Aventura no mar de ninguém
Num catamarã sem cabine e sem motor, dois velejadores vão do Chile à Polinésia pela rota que barco nenhum quer fazer
Paulo Lencina
Matéria publicada na edição 191 (Março/2008) de Terra
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Ao verem a terra firme se distanciar até que o catamarã Bye Bye Brasil virasse uma minúscula ilha cercada de Pacífico por todos os lados, Beto Pandiani e Igor Bely sentiram-se aliviados. Os últimos dias da preparação para a travessia do maior oceano do mundo não tinham sido nada fáceis. O trabalho na montagem final do barco, a negociação com a Marinha chilena para a liberação da viagem e o mau tempo haviam adiado a partida em três oportunidades, aumentando cada vez mais a tensão pré-viagem. "Como nas travessias anteriores, senti medo antes de colocar o barco n'água, mas depois passou", confessou Pandiani. A ansiedade era uma tripulante indesejada, porém inevitável. Será que a embarcação agüentaria as tempestades em alto-mar? O corpo suportaria os dias exaustivos e as noites sem dormir direito? Encontrariam temíveis tubarões pela frente? As perguntas eram muitas e as respostas, poucas - até porque o caminho escolhido por eles era uma rota de ninguém. Quase nenhuma embarcação - seja ela um veleiro esportivo ou um navio mercante - vai do Chile à Polinésia Francesa pelo faixa marítima demarcada pelos paralelos 22 e 30. Em outras palavras, um resgate nessa altura da imensidão azul poderia levar dias, e chegar tarde demais.
Beto e Igor haviam se prevenido como podiam, levando GPS, telefones via satélite e notebook. Mas sabiam que, à medida que deixavam para trás os picos nevados da Cordilheira dos Andes - que eram a última visão do continente -, estariam mergulhando numa jornada incerta e arriscada. Mas não viam a hora de começar o desafio. O dia da partida na cidade chilena de Viña del Mar estava perfeito. Fazia sol, havia poucas nuvens no céu, os ventos eram favoráveis e o mar se mostrava calmo. O frio típico de outubro também não incomodava. E, conforme garantia o meteorologista Pierre Larsnier, uma espécie de São Pedro da equipe, não haveria sobressaltos à vista se os velejadores fizessem um ligeiro desvio de rota, seguindo até a Ilha de San Felix antes de tomar o rumo da Ilha de Páscoa. Por causa do fenômeno El Niño, avisou ele, os ventos alísios de sudeste, constantes na região, estavam soprando mais ao norte. O novo trajeto garantiria ventos mais regulares, embora aumentasse consideravelmente a distância. Enquanto isso, a fotógrafa Maristela Colucci e os cinegrafistas Dudu Teiman e Maurício Porto voariam para Páscoa, onde organizariam a base de apoio da travessia. Experientes navegadores, Beto e Igor sentiram o peso da solidão em alto-mar logo na primeira noite. Revezando - se em turnos de duas horas junto ao timão, aliviavam o cansaço com breves cochilos na barraca, mantendo o corpo amarrado por um cabo para não cair na água. Pior foi perceberem, na manhã seguinte, que o barco não conseguia avançar por falta de vento.
Foram 20 horas de calmaria. Beto, desgastado pela primeira noite, passou mal. "Pensei: o que estou fazendo aqui?", relembra ele. O companheiro Igor segurou as pontas: dessalinizou água, preparou a comida, transmitiu dados pelo notebook acoplado ao telefone via satélite e conduziu sozinho a embarcação. Os dias seguintes foram de ventos fortes, mar mexido e temperatura baixa. A rotina a bordo transformou-se numa montanha-russa gélida e molhada, com ondas varrendo o convés a todo instante. Até coisas simples, como abrir a gaiúta para pegar mantimentos, era uma tarefa penosa. Também não conseguiam dormir direito, com a água entrando na barraca sem parar. Apesar dos percalços, ao passarem ao largo de San Felix reportaram via rádio as boas condições a bordo ao destacamento da Marinha chilena. Um dia depois, a dupla descobriu que a caixa de leme estava trincada. O jeito foi baixar as velas e improvisar um conserto. Igor reforçou a peça de alumínio passando um cabo em volta dela. Para evitar que o remendo se soltasse e o barco ficasse sem direção, o ritmo da viagem foi diminuído drasticamente. Avisada pelo telefone via satélite, a equipe em terra já providenciava um soldador na Ilha de Páscoa.
