Subindo pelas paredes
Não há maior desafio à gravidade do que escalar as torres de pedra do Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia
Por Eliseu Frechou, de El Capitan
Matéria publicada na edição 193 (Maio/2008) de Terra
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Numa escala de perigo que vai de A1 (escalada segura) a A5 (queda mortal), a temida PSD tem 12 de seus 13 trechos classificados como A4 ou A5. E eu tinha diante de mim justamente um dos piores pedaços de parede, um A5 tenebrosamente conhecido como Suicidal Failure, ou "Falha Suicida". Lentamente, vou fazendo minhas apostas e vencendo a parede centímetro por centímetro. Uma hora depois, consigo chegar à base onde há dois grampos bem fixos e seguros, e sinto um alívio na espinha. Consigo relaxar um pouco, enquanto acompanho a chegada de Márcio. Ainda ofegante, e com o corpo lavado de suor, sou atormentado pela pergunta que volta e meia me vem no meio desses desafios nas alturas: "O que estou fazendo aqui?". Faltam ainda 500 metros até o topo e eu sei que essa interrogação só vai sair da minha cabeça depois que eu chegar lá em cima e voltar à terra firme são e salvo. Sei também que continuará sem resposta.
Há 25 anos tento entender as razões da minha paixão por escaladas e não chego a nenhuma conclusão. Por mais inexplicável, o prazer de estar pendurado numa encosta de montanha é grande o suficiente para suportar fome, sede, frio, calor, medo, saudade de casa. E no meu caso não há montanha mais desafiadora do que as torres de pedra de Yosemite, onde a ascensão é vertical ou até mesmo em ângulos negativos. Aqui o prato servido aos paredonistas - os alpinistas especializados em paredes verticais - se chama "dificuldade técnica extrema". Os picos El Capitan, Half Dome, Leaning Tower, Cathedrals, Washington Collum e Sentinel abrigam algumas das mais desejadas vias de escalada livre e artificial com as quais um escalador pode sonhar. Se na parte baixa do parque a infra-estrutura para visitantes é completa, com serviço de resgate, hospital, hotéis, restaurantes, supermercados e todas as facilidades da vida moderna, aqui em cima, nas paredes nuas e verticais, experimenta-se a mais requintada técnica de escalada.
Quem quiser testar suas técnicas e nervos nas vias mais perigosas descobrirá também várias maneiras de morrer escalando. Desde os primórdios do montanhismo americano, Yosemite e suas paredes de granito cinzento servem de campo de testes para as mais diversas técnicas e equipamentos de escalada. O que funciona em Yosemite, funcionará em qualquer encosta vertical do globo. Talvez tenha sido essa vontade de evoluir e superar o medo que me trouxe oito vezes ao Vale de Yosemite. A motivação que tive ao escalar pela primeira vez o Half Dome, em 1994, ao lado de minha esposa, Beth, foi a mesma que me levou ao topo da Leaning Tower no ano passado, na companhia de Cristian Yoshioka. Aqui se praticam todas as modalidades de escalada em rocha, da esportiva (rotas pequenas e bem protegidas, mas muito difíceis fisicamente) à tradicional (na qual se usa o mínimo possível de grampos).
Foi em Yosemite que conceitos como free climbing (ascensão natural, feita sem apoios na rocha, com equipamento apenas para proteção) e clean climbing (escalada limpa, usando apenas peças que são encaixadas nas fendas e retiradas depois) foram definitivamente aceitos e hoje fazem parte da ética obedecida pelos escaladores. Se não bastasse, no inverno ainda é possível escalar na neve e no gelo das cascatas. Enfim, este é o paraíso na terra para um escalador fanático e disposto a impor-se desafios. Mas o parque, claro, não se restringe às suas torres de granito.
Desde Abraham Lincoln
Com pouco mais de 3 mil quilômetros quadrados, área duas vezes maior que a do município de São Paulo, Yosemite é uma espetacular mistura de florestas, montanhas e cachoeiras, que chega ao esplendor na primavera do Hemisfério Norte, de março a junho. A quatro horas de carro de São Francisco, é o pedaço mais especial da Sierra Nevada. Foi declarado parque nacional em 1880 (perde em antigüidade apenas para Yellowstone, de 1872), mas já vinha sendo preservado desde 1864, por um decreto pioneiro do então presidente Abraham Lincoln. A estrutura do parque se concentra no vale aos pés de suas montanhas famosas, um quadrilátero com 11 quilômetros de extensão por 1,6 quilômetro de largura - o restante, cerca de 94 por cento da região, permanece selvagem. A combinação de belezas naturais, atividades desafiadoras e ótimo serviço de apoio atraem 4 milhões de visitantes por ano, mais que a metade dos estrangeiros que o Brasil inteiro recebe. No vale, conhecido como Yosemite Village, o visitante encontra tudo de que precisa, de ônibus circulares que passam de 15 em 15 minutos a supermercado, guias especializados e hotel de luxo.
