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Alasca

Uma viagem de carro pela natureza selvagem, cidades improváveis e intrigantes vazios do território gelado

Por Joyce de Oliveira Guimarães, da Dalton Highway

Matéria publicada na edição 194 (Junho/2008) de Terra


Cláudio Wiliam Amoêdo Guimarães

Nos 700 quilômetros de Fairbanks à Baía de Pruhoe, no Ártico, a Dalton Highway não cruza nenhuma cidade

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O Alasca tem 11 mil pilotos entre os seus 640 mil residentes, apoiados por centenas de aeroportos privados e pistas de pouso - oficiais ou improvisadas - estendidas no solo gelado. Os aviões pequenos dominam o transporte no maior estado do país do automóvel, os Estados Unidos, porque as estradas são raras por aqui. Não é à toa que causasse tanto estranhamento a nossa passagem por essas vias solitárias em direção ao Ártico, vindo de carro desde o sul do Brasil. Foi assim, subindo o continente, que cruzamos o Canadá pela costa oeste e chegamos à Alaska Highway, a única grande rodovia dessa região gelada. Logo descobrimos que, embora leve o nome do estado americano, a estrada, também conhecida com Alcan, tem mais de três quartos de seus 2.300 quilômetros no território canadense.

Ao deixar Dawson Creek, ponto de partida da Alcan, um bom sinal: uma pacata família de ursos - mãe, pai e três filhotes - nos dá as boas-vindas à beira da estrada. Horas mais tarde, em nossa primeira noite na Alaska Highway, um mau sinal: o administrador do camping no qual pretendíamos pernoitar nos apavora com histórias de ursos-pardos (ou grizzly, o tipo mais agressivo), que costumam atacar veículos e barracas em busca de comida. Exagero puro - mas, por precaução, decidimos jantar dentro do carro. Apesar da tensão inicial, deu para relaxar rapidinho. A estrutura para acampamento na região é ótima, mesmo para viajantes exóticos como nós, que fazemos do carro, uma Defender, nosso lar. Sem figuras de linguagem, aqui: dormimos mesmo sobre o teto de nosso 4x4, numa barraca adaptada que montamos e desmontamos em minutos. É uma base bastante segura quando se divide terreno com ursos, bisões, alces e outros grandalhões que vivem nas proximidades do Ártico.

O encontro com esses e outros bichos se dá na própria Alaska Highway. Alguns aparecem tarde demais para nós, porque viajamos na temporada de caça, entre o final do verão e o começo do outono, e alces abatidos surgem no acostamento, com os valiosos chifres recentemente removidos - valiosos para decoração da casa do caçador, é bom dizer. Quando cruzamos a fronteira do Canadá com os Estados Unidos, levamos um susto ao topar com uma fila de motorhomes - alguns deles enfeitados com chifres de alce, por sinal - na direção contrária à nossa, feito uma fuga em massa. Um motoqueiro nos explica o motivo daquela intrigante debandada: "O inverno já está chegando!". E isso era só o começo do Alasca.

Para quem pretendia dar um mergulho nas águas do Ártico, era bom se apressar. Mas é difícil ter pressa e não fazer muitas paradas numa estrada que corta parques nacionais belíssimos como a Alaska Highway. Ainda no lado canadense, o Muncho Lake, de águas verdes, abre a seqüência de paisagens, seguido pelo Liard River (rodeado de estações termais) e pelo Watson Lake. Neste último, mais do que o lago em si, a atração é a floresta de placas deixadas por visitantes. São mais de 48 mil, com a assinatura de viajantes do mundo todo, desde a época da construção da estrada. Na seqüência, o Monte Saint Elias, de 5.489 metros, segunda maior montanha da América do Norte - a primeira, o Monte McKinley, com 6.194 metros, também fica aqui no Alasca. Aliás, quase tudo o que você imaginar de superlativo pode ser encontrado no maior estado americano.