Velejador acostumado com longas travessias de catamarã, Beto Pandiani experimentava dessa vez um desafio novo. Era a sua primeira empreitada em mar aberto, longe do continente, o que significava que as dificuldades de bordo teriam de ser superadas ali mesmo, em alto-mar, com muito jogo de cintura. "Nesses momentos, vale mais a atitude mental que a força física", observa Pandiani, que aprendeu a compensar as condições espartanas de uma velejada como essa com pequenos momentos de felicidade proporcionados por um pôr-do-sol espetacular ou um surpreendente encontro com uma baleia. A dupla, aliás, chegou a ver a corcova de uma delas e tentou registrar o fato com a filmadora e a câmera fotográfica. Não deu tempo. "Ela nos driblou e não apareceu mais", diverte-se Beto Pandiani. Pouco a pouco, o frio deixou de ser um inimigo constante, mas a falta de vento persistia. Navegando em ziguezague, em busca das melhores posições das correntes de ar, a dupla percorria cerca de 300 quilômetros diários para avançar pouco mais da metade em linha reta. Com a viagem se arrastando além do previsto, a vida no Bye Bye Brasil adquiriu ares caseiros nos trechos em que os navegantes deixavam o piloto automático ligado. Preparavam a comida liofizada com mais capricho na microcozinha, liam algum livro ou ouviam música - havia 15 mil opções armazenadas no iPod. Pandiani aproveitou para ler O Longo Caminho, de Bernard Montessier, enquanto Igor se dedicou a um livro francês cujo título, traduzido para o português, não podia ser mais sugestivo: "Mas... O que eu estou fazendo aqui?".
A biblioteca de bordo contava ainda com mais duas obras. Eles também tentaram pescar, mas sem sucesso. Antes de ancorar em Páscoa, os companheiros de travessia enfrentariam uma seqüência de dias nublados, inclusive com tempestades, que os fariam sonhar com roupas secas, cama confortável e banho quente. A falta de sol os obrigou a mudar a matriz energética da embarcação, trocando as placas solares por um dínamo hidráulico que retirava da água a força para os equipamentos eletrônicos. O Bye Bye Brasil, aliás, foi projetado para consumir apenas energia limpa. "Beto, olha lá!". Depois de 2.700 quilômetros, 18 dias velejados e pequenos contratempos, Igor contava a boa nova: Ilha de Páscoa à vista. Uma comitiva de remadores de piroga foi ao encontro da dupla no mar, e o campeão local da modalidade subiu a bordo para dar as boas-vindas em rapa nui, a língua nativa. A emoção aumentou ainda mais no reencontro com a equipe de apoio, formada por Maristela, Dudu e Maurício, e as homenagens em terra firme pelo feito que os locais consideravam espantoso.
