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Memórias do Pantanal

Se a devastação na região continuar no ritmo atual, o livro lançado agora por Valdemir Cunha pode, infelizmente, tornar-se a única lembrança do último éden

Matéria publicada na edição 187 (Novembro/2007) de Terra


Valdemir Cunha

A beleza do Pantanal também surge nos detalhes de uma lagarta

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O lançamento do livro Pantanal - O Último Éden, do fotógrafo Valdemir Cunha, editor executivo da Revista TERRA, reabre uma discussão antiga e fundamental, porém inacabada: até quando o Pantanal Matogrossense irá suportar as agressões a que é submetido diariamente? As belas fotografias do paulistano de 41 anos, realizadas em suas mais de 50 viagens à região nas últimas duas décadas, retratam um Pantanal ainda cheio de vida e exuberância, mas servem também para lançar um apelo. Não podemos continuar a fechar os olhos para o notório processo de devastação que ocorre ali.

Produtores de soja, é verdade, vêm abrindo suas fazendas para biólogos iniciarem estudos com o intuito de verificar os problemas causados pelas grandes monoculturas. Mineradoras também afirmaram a disposição de se tornarem auto-suficientes em madeira - usando área de reflorestamento - para evitar a utilização de carvão vegetal produzido com árvores do Pantanal. Se idéias como essas não forem levadas adiante, a maior planície alagada do mundo pode se transformar num deserto. Em 2005, um estudo da ONG ambientalista Conservação Internacional concluiu que o Pantanal estava sendo desmatado ao ritmo de 3 milhões de hectares por ano. Isso equivale a mil Maracanãs postos diariamente abaixo nas franjas da planície pantaneira. Cerca de 17% da mata original já se foi. Fazendo as contas, se nada mudar, o que resta levará 45 anos para ser riscado do mapa.

Os vilões da história são muitos, mas, como relata o jornalista Xavier Bartaburu, autor dos textos que acompanham as imagens do livro, um dos mais perigosos é o sórdido acordo entre os novos proprietários de terra e as carvoarias que infestam os arredores. Elas derrubam a mata, ficam com as árvores e, sem cobrar nada, entregam a terra limpa aos fazendeiros. Estes, por sua vez, logo enchem o chão de capim africano, extremamente nocivo ao Pantanal.

Perigo real e imediato
Alarmismo? Pois esses dados se referem apenas ao desmatamento. Há que lembrar também a ação das lavouras de cana, soja e algodão nas vizinhanças. A maioria fica no planalto, bem perto das nascentes, que depois se transformarão nos rios pantaneiros. Adivinhe para onde vão os fertilizantes e pesticidas usados nas plantações.

Tanto o desmatamento quanto a lavoura acabam levando à erosão do solo. E, num lugar onde os rios correm vagarosos, os sedimentos têm todo o tempo do mundo para instalar-se no chão do Pantanal. É sintomático o caso do Taquari, rio que corta a planície ao meio. Estima-se que receba 2 mil metros cúbicos de sedimentos por dia - algo como 250 caminhões-betoneiras despejando areia direto em suas águas. Resultado: assoreado, o leito torna-se mais raso, e a área de inundação, maior. Em algumas fazendas próximas ao Taquari, até a pista de pouso ficou debaixo da água. Essas propriedades tiveram de ser abandonadas.

Não bastasse a mudança de comportamento dos rios, alguns bichos ainda sofrem com a cobiça de caçadores. Por causa do isolamento e da dificuldade de fiscalização, o tráfico de animais silvestres vê o Pantanal como bela fonte de produtos para exportação. Por "produtos", entendamse papagaios, canários, jabutis, tamanduás, tatus - espécies que se contam entre as mais capturadas na região. O destino: colecionadores e zoológicos no exterior. Lá fora, um papagaio ou um tucano vale 2 mil dólares. Uma jaguatirica, 10 mil. E uma arara-azul, já vimos, até 25 mil.

Quanto aos peixes pantaneiros, é sabido que, tanto em tamanho quanto em número, eles têm diminuído de maneira espantosa nas últimas décadas. Em alguns rios, simplesmente desapareceram. No fim dos anos 1990, fisgavamse anualmente na região cerca de 1500 toneladas de peixe. Hoje, graças a medidas oficiais, esse volume foi reduzido a um terço. Entretanto, continua havendo menos pacus e jaús no Pantanal do que deveria haver.