Quem não é de escalar pode acompanhar os movimentos dos montanhistas dali mesmo, com a ajuda de um binóculo - na primavera e no verão as paredes verticais de Yosemite ficam coalhadas de pequenos pontos coloridos, cada um deles representando um escalador em busca de seu troféu pessoal. A beleza natural, aliás, está à vista o tempo todo, já desde a entrada principal do parque, enfeitada por uma estonteante cachoeira de 189 metros de altura, que merecia um nome menos desgastado do que Bridal Veil Falls, ou "Véu da Noiva" - que alguns séculos atrás deveria soar tão original. A principal queda-d'água do parque, porém, é ainda quatro vezes mais alta e despenca no meio do vale: Yosemite Falls, com um jorro de 740 metros, é a maior cachoeira da América do Norte e a quinta do mundo. Elevando-se a 900 metros de altura a partir do vale, El Capitan é o maior paredão de granito do planeta e, por isso mesmo, principal objeto de desejo dos paredonistas.
A montanha mais famosa de Yosemite, porém, é a vizinha Half Dome, com 2.695 metros em relação ao nível do mar e 1.200 metros a partir do vale. Tem um formato incomum, como se tivesse sido cortada a faca por algum super-herói intergaláctico - na verdade, metade da torre foi arrancada por um movimento de geleiras 250 mil anos atrás. Daí o seu nome, que significa "Meia Cúpula".
Segure o cabo em Half Dome
Para quem vai escalar pela primeira vez em Yosemite, o ideal é gastar a primeira semana para conhecer suas principais atrações e vias históricas. As rotas que vão ajudar os montanhistas a encarar os desafios maiores são Nutcraker, no Manure Pile Butress; Central Pillar of Frenzy, na Central Catedral; The Caverns, na falésia Five Open Books; e as vias próximas de La Escuela, na base do El Capitan. Comece por fazer vias fáceis.
No granito polido pelos glaciares, as rotas vão parecer muito mais difíceis sem esse período de adaptação. Embora as paredes verticais sejam exclusivas dos montanhistas de ponta, é possível chegar ao topo de muitas montanhas de Yosemite por trilhas bem mais fáceis, instaladas nas faces opostas. Mesmo assim, a escalaminhada no Half Dome, por exemplo, que é assistida por cabos de aço presos na rocha, pode levar um dia inteiro. E não pode ser feita no inverno (a direção do parque retira os cabos, para evitar acidentes) nem quando chove (são freqüentes as descargas elétricas nas encostas durante as tempestades). O parque tem ainda diversas opções para os praticantes de outros esportes ao ar livre, como trekking, mountain bike e rafting. A rede de trilhas demarcadas para caminhada chega a 1 300 quilômetros, quase a distância entre as cidades de Florianópolis e Montevidéu, no Uruguai.
Quem não tiver disposição de ir até o Half Dome (são 11 quilômetros de subida íngreme até a base da montanha, onde começa a escadaria com cabos de aço), pode desviar na metade do caminho para conhecer as quedas Vernal e Nevada. Ou então pegar a trilha até o bosque das sequóias, as árvores gigantescas que são outra grande atração do parque. A mais impressionante delas é a Grizzly Giant, com 70 metros de altura, 11 de diâmetro e estimados 2.700 anos de idade - o que faz dela um dos seres vivos mais antigos do planeta. Existem também trilhas bem sinalizadas para o topo da Yosemite Falls (11 quilômetros) e do El Capitan (17 quilômetros). Mas, como são menos freqüentadas, você só deve encará-las se estiver em boa forma e não houver nenhum risco de chuva. Num final de tarde, uma boa opção é realizar partes da trilha que circunda o vale, beirando as paredes e passando pelos pontos de parada do ônibus. Essa trilha é bem sinalizada e pavimentada em diversos trechos. No pedaço que vai do Camp 4 até o El Capitan, não é raro encontrar animais de grande porte, como leões-da- montanha e ursos - portanto, siga em silêncio.
A magia da torre laranja
São três as melhores rotas de pedaladas: a que contorna todo o vale, e as que partem daí para Tuolumne Meadows e para o Glacier Point. O silêncio e a rapidez oferecidos pela bicicleta favorecem o avistamento de animais. Existem algumas poucas trilhas para mountain bike, mas é importante informar-se quais estão permitidas na ocasião de sua visita. Lembre-se que é obrigatório o uso de capacete e trafegar no mesmo sentido dos carros. Aliás, a bicicleta é vista nos Estados Unidos quase que como um veículo motorizado, portanto tenha muita atenção com os pedestres. Bóia-cross e rafting podem ser praticados em diversos trechos do Merced River, que corta o vale. Dá para alugar um bote ou entrar em um grupo monitorado por instrutores qualificados. Nadar é permitido, mas pular das pontes, não - e dá multa.
Yosemite é tão grande que foi dividido em cinco distritos: Yosemite Valley, Wawona, Hetch Hetchy, Tuolumne Meadows e Glacier Point. Cada um desses lugares tem vegetação e microclima diferentes. Portanto, todos merecem visita. É essencial ainda reservar alguns finais de tarde para observar a luz do sol refletida em tons de laranja em El Capitan, o maior monólito de granito do mundo. Conforme a luz cai, as lanternas dos escaladores que pernoitam na montanha formam um espetáculo à parte. Já admirei muito esse paredão ao pôr-do-sol e também já estive lá em cima, com a lanterna de cabeça acesa, me ajeitando para dormir pendurado na pedra. Pra dizer a verdade, estou louco para desafiar essa torre de novo.
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