De certa forma, porém, o catamarã de Beto e Igor estava fazendo uma viagem de volta às origens dessa embarcação, já que a Ilha de Páscoa pertence culturalmente à Polinésia, onde esse tipo de barco de cascos paralelos foi inventado. "O barco é um grande embaixador", comenta Beto Pandiani, lembrando o farto banquete com que foram recepcionados na Ilha de Páscoa. "Um turista nunca seria tratado da mesma forma. Muito menos ficaria numa casa rapa nui no vilarejo de Atan Pakarati, um lugar gramado no alto de uma montanha com vista privilegiada para o mar azul. A família que nos hospedou na ilha fez questão de contar seus costumes e nos apresentar a seus amigos", destaca a fotógrafa Maristela Colucci. Os velejadores passaram duas semanas na ilha, tempo suficiente para conhecer o local e consertar a caixa de leme do barco. A hora de dizer adeus não foi fácil. Os moradores subiram no alto do vulcão Rano Raraku para acenar a Igor e Beto e acompanhar a trajetória do barco até que ele sumisse de vista. Desta vez seriam pouco mais de 2 mil quilômetros até Mangareva, metade da distância percorrida na primeira perna da viagem, de Viña del Mar a Páscoa. Como de praxe, a equipe de apoio voou para o destino seguinte da travessia. Os primeiros dias de retomada foram de vento calmo, sol e muito calor. A temperatura média era de 32 graus centígrados durante o dia, obrigando os velejadores a seguidos banhos de balde com água do mar. Vencer o tédio era outro desafio, já que não havia a menor sombra de novidade no horizonte. A afinidade entre os navegantes foi fundamental nesse trecho para suportar a opressão do descomunal deserto de água que é o Pacífico Sul.
De futebol a piadas de papagaio, tudo era motivo de conversa - mas chegava uma hora em que não havia mais assunto. Certa vez, depois de passarem o dia inteiro calados, Igor puxou conversa ao cair da noite: "Está bem friozinho, né, Beto?". E o outro, sem tirar os olhos do mar: "É". Isso foi tudo. O papo ficou por aí. A viagem interior era muito mais profunda que a viagem em si. Finalmente, a 300 quilômetros de Mangareva um fato trouxe novo movimento à rotina de Igor e Beto: a descoberta de uma rachadura na travessa frontal do barco. A peça, que mantém os dois cascos paralelos e unidos, é fundamental no catamarã. A solução foi improvisar outra vez com um cabo para evitar que a combalida travessa quebrasse de vez. O pessoal de apoio em terra foi avisado e acionou as autoridades. "Mobilizamos toda a ilha de Mangareva", conta Maristela Colucci. A Marinha francesa monitorou a embarcação por rastreador e se preparou para uma ação de resgate aos tripulantes. Mas deixou claro que, nessa eventualidade, o catamarã seria abandonado com todos os materiais e equipamentos de bordo, comprometendo a travessia tão meticulosamente planejada. Cientes dessa ameaça, Beto e Igor navegaram o mais cuidadosamente possível para não forçar o barco avariado - e, ironicamente, tiveram de lutar contra os ventos fortes que passaram a soprar.
As correntes de ar chegavam a 35 nós, cerca de 65 quilômetros por hora, obrigando-os a jogar 100 metros de cabo na água para fazer arrasto e frear um pouco o Bye Bye Brasil. A cama de Beto, que ficava do lado defeituoso, não pôde mais ser usada. O jeito foi revezar a barraca com Igor no turno da noite. Apesar dos problemas, a confiança em chegar ao destino seguia inabalável. Faltava pouco, afinal. Beto repetia mentalmente seu mantra favorito: "Este barco vai chegar a Mangareva. Contra as previsões da Marinha francesa, que escoltou o catamarã nos quilômetros finais, os dois aportaram sãos e salvos na pequena baía dessa ilha da Polinésia, onde foram recebidos com aplausos por um pequeno grupo de pessoas. A primeira parte da grande travessia do Pacífico Sul, do Chile ao Taiti, estava completada. Restava agora esperar passar a temporada de tufões na região para encarar a metade final - uma história que começará a ser escrita dentro de poucas semanas, no mês de abril.
A travessia do Pacífico Sul começou em 9 de outubro de 2007 em Viña del Mar, no Chile. Os velejadores levaram 18 dias para vencer os 5 mil quilômetros até a Ilha de Páscoa. Em 12 de novembro de 2007, partiram para Mangareva, na Polinésia, chegando no dia 27 do mesmo mês, depois de percorrer 3700 quilômetros. A viagem será retomada em 22 de abril próximo, em direção a Brisbane, na Austrália, distante 9300 quilômetros. Com escalas em Fakarava, Rangiroa e Papeete, Beto Pandiani e Igor Bely esperam desembarcar na cidade australiana no meio de julho.