Esse quadro todo poderá tornar-se ainda mais grave se algum governo resolver insistir em dois velhos projetos de desenvolvimento. Um já está em andamento: é a criação de um pólo siderúrgico em Corumbá, área onde há minério de ferro em abundância. Como os fornos de fundição exigem muito carvão vegetal, é bem provável que isso acelere o desmatamento. Sem contar as toneladas de gases tóxicos emitidos.

A siderurgia traz ainda outro risco: o de reacender os planos de construção da famigerada hidrovia Paraguai- Paraná. O projeto consiste em aumentar a vazão do Rio Paraguai de modo a permitir a navegação de grandes barcos entre Cáceres e o Rio da Prata. Para a natureza pantaneira, seria um desastre: a hidrovia drenaria boa parte da água que irriga a planície e causaria tremendas mudanças no regime de inundações. A longo prazo, o Pantanal poderia secar de vez.

Saída econômica
É certo que tanto a hidrovia quanto a siderurgia podem ser a solução da crise econômica no Pantanal, mas o preço que ambas cobram é alto demais. Se a pecuária pantaneira ao menos ainda desse lucro, a situação talvez não fosse tão inquietante. O fato é que, graças a décadas consecutivas de divisão de terras entre herdeiros, as fazendas estão cada vez menores. É a chamada "reforma agrária familiar". O que há cem anos era latifúndio hoje são inúmeras propriedades de 5 mil hectares, inviáveis para a criação de gado.

Sem saber o que fazer com essas terras, ou mesmo sem ter a tenacidade suficiente para enfrentar o ambiente indômito, os novos proprietários as vendem a gente de fora, em geral empresários paulistas. Os mesmos que, para aumentar a lucratividade, fazem os tais acordos com carvoarias para derrubar a mata e plantar capim africano. Até os ambientalistas parecem concordar em que o futuro do Pantanal está mesmo nas mãos do homem pantaneiro. Enquanto o modo de vida tradicional for preservado, serão grandes as chances de que a paisagem também o seja. É importante ressaltar que só 5% da planície está protegida por algum tipo de reserva ambiental, quer pública, quer privada. O resto são fazendas ou cidades.

As reservas públicas são apenas cinco, e apenas uma é parque nacional: o do Pantanal Mato-grossense, transformado pela Unesco em Patrimônio da Humanidade. As Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) já somam mais de 20; iniciativas dos próprios fazendeiros como forma de resguardar suas terras da invasão forasteira.

A única invasão permitida, no caso, é a dos turistas. E os proprietários não pouparam esforços para recebê-los: transformaram a sede em pousada, treinaram os vaqueiros, investiram em infra-estrutura. Por fim, descobriram no turismo uma maneira nova e sadia de ganhar dinheiro no Pantanal sem ter que destruí-lo. Afinal, são mais de 100 mil pessoas visitando a região todo ano. E 70% delas, estima-se, gastam em dólar. Basta estar atento aos excessos: gente demais no Pantanal é sempre problema.

Nos últimos anos, começaram a desenhar-se ainda outras alternativas econômicas sustentáveis. Uma delas é a carne orgânica, cada vez mais valorizada no exterior. O Pantanal é um dos poucos lugares no Brasil onde seria possível produzi-la, já que o modo tradicional de criar gado aqui exigiria poucas adaptações para atender às regras do selo orgânico. Na mesma onda veio a idéia do vitelo orgânico: em vez de vender o gado para engorda no planalto, o negócio seria abatê-lo aqui mesmo, segundo os mesmos preceitos. A fauna local também está nos planos: é a implantação de criatórios de jacaré - para produção de carne e couro - e de capivara, cuja carne é surpreendentemente saudável. Tudo, claro, devidamente regulamentado.

Nessa luta para salvar-se a si mesmo e a seu hábitat, o povo pantaneiro há de lembrar que conta com um aliado poderoso: as águas, inimigas milenares do desenvolvimento. Se todos os esforços para conter as ameaças forem inúteis, restará ainda um fiapo de esperança a depositar no próprio ambiente natural. Se chuvas e rios determinaram a ocupação humana do Pantanal nos últimos 500 anos, por que não poderia ser assim nos próximos? É emblemático o caso da Transpantaneira, rodovia que, na década de 1970, amargou quatro anos de enchentes e precisou ser paralisada ainda pela metade. Suas 126 precárias pontes de madeira são hoje o mais eloqüente retrato de uma terra que definitivamente não é para principiantes. É de esperar que continue não sendo.