A ESTRADA QUE DERRETEU
Abrir estradas no Alasca sempre foi uma enorme dor de cabeça. Nos anos 1940, a construção da Alaska Highway, a rodovia de 2.337 quilômetros entre Dawson Creek, no Canadá, e Fairbanks, nos EUA, considerada estratégica (a região é próxima de territórios que então pertenciam ao Japão, e hoje são russos), custou a vida de muitos homens. Além de encararem doenças, bichos e relevos desconhecidos, os engenheiros militares cometeram o grande erro de raspar o permafrost, a camada de terra gelada permanente, para cobri-lo de asfalto. O resultado foi o surgimento de um lamaçal incontrolável, que engoliu centenas de caminhões do Exército. O jeito foi construir uma estrada mista, com trechos revestidos de toras de madeira sobre o permafrost, longas pontes para cruzar rios e pântanos, e aquedutos e sistemas de drenagem para controlar o gelo derretido. Um museu da estrada é a principal atração de Dawson Creek.

As atrações à beira da Alaska Highway às vezes podem demorar a surgir. Elas são muitas, obviamente, mas espalhadas num grande espaço - imagine só que o Alasca sozinho é maior que as regiões Sul e Sudeste do Brasil somadas. Na maior parte do tempo o que se vê é a tundra, com suas minúsculas flores e musgos coloridos que surgem no final do verão, combinada aqui e ali com a taiga, a floresta boreal, que pode ser mais ou menos intensa ao longo da rodovia. Nos trechos em que a mata é abundante, verdadeiros paredões verdes formam-se junto à pista. Mas logo depois a floresta escasseia, e a impressão é de estar cortando um pântano gelado.

SEM CORRENTES NEM GPS
A primeira grande cidade no caminho é Fairbanks. Moderna, com 90 mil habitantes, não causa grandes impressões. Muitos moradores de origem indígena - os "nativos" representam 15 por cento da população do estado - andam bêbados pela rua, algo espantoso para visitantes que acabaram de deixar para trás as sóbrias cidades do Canadá e do norte dos Estados Unidos. Militares desfilam nas ruas de jipões, exibindo uma autoridade um tanto melancólica, sem sentido. Nenhum charme alpino, de estação de inverno, convida a ficar. Resolvemos partir logo para a segunda etapa da viagem, o norte do Alasca, rumo ao Círculo Polar. A estrada que liga Fairbanks a Deadhorse, já na Baía Prudhoe, no Ártico, é a Dalton Highway.

Construída em apenas cinco meses nos anos 1970, ela veio para apoiar o transporte de petróleo - o Alasca tem as maiores reservas petrolíferas dos Estados Unidos. Alternando trechos de asfalto, terra e madeira, é uma rodovia exclusivamente de serviço, que não corta absolutamente nenhuma cidade. São 700 quilômetros de solidão gélida. Nossa presença causa estranheza num posto de gasolina, onde somos bombardeados com perguntas de todo tipo: "Vocês têm rádio? Estão preparados para a neve? Estão levando correntes para os pneus? Sabiam que a estrada é estreita e cheia de caminhões?". Mal respondemos ao interrogatório, pois não levávamos nada disso, nem GPS, somente uma grande expectativa. Afinal, Deadhorse é um dos poucos - senão o único - lugares no mundo onde é possível chegar de carro acima dos 70 graus de latitude norte. Ao contrário da imagem que tentaram nos incutir, a Dalton Highway é cinematográfica, de um colorido único.