Para os dois protagonistas da travessia do Pacífico Sul, a terra firme é apenas o lugar onde eles costumam planejar as grandes aventuras de suas vidas - realizadas sempre em alto-mar. O paulistano Beto Pandiani, de 50 anos, ex-dono de restaurantes e casas noturnas, dedica-se a desafios marítimos desde que conseguiu viabilizar o primeiro deles com patrocínios. Entre suas principais conquistas estão as travessias de Miami a Ilhabela (1994), a da Argentina à Antártica (2003) e a de Nova York à Groenlândia (2006). Já o francês Igor Bely, de 24 anos, viveu até os 18 anos no veleiro dos pais, no qual navegou 400 mil quilômetros pelos sete mares, chegando a fazer 20 expedições a regiões polares.
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Beto e Igor haviam se prevenido como podiam, levando GPS, telefones via satélite e notebook. Mas sabiam que, à medida que deixavam para trás os picos nevados da Cordilheira dos Andes - que eram a última visão do continente -, estariam mergulhando numa jornada incerta e arriscada. Mas não viam a hora de começar o desafio. O dia da partida na cidade chilena de Viña del Mar estava perfeito. Fazia sol, havia poucas nuvens no céu, os ventos eram favoráveis e o mar se mostrava calmo. O frio típico de outubro também não incomodava. E, conforme garantia o meteorologista Pierre Larsnier, uma espécie de São Pedro da equipe, não haveria sobressaltos à vista se os velejadores fizessem um ligeiro desvio de rota, seguindo até a Ilha de San Felix antes de tomar o rumo da Ilha de Páscoa. Por causa do fenômeno El Niño, avisou ele, os ventos alísios de sudeste, constantes na região, estavam soprando mais ao norte. O novo trajeto garantiria ventos mais regulares, embora aumentasse consideravelmente a distância. Enquanto isso, a fotógrafa Maristela Colucci e os cinegrafistas Dudu Teiman e Maurício Porto voariam para Páscoa, onde organizariam a base de apoio da travessia. Experientes navegadores, Beto e Igor sentiram o peso da solidão em alto-mar logo na primeira noite. Revezando - se em turnos de duas horas junto ao timão, aliviavam o cansaço com breves cochilos na barraca, mantendo o corpo amarrado por um cabo para não cair na água. Pior foi perceberem, na manhã seguinte, que o barco não conseguia avançar por falta de vento.
Foram 20 horas de calmaria. Beto, desgastado pela primeira noite, passou mal. "Pensei: o que estou fazendo aqui?", relembra ele. O companheiro Igor segurou as pontas: dessalinizou água, preparou a comida, transmitiu dados pelo notebook acoplado ao telefone via satélite e conduziu sozinho a embarcação. Os dias seguintes foram de ventos fortes, mar mexido e temperatura baixa. A rotina a bordo transformou-se numa montanha-russa gélida e molhada, com ondas varrendo o convés a todo instante. Até coisas simples, como abrir a gaiúta para pegar mantimentos, era uma tarefa penosa. Também não conseguiam dormir direito, com a água entrando na barraca sem parar. Apesar dos percalços, ao passarem ao largo de San Felix reportaram via rádio as boas condições a bordo ao destacamento da Marinha chilena. Um dia depois, a dupla descobriu que a caixa de leme estava trincada. O jeito foi baixar as velas e improvisar um conserto. Igor reforçou a peça de alumínio passando um cabo em volta dela. Para evitar que o remendo se soltasse e o barco ficasse sem direção, o ritmo da viagem foi diminuído drasticamente. Avisada pelo telefone via satélite, a equipe em terra já providenciava um soldador na Ilha de Páscoa.
