Dormindo na vertical
A rotina pouco agradável de quem tem que pernoitar pendurado na parede
Por Eliseu Frechou, de El Capitan
Matéria publicada na edição 193 (Maio/2008) de Terra
Não importa a parede, a rotina é sempre a mesma. Ainda é noite quando meu relógio me tira do conforto do sono e me traz à realidade de ainda ser um prisioneiro do mundo vertical. Acima de mim, 450 metros de granito do El Capitan esperando para ser desvendado. Abaixo, 400 metros de vazio até a base da montanha. Escalar grandes paredes significa, entre outros desafios, pernoitar pendurado na parede. Não é uma idéia que agrada a maior parte dos escaladores - não é por outro motivo que apenas um entre 100 alpinistas se dedique às grandes paredes verticais. Seja dormindo em um platô de rocha, em uma rede ou num portaledge - uma espécie de maca desmontável -, a rotina de um paredonista começa antes das 5 horas da manhã. Sair do saco de dormir a essa hora não é fácil, mas me condicionei a agir mais e pensar menos nesses momentos.
Sei o que devo fazer e faço. Comer, desarmar o portaledge, fechar os sacos de arrasto e desenrolar as cordas ainda à luz da lanterna de cabeça é quase que como assistir a um filme quando se está pegando no sono. O silêncio nessa hora é inigualável. Escuto minha respiração, o chacoalhar dos equipamentos. Pouco a pouco, a luz do sol aparece no horizonte e a sensação de sonhar acordado vai dando espaço à realidade. Pego o mapa da rota para rever as dificuldades que me esperam e coloco os equipamentos na cintura como um soldado que parte pra guerra. Com água e comida muito bem calculadas - para não faltar nem sobrar -, sei que só poderei descansar novamente quando a meta do dia, de subir mais 100 metros, for atingida. Mas nem sempre tudo sai como o planejado.
Numa escalada em 1994, nesta mesma montanha pela rota Zenyatta Mondatta, a ascensão programada para seis dias só foi completada em nove, por causa de uma tempestade inesperada, que derrubou a templeratura de 40 graus positivos para 10 negativos em apenas dois dias. Nessa ocasião, 14 escaladores necessitaram de ajuda em diversas montanhas, o que ocasionou a maior operação de resgate da história de Yosemite. Como não tinha um agasalho de chuva adequado, passei dois dias deitado no portaledge, comendo apenas meio pacote de bolacha e um punhado de passas por dia, e bebendo meio copo de água. A regra é simples: se você não escala, não pode gastar sua comida e água. Deve economizá-las para quando precisar de energia. Quando cheguei ao topo, estava 6 quilos mais magro.
Veja mais em YOSEMITE
SUBINDO PELAS PAREDES
PERNAS PRA QUE TE QUERO
CARTA DE NAVEGAÇÃO
Sei o que devo fazer e faço. Comer, desarmar o portaledge, fechar os sacos de arrasto e desenrolar as cordas ainda à luz da lanterna de cabeça é quase que como assistir a um filme quando se está pegando no sono. O silêncio nessa hora é inigualável. Escuto minha respiração, o chacoalhar dos equipamentos. Pouco a pouco, a luz do sol aparece no horizonte e a sensação de sonhar acordado vai dando espaço à realidade. Pego o mapa da rota para rever as dificuldades que me esperam e coloco os equipamentos na cintura como um soldado que parte pra guerra. Com água e comida muito bem calculadas - para não faltar nem sobrar -, sei que só poderei descansar novamente quando a meta do dia, de subir mais 100 metros, for atingida. Mas nem sempre tudo sai como o planejado.
Numa escalada em 1994, nesta mesma montanha pela rota Zenyatta Mondatta, a ascensão programada para seis dias só foi completada em nove, por causa de uma tempestade inesperada, que derrubou a templeratura de 40 graus positivos para 10 negativos em apenas dois dias. Nessa ocasião, 14 escaladores necessitaram de ajuda em diversas montanhas, o que ocasionou a maior operação de resgate da história de Yosemite. Como não tinha um agasalho de chuva adequado, passei dois dias deitado no portaledge, comendo apenas meio pacote de bolacha e um punhado de passas por dia, e bebendo meio copo de água. A regra é simples: se você não escala, não pode gastar sua comida e água. Deve economizá-las para quando precisar de energia. Quando cheguei ao topo, estava 6 quilos mais magro.
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