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Na santa paz da Colômbia

Neste pedaço do país de García Márquez e das Farc, você pisa na areia quente enquanto olha para um pico nevado

Por Henrique Skujis, de San Juan de la Guía

Matéria publicada na edição 189 (Janeiro/2008) de Terra


Everton Ballardin

Praia de Arrecifes: a grande recompensa para o trekking de 8 quilômetros pela Sierra Nevada

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Receita para uma confusão mental e sensorial: 1) Coloque o pé em uma praia selvagem de areia quente e olhe para um pico nevado. 2) Caminhe por seis horas pela linda serra íngreme, enlameada e cheia de mosquitos que separa esses dois extremos. 3) Altere o olhar entre a gigante montanha gelada e a infinidade de formigas que desfilam em bloco sob os seus pés. 4) Imagine que naquela serra, há 500 anos, conquistadores espanhóis mataram ou subjugaram em pouco mais de meio século dezenas de milhares de índios tayronas. 5) Tente conversar com os descendentes longínquos e diretos dos sobreviventes do massacre, que moram lá até hoje. 6) Lembre-se que você está em uma selva colombiana, país com quase um terço de seu território dominado pelos guerrilheiros das Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que há 43 anos desafiam a ordem no país.

O cenário dessa aparente desordem da mente e dos sentidos é o Parque Nacional Tayrona, quase no extremo norte do país. Trata-se de uma faixa costeira com 85 quilômetros de Caribe ladeada pela imponente Sierra Nevada, espécie de Andes fora do lugar, onde os 5 775 metros da Simón Bolívar, a montanha litorânea mais alta do planeta, são os donos do horizonte. Maneira boa de conhecer esse desconhecido pedaço do país do escritor Gabriel García Márquez, do pintor Fernando Botero, do ex-futebolista Carlos Alberto Valderrama, da pop star Shakira e de Betty (a feia) é encarar um trekking ou uma cavalgada de 8 quilômetros e seis horas (veja mapa) entre Calabazo e uma sucessão de praias capazes de fazer qualquer brasileiro descer do salto alto para falar de seu próprio litoral.

Para isso, deixe pra lá as técnicas de escaladas e alpinismo e prepare-se para encharcar a camiseta de suor no sobe-e-desce das encostas. Há passagens apertadas, degraus altos, longos trechos enlameados e travessias de riachos formados pelo degelo. O visual lembra a Serra do Mar, mas coloque no enquadramento pedras de muitos metros de altura e, claro, a imponência da coroa nevada da Simón Bolívar. Na reserva natural de 19 mil hectares -parte terrestre, parte marinha -, iguanas laçam mosquitos com a língua, macacos voam de galho em galho, pelicanos mergulham em busca do almoço e seres humanos conduzem mulas carregadas de maracujá, laranja, limão, coco e abacate. Tudo isso você vai ver. Já as jaguatiricas, que dizem existir, não estão visíveis a olho nu.

O acesso difícil ajuda a preservar essas paragens, deixando-as bastante parecidas com aquelas descortinadas pelas caravelas espanholas que chegaram aqui em 1499. Em Mar de Sangre, livro sobre a saga dos navegadores espanhóis e as investidas de franceses, holandeses e ingleses para abocanhar qualquer naco de tesouro do Novo Mundo, o escritor Arturo Aparicio Lacerda pergunta: "Vocês conseguem imaginar a surpresa daqueles homens ao encontrar a poucas léguas de distância do Mar do Caribe, em meio àquele clima desalmado, uma montanha envolta em neve?". O queixo dos europeus também deve ter ido ao chão ao perceberem a riqueza das terras recém-descobertas. Parafraseando o escritor, pergunto: vocês conseguem imaginar a surpresa daqueles homens ao dar de cara com índios cheios de ouro pelo corpo, inclusive adornando os tapas-sexo? Vale lembrar que foi na Colômbia, um pouco mais ao sul, que nasceu o mito do El Dorado, que fala de rituais indígenas nos quais o ouro era tratado como se caísse do céu. Os espanhóis podem não ter sido contemplados com chuvas de pepitas douradas, mas encheram um bocado de navios com o mais nobre dos metais. A lenda e, claro, as embarcações carregadas de tesouro atraíram hordas de piratas e fizeram do Caribe do século 16 palco de um acirrado bangue-bangue em alto-mar.