O DRIBLE DA BALEIA
Velejador acostumado com longas travessias de catamarã, Beto Pandiani experimentava dessa vez um desafio novo. Era a sua primeira empreitada em mar aberto, longe do continente, o que significava que as dificuldades de bordo teriam de ser superadas ali mesmo, em alto-mar, com muito jogo de cintura. "Nesses momentos, vale mais a atitude mental que a força física", observa Pandiani, que aprendeu a compensar as condições espartanas de uma velejada como essa com pequenos momentos de felicidade proporcionados por um pôr-do-sol espetacular ou um surpreendente encontro com uma baleia. A dupla, aliás, chegou a ver a corcova de uma delas e tentou registrar o fato com a filmadora e a câmera fotográfica. Não deu tempo. "Ela nos driblou e não apareceu mais", diverte-se Beto Pandiani. Pouco a pouco, o frio deixou de ser um inimigo constante, mas a falta de vento persistia. Navegando em ziguezague, em busca das melhores posições das correntes de ar, a dupla percorria cerca de 300 quilômetros diários para avançar pouco mais da metade em linha reta. Com a viagem se arrastando além do previsto, a vida no Bye Bye Brasil adquiriu ares caseiros nos trechos em que os navegantes deixavam o piloto automático ligado. Preparavam a comida liofizada com mais capricho na microcozinha, liam algum livro ou ouviam música - havia 15 mil opções armazenadas no iPod. Pandiani aproveitou para ler O Longo Caminho, de Bernard Montessier, enquanto Igor se dedicou a um livro francês cujo título, traduzido para o português, não podia ser mais sugestivo: "Mas... O que eu estou fazendo aqui?".
A biblioteca de bordo contava ainda com mais duas obras. Eles também tentaram pescar, mas sem sucesso. Antes de ancorar em Páscoa, os companheiros de travessia enfrentariam uma seqüência de dias nublados, inclusive com tempestades, que os fariam sonhar com roupas secas, cama confortável e banho quente. A falta de sol os obrigou a mudar a matriz energética da embarcação, trocando as placas solares por um dínamo hidráulico que retirava da água a força para os equipamentos eletrônicos. O Bye Bye Brasil, aliás, foi projetado para consumir apenas energia limpa. "Beto, olha lá!". Depois de 2.700 quilômetros, 18 dias velejados e pequenos contratempos, Igor contava a boa nova: Ilha de Páscoa à vista. Uma comitiva de remadores de piroga foi ao encontro da dupla no mar, e o campeão local da modalidade subiu a bordo para dar as boas-vindas em rapa nui, a língua nativa. A emoção aumentou ainda mais no reencontro com a equipe de apoio, formada por Maristela, Dudu e Maurício, e as homenagens em terra firme pelo feito que os locais consideravam espantoso.
De certa forma, porém, o catamarã de Beto e Igor estava fazendo uma viagem de volta às origens dessa embarcação, já que a Ilha de Páscoa pertence culturalmente à Polinésia, onde esse tipo de barco de cascos paralelos foi inventado. "O barco é um grande embaixador", comenta Beto Pandiani, lembrando o farto banquete com que foram recepcionados na Ilha de Páscoa. "Um turista nunca seria tratado da mesma forma. Muito menos ficaria numa casa rapa nui no vilarejo de Atan Pakarati, um lugar gramado no alto de uma montanha com vista privilegiada para o mar azul. A família que nos hospedou na ilha fez questão de contar seus costumes e nos apresentar a seus amigos", destaca a fotógrafa Maristela Colucci. Os velejadores passaram duas semanas na ilha, tempo suficiente para conhecer o local e consertar a caixa de leme do barco. A hora de dizer adeus não foi fácil. Os moradores subiram no alto do vulcão Rano Raraku para acenar a Igor e Beto e acompanhar a trajetória do barco até que ele sumisse de vista. Desta vez seriam pouco mais de 2 mil quilômetros até Mangareva, metade da distância percorrida na primeira perna da viagem, de Viña del Mar a Páscoa. Como de praxe, a equipe de apoio voou para o destino seguinte da travessia. Os primeiros dias de retomada foram de vento calmo, sol e muito calor. A temperatura média era de 32 graus centígrados durante o dia, obrigando os velejadores a seguidos banhos de balde com água do mar. Vencer o tédio era outro desafio, já que não havia a menor sombra de novidade no horizonte. A afinidade entre os navegantes foi fundamental nesse trecho para suportar a opressão do descomunal deserto de água que é o Pacífico Sul.
