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Os brasileiros que vivem no gelo

A dura rotina dos militares da Marinha que se isolam um ano inteiro na Antártica, para dar impulso na carreira

Por JanaÍna Martins, da Estação Comandante Ferraz

Matéria publicada na edição 193 (Maio/2008) de Terra


Thelma Vidales

O Ary Rongel em frente à Ilha Rei George: suporte à base brasileira

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A sirene do navio toca pontualmente às 6 da manhã e vale para todo mundo a bordo - marinheiros, pesquisadores ou jornalistas convidados. É hora do despertar no pequeno quinhão ocupado pelo Brasil na Antártica, o que inclui o navio Ary Rongel e a Estação Comandante Ferraz, na Ilha Rei George, que está bem à nossa frente. A ordem, como em qualquer base naval da Marinha brasileira, é levantar da cama, tomar café e se preparar para um dia cheio de trabalho. Os primeiros barcos logo deixarão o navio em direção à estação, e eu e a fotógrafa Thelma Vidales precisamos estar prontas para a travessia. A cada ano, a base do Brasil na Antártica cresce fisicamente e recebe mais gente.

É assim desde 1984, quando 12 homens do arsenal da Marinha desembarcaram na Ilha Rei George para erguer os primeiros oito módulos da estação. A missão foi cumprida em 32 dias, e os construtores voltaram ao nosso país imediatamente depois. No ano seguinte, a estação foi ampliada, passando a ter 33 blocos. Atualmente já são 64 módulos, incluindo alojamentos, salas de estar e jantar, copa e cozinha, banheiros, biblioteca, 13 laboratórios de pesquisas, sala de computadores, cabines telefônicas, academia de ginástica, oficinas de veículos, despensa, lavanderia, centro cirúrgico, gabinete dentário e uma farmácia muito bem guarnecida de medicamentos. A base também deixou de ter atividade apenas no verão, passando a ser ocupada o ano inteiro.

Churrasco, futebol na TV, internet e celular com tarifa local ajudam a matar a saudade
Do início de outubro, quando o navio Ary Rongel parte para a Antártica, ao final de março ou começo de abril, quando ele costuma regressar ao país, a Estação Comandante Ferraz recebe centenas de pesquisadores e visitantes. Na temporada que acaba de se encerrar, cerca de 230 pesquisadores estiveram na base brasileira, dedicados a estudos biológicos, atmosféricos e químicos no continente gelado. Vieram também vários senadores e deputados, como em quase todos os anos, e até o presidente da República dessa vez. O navio ficou 189 dias em águas antárticas, batendo o recorde de permanência na região. Agora, à medida que o inverno se aproxima, a base vai se esvaziando até se restringir a cerca de 25 moradores, entre militares e encarregados da manutenção das instalações.

É esse pequeno grupo que tem de lidar com a solidão, o isolamento e o frio extremo nesse pedaço de fim de mundo. A Ilha Rei George - onde também ficam as bases do Chile, da Polônia, da China, do Uruguai, da Argentina, do Peru e da Coréia do Sul - está a mais de 60 graus na Latitude Sul. O outro meio de acesso a Ferraz é por um dos vôos anuais realizados em avião Hércules C-130. No período do verão austral são realizados quatro vôos, que têm início no Rio de Janeiro, fazem escalas em Pelotas (RS) e Punta Arenas (Chile) e seguem até a base chilena vizinha, que é provida de um campo de pouso. Dali até a estação brasileira são três horas de navio ou meia hora de helicóptero. Os vôos permitem a substituição de pesquisadores, resultando em maior variedade de pesquisas. No inverno, os vôos de apoio das aeronaves da Aeronáutica levam suprimentos para reabastecimento da estação, lançando a carga em pára-quedas. O segredo: salário triplicado.