A LITERATURA DOS FORTES
Aventureiro das antigas, o escritor Jack London (1876-1916) percorreu vilarejos remotos do Alasca nos últimos anos do século 19. Foi atrás do ouro, mas se encantou pelo cenário inóspito e pela vida dura. Em Dawson City, é possível visitar a cabana onde ele viveu por um ano e escreveu partes dos livros O Chamado da Selva e Caninos Brancos. Vitimado pelo escorbuto, London não se deixou abater pela doença e deixou o Alasca ao estilo dos grandes desbravadores, remando quase 2,5 mil quilômetros Rio Yukon abaixo em direção à Califórnia. Outra referência literária (embora trágica) da região é o livro Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer. Ele conta a saga real de Christopher McCandless, brilhante estudante que decide largar tudo antes de entrar na faculdade e viver viajando pelo país, até chegar ao Alasca. Lá, imaginou viver idilicamente, sobrevivendo da caça e escrevendo um diário. Mas a natureza rude cobrou seu preço, e Christopher acabou morrendo de fome. O filme homônimo dirigido por Sean Penn, que acaba de sair em DVD, foi rodado no Parque Denali e nas cidades de Fairbanks e Cantwell, no Rio Copper.

Tudo em perfeito estado, com exceção das paradas de apoio, sujas e malconservadas. Nada, porém, que atrapalhe a emoção de cruzar o Rio Yukon e chegar ao Círculo Polar Ártico acompanhado de um grupo de viajantes russos que, também comovidos com a viagem, dançavam e cantavam usando roupas típicas. O norte do Alasca é de enlouquecer e sair cantando mesmo: a partir daqui, existe pelo menos um dia completo de sol no verão e uma noite inteira no inverno. Do Círculo até o Pólo Norte, o número de dias sem sol durante a estação invernal vai aumentando até atingir, na latitude 90 graus norte, seis meses inteiros de plena escuridão, seguidos de outros seis meses de completa luz solar. À medida que nos aproximamos do Pólo Norte Geográfico, a bússola entra em parafuso, deixando de funcionar direito. A agulha de nossa bússola passa a tocar sempre na base ou no topo, sofrendo a ação da inclinação do campo magnético da Terra.

MERGULHO GELADO
No meio do nada, encontramos o Centro Interativo de Visitantes do Ártico, um lugar surpreendentemente sofisticado. Nossa intenção era saber mais sobre o passeio para o Mar Ártico. Espantados, descobrimos que o dia seguinte (8 de setembro) seria o último dia do ano para esse passeio. Melhor nem pensar nos muitos "quase" que a situação nos lembrava. Afinal, havíamos saído há três meses, 35 mil quilômetros atrás, para chegar aqui. Reservado o passeio, aproveitamos o dia comprido (o sol só se põe às 11h da noite nesta época do ano) para ficarmos o mais próximo possível de Deadhorse, local de partida do ônibus para o Ártico. Ao longo de um demorado - e esplêndido - entardecer, vimos o trecho mais bonito de estrada de todo o Alasca.

São mais de 200 quilômetros num caminho de terra batida com jeito de montanha-russa, cheia de curvas. A estrada passa pela Cadeia de Brooks (o trecho final das Montanhas Rochosas), que ia revelando e escondendo o sol conforme avançávamos. O astro parecia mesmo andar no horizonte - uma sensação ampliada com a aurora boreal e as estrelas cadentes visíveis aqui. O movimento na estrada era mínimo - um ou outro caminhão e alguns carros de caçadores, levando seus troféus de chifres de caribus. Entre os animais vivos, a visão de um muskoxen, raro bovino peludo nativo do Ártico, que chega até 400 quilos, nos parece a mais inusitada. Também é de causar espanto o visual da cidade de Deadhorse, depois de um banho de natureza selvagem.