De futebol a piadas de papagaio, tudo era motivo de conversa - mas chegava uma hora em que não havia mais assunto. Certa vez, depois de passarem o dia inteiro calados, Igor puxou conversa ao cair da noite: "Está bem friozinho, né, Beto?". E o outro, sem tirar os olhos do mar: "É". Isso foi tudo. O papo ficou por aí. A viagem interior era muito mais profunda que a viagem em si. Finalmente, a 300 quilômetros de Mangareva um fato trouxe novo movimento à rotina de Igor e Beto: a descoberta de uma rachadura na travessa frontal do barco. A peça, que mantém os dois cascos paralelos e unidos, é fundamental no catamarã. A solução foi improvisar outra vez com um cabo para evitar que a combalida travessa quebrasse de vez. O pessoal de apoio em terra foi avisado e acionou as autoridades. "Mobilizamos toda a ilha de Mangareva", conta Maristela Colucci. A Marinha francesa monitorou a embarcação por rastreador e se preparou para uma ação de resgate aos tripulantes. Mas deixou claro que, nessa eventualidade, o catamarã seria abandonado com todos os materiais e equipamentos de bordo, comprometendo a travessia tão meticulosamente planejada. Cientes dessa ameaça, Beto e Igor navegaram o mais cuidadosamente possível para não forçar o barco avariado - e, ironicamente, tiveram de lutar contra os ventos fortes que passaram a soprar.
As correntes de ar chegavam a 35 nós, cerca de 65 quilômetros por hora, obrigando-os a jogar 100 metros de cabo na água para fazer arrasto e frear um pouco o Bye Bye Brasil. A cama de Beto, que ficava do lado defeituoso, não pôde mais ser usada. O jeito foi revezar a barraca com Igor no turno da noite. Apesar dos problemas, a confiança em chegar ao destino seguia inabalável. Faltava pouco, afinal. Beto repetia mentalmente seu mantra favorito: "Este barco vai chegar a Mangareva. Contra as previsões da Marinha francesa, que escoltou o catamarã nos quilômetros finais, os dois aportaram sãos e salvos na pequena baía dessa ilha da Polinésia, onde foram recebidos com aplausos por um pequeno grupo de pessoas. A primeira parte da grande travessia do Pacífico Sul, do Chile ao Taiti, estava completada. Restava agora esperar passar a temporada de tufões na região para encarar a metade final - uma história que começará a ser escrita dentro de poucas semanas, no mês de abril.
MEIO ANO NO MAR
A travessia do Pacífico Sul começou em 9 de outubro de 2007 em Viña del Mar, no Chile. Os velejadores levaram 18 dias para vencer os 5 mil quilômetros até a Ilha de Páscoa. Em 12 de novembro de 2007, partiram para Mangareva, na Polinésia, chegando no dia 27 do mesmo mês, depois de percorrer 3700 quilômetros. A viagem será retomada em 22 de abril próximo, em direção a Brisbane, na Austrália, distante 9300 quilômetros. Com escalas em Fakarava, Rangiroa e Papeete, Beto Pandiani e Igor Bely esperam desembarcar na cidade australiana no meio de julho.
HOMENS DO MAR
Para os dois protagonistas da travessia do Pacífico Sul, a terra firme é apenas o lugar onde eles costumam planejar as grandes aventuras de suas vidas - realizadas sempre em alto-mar. O paulistano Beto Pandiani, de 50 anos, ex-dono de restaurantes e casas noturnas, dedica-se a desafios marítimos desde que conseguiu viabilizar o primeiro deles com patrocínios. Entre suas principais conquistas estão as travessias de Miami a Ilhabela (1994), a da Argentina à Antártica (2003) e a de Nova York à Groenlândia (2006). Já o francês Igor Bely, de 24 anos, viveu até os 18 anos no veleiro dos pais, no qual navegou 400 mil quilômetros pelos sete mares, chegando a fazer 20 expedições a regiões polares.
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