Santa Marta, a maior e mais antiga cidade dessa área, sofreu dezenas de invasões avassaladoras (veja quadro). Historiadores dizem que o cume da Simón Bolívar servia como um farol natural para frotas inimigas e piratas. Cartagena, um pouco mais a oeste, também foi palco de batalhas sangrentas e recebeu grossas muralhas para brecar a festa dos corsários. Os séculos passaram, o ouro foi levado e hoje o antigo El Dorado está na mira de viajantes descolados. O país lançou uma ousada campanha para triplicar o número de visitantes estrangeiros (estacionado em 1,3 milhão por ano desde os anos 80, antes da explosão da guerra civil) até 2010. O slogan é: "Colômbia, o único risco é querer ficar".

MAIS DINHEIRO E MAIS POLICIAIS


Se a ação dos guerrilheiros ainda mantém a nação muito longe de uma Dinamarca no quesito segurança, é bom lembrar que há menos de uma década nem os próprios colombianos ousavam viajar pelo país. As Farc continuam na pauta do dia e em posse de centenas de reféns, entre militares e civis que nada têm a ver com o peixe. No entanto, a guerrilha parece mais mansa desde que o presidente Alvaro Uribe subiu ao poder e, com uma dinheirama enviada pelos Estados Unidos, priorizou o combate aos rebeldes. "Antes, tínhamos um policial para cada 3 mil habitantes. Hoje, somos um para cada 800", nos conta um oficial, depois de pedir gentilmente para não ser identificado. Por isso, não se assuste ao ver tanto militar armado nas ruas e nas estradas. Até prova em contrário, eles passam muito mais segurança do que medo.
Outro capricho para o visitante é a indiscutível simpatia dos colombianos, que em recente pesquisa feita em 134 países foram considerados os mais felizes da América do Sul. A satisfação com a vida reflete-se no dia-a-dia. O sorriso brota fácil dos rostos mestiços, seja nas grandes cidades, como Bogotá (7,5 milhões de habitantes), seja nas praias mais escondidas do Parque Nacional Tayrona. Falando nelas, voltemos a falar delas.

No trekking, as chances de dar de cara com algum guerrilheiro das Farc tendem a zero, uma vez que a selva onde o bicho pega fica a mais de 1.500 quilômetros. Depois de passar por uma aldeia indígena onde vivem duas acanhadas famílias descendentes dos tayronas, chegamos em alto estilo a uma senhora seqüência de praias: Cabo San Juan de la Guía, La Piscina, Arrecifes e Cañaveral. O renomado jornal inglês The Guardian elegeu o litoral do parque o segundo mais bonito do mundo, atrás apenas das ilhas Cíes, na Galícia (e à frente do Porto da Barra, em Salvador). Opinião discutível, até porque ingleses não entendem muito de praia. Mas também está longe de ser uma conclusão absurda, como mostram as fotos desta reportagem. O Caribe colombiano é mesmo de aplaudir de pé. Ou deitado na areia nem tão branca ou fina. Só não esqueça de virar o pescoço em direção à Simón Bolívar. Definitivamente, boiar nas águas mornas do Caribe com os olhos em um pico nevado, mesmo que quase sempre escondido pelas nuvens, não acontece em qualquer lugar do mundo.