Cidade não é um termo adequado: a arquitetura aqui se resume a um conjunto de contêineres. Não há ruas definidas, nem pessoas andando entre as construções. É como um porto gigante, servindo à indústria do petróleo. O esperado passeio acontece em ônibus, os únicos permitidos dentro da Baía Prudhoe até a beira do Mar Ártico. Descer do ônibus é proibido, para não provocar os ursos-polares, que podem se excitar com a presença humana. Mas, já que se tratava do último passeio do ano... "Alguém quer mergulhar no Ártico?", perguntou o guia, para espanto de todos. Uma garota logo se prontificou. Cláudio ficou em dúvida - não havia levado roupa de banho. Mas a oportunidade era única e, de bermuda e sem camisa, ele fez o mergulho mais gelado de sua vida. À moda americana, ganhou certificado comprovando o banho polar. O fim do verão também significa o final da estação turística em outros pontos do Alasca. Foi preciso correr para vencer os mil quilômetros que separam Deadhorse do Parque Nacional Denali, o mais famoso do Alasca, que fecharia por aqueles dias.

Dois pólos de atração levam 400 mil pessoas anualmente a essa imensa reserva: o Monte McKinley, o mais alto da América do Norte, e a abundância de animais selvagens, principalmente ursos, aqui presentes em três variedades: negro, pardo e polar. Para explorar a maior parte do parque, é preciso deixar o veículo próprio e entrar num ônibus turístico, num passeio de oito horas pontuado por muitos "ohs" e "ahs" dos visitantes. Mais ao sul, Anchorage, maior cidade do Alasca, com 280 mil habitantes, tira a má impressão de Fairbanks. Rodeada por um grande deserto e seis grandes montanhas, é bonita, rica em história e ponto de confluência de viajantes de todas as estirpes. De Anchorage até a Península de Kenai, pela Seward Highway, o cenário é estupendo, com vulcões e picos nevados, mar recortado, lagos, florestas e fiordes. A paisagem é resumida no Parque Nacional de Kenai Fjords, explorado por barco ou a pé, com caminhadas no gigantesco Glaciar Exit.

A neve finalmente nos alcançou ao cruzarmos a fronteira dos Estados Unidos, perto da cidade de Tok, com o Canadá. A estrada escolhida para o trajeto, a Alaska 5, favoreceu o frio: o caminho é conhecido como Top of the World Highway, pois passa entre altas montanhas. Nada mais reconfortante do que terminar o trecho em Dawson City, uma cidadezinha de apenas 1.800 habitantes, já no lado canadense, que parece ter parado no tempo do Velho Oeste, quando abrigou o escritor Jack London. Dela, chegamos a Whitehorse, capital do estado canadense de Yukon, e voltamos à Alaska Highway. Passaram-se menos de 20 dias entre a subida e a descida por essa mesma estrada, mas a Alaska Highway já não parecia a mesma. Agora, a paisagem começava a guardar suas cores, na preparação para mais um duro inverno. Só assim, vendo de perto, e não do alto, é possível compreender os frios caminhos do Alasca, seus imensos vazios e sua beleza singular.

VIAGEM ROTINEIRA
Joyce, professora de educação infantil, e Cláudio, fiscal da Receita estadual catarinense, saíram de Jaraguá do Sul (SC), onde vivem, em 1º de junho de 2007 para uma viagem de oito meses de carro pela América. Chegaram ao extremo norte do continente, em Baía Prudhoe, em 8 de setembro e voltaram por cidades diferentes. Joyce compara a viagem à saga do maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus), pássaro norte-americano que repete esse roteiro todo ano. "Ele migra para a América do Sul no inverno, chegando em março à Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul, onde a oferta de comida é abundante nessa época. Em abril, voa de volta até o Ártico. São cerca de 36 mil quilômetros por ano, com uma espantosa autonomia de vôo."

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CARTA DE NAVEGAÇÃO

PARA SABER MAIS
Na Natureza Selvagem (DVD). Direção: Sean Penn, 2007. Paramount Filmes. Na Natureza Selvagem. Jon Krakauer. Companhia das Letras. 11 Anos no Alasca. Luciana Whitaker, Ediouro. Call of the Wild & White Fang. Jack London, Wordsworth Editions. Alaska-Yukon Adventures. Fraser Bridges, Random House. Alaska: Saga of a Bold Land. Walter R. Borneman, Harper, EUA.