. De Creel, são cinco horas de van por uma das mais sinuosas, cansativas e lindas estradas que já percorri na minha vida. Não há retas. São 140 quilômetros de terra com uma curva atrás da outra para levar o viajante dos 2.338 metros de altitude de Creel aos 495 metros de Batopilas. As vistas compensam o cansaço do corpo e até o enjôo causado pelo ziguezague. A chegada acontece invariavelmente no meio da tarde sob o calor descrito no primeiro parágrafo. O roteiro é conhecer o interessante museu que conta a história da cidade e visitar as ruínas da Hacienda San Miguel. Na construção, viveu e trabalhou o norte-americano Alexander Shepherd, que no final do século 19 trouxe tecnologia de ponta para explorar as minas de prata , ouro e cobre e ainda deu à cidadezinha a primazia de ser a segunda no México a receber luz elétrica, depois da capital.

Oficialmente, os 1.500 habitantes de Batopilas vivem de plantações de laranja, mamão e abacate. Mas qualquer papo na praça central - pode ser com aqueles dois senhores bigodudos com chapéu de caubói - não demora a revelar a maconha como a maior fonte de renda do vilarejo, o que explica também a presença de tantos carrões na cidade. "O clima é ideal. Metade da população planta mota", revela um morador, usando a gíria local. Os traficantes, conta ele, pousam em pequenos aviões nos ranchos e recolhem a produção e levam quase tudo aos Estados Unidos, ali do lado. Há desde grandes propriedades até cultivos de pequenos agricultores. Se você acha que Batopilas é longe, encare a caminhada de 8 quilômetros até Satevo, minúsculo vilarejo ainda mais perdido nas profundezas do cânion. O visual do Rio Batopilas ladeado por imensos paredões repletos de cactos vale o esforço para chegar a essa missão jesuíta da qual ninguém sabe a história exata. Suspeita-se, apenas, que a imponente e desproporcional Catedral San Miguel de Satevo - que já esteve abandonada a ponto de abrigar rebanhos de cabra e que agora está em reforma - foi construída há quase 400 anos.

De volta ao trem (depois de enfrentar cinco horas de viagem cânion acima), outra parada obrigatória é na estação de Divisadero, onde é imperativo fazer a fácil caminhada que beira as Barrancas del Cobre. Siga até o mirante Piedra Bolada (que nada tem a ver com a cachoeira) para ficar diante de uma das vistas mais abertas dos precipícios mexicanos. Uma idéia para evitar o pernoite e ganhar tempo é descer do trem, fazer a caminhada e pegar o trem da segunda classe, que passa cerca de duas horas depois. Outra opção interessante é saltar na estação seguinte (Areponápuchi, também conhecida como Posada Barrancas), a 5 quilômetros, fazer a caminhada para a Piedra Bolada e ainda descolar uma cavalgada pelo cânion - nesse caso, siga viagem no dia seguinte.

A partir dessa estação, e principalmente depois de Temoris, começa a parte mais bonita da viagem de trem. Surgem magníficas montanhas com estranhas formações no cume e começa uma seqüência de túneis e pontes. Tudo fica ainda mais interessante quando o lago formado pela Represa Miguel Hidalgo deixa a paisagem parecida com a dos célebres fiordes neozeolandeses. A dica é deixar a poltrona e viajar no espaço entre os vagões, onde as janelas ficam abertas e é possível sentir o vento no rosto. De repente, tudo escurece. É o penúltimo túnel do trajeto, o maior, com quase 2 quilômetros e dois minutos de duração. A escuridão anuncia a iminente chegada à El Fuerte.

Na pequena cidade colonial fundada em 1564 e que por três séculos foi um importante entreposto do Caminho Real espanhol, nem dê muita bola para a lenda do Zorro, que teria vivido onde hoje está a Posada del Hidalgo. Não há nada que prove a passagem de don Diego de la Vega por aqui, embora o hóspede seja recebido por um funcionário caracterizado como o super-herói criado por Johnston McCulley. Melhor zanzar pela praça central, cercada de belos edifícios coloniais, e passear de barco pelo Rio Fuerte, ao longo do qual há pinturas rupestres feitas entre 2.500 e 700 anos atrás por índios mayas - com "y", pois nada têm a ver com seus conterrâneos maias, com "i". O curioso é que, conforme a abertura das comportas da represa, parte dos desenhos (sol, mãos, pés , animais e outros tantos símbolos) só pode ser vista após uma caminhada no rio com água até o peito. A pequena embarcação a remo também é o meio certo para apreciar cactos e pelo menos duas dúzias das 174 espécies de aves que fazem o fundo musical. O final da viagem se aproxima.

Muitos turistas nem fazem questão de chegar a Los Mochis, a não ser aqueles que têm sua passagem de volta a partir dessa cidade, onde as principais atrações são restaurantes e um mercado. Nossa dica é seguir de ônibus de El Fuerte até Topolobampo, de frente para baía que há quase um século e meio fascinou o idealizador da ferrovia. Não espere uma cidade litorânea à la Cote d'Azur ou mesmo com a atmosfera das pequenas vilas de pescadores da costa brasileira. Topolobampo tem um pouco (bem pouco) dos dois. E tem ainda um porto onde encostam grandes petroleiros. Você pode apenas ficar no píer, vendo pelicanos se transformarem em mísseis em busca de peixes no Mar de Cortez - logo ali, do outro lado, está a Baja California. Mas não perca a oportunidade de seguir de barco à Baía dos Golfinhos, à Ilha dos Pássaros e à Ilha El Farallón, onde desfilam focas e leões-marinhos. Um final ideal, improvável e avesso a tudo que você terá visto nos últimos dias.

7 DICAS PARA NÃO SAIR DA LINHA



1) De outubro a março, é prudente comprar a passagem com antecedência

2) Em Chihuahua, atrase o relógio em 60 minutos em relação à Cidade do México

3) Nas estações iniciais (Chihuahua e Los Mochis) o trem não costuma atrasar

4) Nas demais estações, o trem pode passar meia hora antes ou depois do previsto

5) Para não perder as melhores vistas, sente no lado direito do trem no sentido Chihuahua-Los Mochis

6) Para economizar e ter mais opções de horário, considere pegar ônibus em alguns trechos, mas não deixe de fazer de trem o trajeto Creel-El Fuerte.

7) No espaço entre os vagões, é possível abrir as janelas para fotografar e sentir o vento

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