400 ANOS DE SOLIDÃO


Não sobrou muito tempo para os descobridores tomarem sol e apreciar as praias colombianas. Os índios tayronas, que, estima-se, viviam na área desde o século 5, não foram anfitriões a ponto de servir chá e bolacha para visitantes armados. Intimidados pela ação letal da pólvora, uns até aceitaram trocar indumentárias de ouro pelas bugigangas do branco. Mas a maioria dos "não-civilizados" defendeu suas terras como pôde. Muitos escaparam e se esconderam em pedaços mais altos da Sierra Nevada. Por mais de 400 anos se isolaram ali, ocultos sob a densa vegetação. Até que no século passado foram encontrados por caçadores de tesouros arqueológicos. Números não-oficiais dão conta de 200 povoados e uma população de mais de 40 mil indígenas, hoje divididos entre kogis, arhuacos e wiwas nas encostas da serra. No trajeto entre uma das três entradas do parque nacional e o litoral, reserve pelo menos uma hora para bater perna pelo acanhado povoado Chairama, destruído pelos espanhóis em 1535, redescoberto em 1922 e hoje conhecido como Pueblito. Plantado a 220 metros de altura, acomoda apenas duas famílias que vivem em casas circulares sobre terraços de pedra construídos há cinco séculos. Quando o turista mais interessado puxa conversa, recebe o silêncio como resposta. Difícil trocar idéia com eles: as mulheres não falam o espanhol e os homens não dão muita bola para o forasteiro. A dificuldade de comunicação em pleno século 21 faz a mente viajar para os idos de 1500, quando os indígenas nem sequer sabiam da existência do homem branco.

A AGITADA TAGANGA


Se o Parque Nacional Tayrona não tiver saciado seu apetite por praias e você esteja sentindo falta de movimento e de som alto nos bares à beira-mar, dê um pulo em Taganga, a apenas 5 quilômetros do malconservado centro de Santa Marta. A vila de pescadores de 2.500 habitantes se enche de visitantes nos finais de semana, muitos deles jovens mochileiros. Há até quem ignore a caminhada descrita no texto principal da matéria para se hospedar em Taganga e visitar as praias do parque em passeios de um dia arranjados com os pescadores ou com as muitas agências de turismo locais. Você decide. É uma questão de estilo. Mas o melhor mesmo e fazer os dois. Programa bom ali é acompanhar o mercado improvisado que se forma na areia a cada chegada de um barco cheio de peixes.

O LUGAR ONDE O LIBERTADOR DESCANSOU


Santa Marta, com meio milhão de habitantes, é o ponto de partida natural para quem vai ao Parque Nacional Tayrona. É também uma cidade com muita história - basta dizer que é uma das mais antigas da Colômbia. Foi fundada em 1525 por Rodrigo de Bastidas, justamente para escoar a riqueza roubada dos tayronas. Os índios se deram mal, é verdade, mas sua resistência e as constantes investidas de piratas nunca deixaram Santa Marta em paz para progredir. Sua catedral, a primeira na Colômbia, começou a ser construída logo após a fundação da cidade, mas foi completada apenas no final do século 18. Reflexo desse período tumultuado, a catedral é uma mistura de estilos arquitetônicos, do barroco ao renascentista.
As cinzas de Bastidas ainda estão na igreja, perto do mausoléu onde repousou por 13 anos o corpo de Simón Bolívar. O libertador da América, cujo nome completo era Simon José Antonio de La Santíssima Trindad Bolívar Palácios Ponte Blanco Sojos Viegas de las Américas de Índias, passou seus últimos dias em Santa Marta, na Quinta de San Pedro Alejandrino, outro local que merece ser visitado.

Na fazenda, construída no começo do século 17, é possível ver a carruagem que trouxe Bolívar até lá, assim como o quarto onde ele bateu as botas, em 17 de dezembro de 1830, e o relógio parado na hora exata de sua morte. "Se o sol da América se escondeu, as horas também devem parar", teria dito o coronel Mariano Mortilla, fiel escudeiro de Bolívar e responsável por brecar os ponteiros em homenagem ao libertador que sucumbiu aos 47 anos, vítima de sífilis, cirrose e tuberculose, doenças que o deixaram com apenas 35 quilos. O museu montado no local guarda ainda um cacho de cabelo do militar e a partitura da música tocada para anunciar sua morte. Em 1843, o corpo de Bolívar, atendendo a seu pedido, foi levado para Caracas, na Venezuela, local de seu nascimento.

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  1. CARTA DE NAVEGAÇÃO