Para fazer parte do seleto grupo de militares brasileiros na Antártica é preciso se submeter a rigorosos exames de seleção. Depois de uma bateria de testes de saúde, os aprovados recebem instruções de montanhismo e de sobrevivência no gelo, aplicadas pelo Clube de Alpinismo Paulista e pelo Batalhão de Operações Especiais do Corpo de Fuzileiros Navais. Em seguida, passam por uma severa prova psicotécnica. Todos os militares são voluntários e a disputa chega a ter 15 candidatos por vaga. A explicação de tamanha procura é simples: além de impulsionar a carreira na Marinha, a experiência antártica garante salários três vezes maiores que os normais. A contrapartida é ficar 12 meses longe de casa, da família e dos amigos. Por causa disso, é de se esperar que os voluntários sejam em sua maioria solteiros - mas não é assim. Dos dez militares que acabam de retornar ao Brasil, sete são casados. Entre eles, o capitão-de-mar-e-guerra Carlos Benício Sá de Mello, comandante da estação no último período, que lembra que os marinheiros, em geral, estão acostumados a se ausentar de casa.

Além disso, "trabalhar na Antártica é motivo de muito orgulho para qualquer militar e uma experiência única". De fato, a visita ao continente gelado é algo para se guardar na memória pelo resto da vida. Nos sete dias em que passei em solo antártico, não deixei de me surpreender - e me fascinar - um minuto sequer com a natureza ao meu redor. Uma das primeiras lições que aprendi ao desembarcar foi sobre as bruscas alterações do tempo. Os ventos são muito fortes e mudam o tempo todo. Tive sorte. No primeiro dia, o sol apareceu. Os pingüins já esperavam para proporcionar um grande espetáculo. Focas e ossos de baleias também. Guiada por meus anfitriões, percorri as redondezas da estação num quadriciclo, escalei o Morro da Cruz, voei de helicóptero sobre a Baía do Almirantado e fui de barco até a Ilha de Deception, que, aliás, não merece o nome que tem - a sensação de entrar numa antiga cratera vulcânica navegando é muito especial.

Assim como outros visitantes, eu e Thelma ficamos hospedadas no navio, e íamos para a Ilha Rei George de barco, lancha ou helicóptero. Por mar, a travessia é sempre acompanhada por um mergulhador profissional e um deles era o segundosargento Laércio de Melo Olegário, 42 anos, do Rio de Janeiro. Foi um choque para nós receber a notícia de que esse mergulhador está desaparecido desde o dia 15 de março, num incidente até então inédito na experiência brasileira na Antártica. O inquérito aberto pela Marinha ainda não chegou a nenhuma conclusão sobre as causas do desaparecimento. As condições climáticas naquele dia estavam normais, com mar calmo e sem vento. Pela lembrança que tenho dele, sempre bem-humorado, também não acredito em suicídio. A rotina na estação segue padrões militares. Além das funções a que cada um foi designado, todos devem participar da faxina - inclusive os visitantes.

Um dos locais que chamam atenção é a sala Rio 40 graus, onde são secados os macacões, gorros, luvas, cachecóis e botas que chegam molhados de neve. O lugar é um pedacinho do Brasil e é o mais quente da estação. A base brasileira chega a acomodar até 70 pessoas durante o verão, quando as temperaturas costumam oscilar entre os 10 graus positivos e os 10 graus negativos. No inverno, os poucos habitantes que restaram enfrentam frio de até 25 graus abaixo de zero e ventos acima dos 100 km/h. As atividades externas são reduzidas e as salas de computadores, agora com internet banda larga, são o maior alento.

Desde o ano passado, os brasileiros que vivem no gelo também podem se comunicar com o país por celular, pagando tarifa local (quando a ligação for para o Rio de Janeiro, cidade da maioria deles) ou a mesma taxa para interurbanos cobrada no Brasil (quando o telefonema for para outras cidades). Churrascos e transmissões esportivas ao vivo também ajudam a quebrar o "gelo" e a rotina. Comida é o que não falta: a estação é abastecida anualmente com cerca de 4 toneladas de carnes diversas, 775 quilos de peixes e frutos do mar, 500 quilos de feijão e 1.200 quilos de arroz, além de pães, doces e enlatados abundantes. Junto com o salário triplicado, a fartura ajuda a suavizar a saudade de casa.