Cidade de areia
Os pescadores apostam na ira divina e os cientistas teorizam, mas o fato é que Atafona, no litoral fluminense, está desaparecendo
Thiago Medaglia
Matéria publicada na edição 186 (Outubro/2007) de Terra
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Em tom de vidência, a pichação nas ruínas de uma antiga casa (abaixo) anuncia um trecho bíblico do apocalipse. O vento noroeste sopra forte e o sol esquenta a cabeça dos pescadores na praia de Atafona, em São João da Barra, no estado do Rio de Janeiro. As dunas amarelas estão repletas de paredes esburacadas e sem teto - vestígios das habitações de uma gente simples, para quem o avanço do mar sobre o continente tem um motivo bastante claro: foi ira divina. Os moradores mais velhos juram que tudo começou após a construção da Capela Nossa Senhora dos Navegantes de costas para o Oceano Atlântico, há duas décadas.
Para a ciência, no entanto, a investida marinha sobre aquele chão é muito mais remota. De acordo com os pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), esse mesmo fenômeno já ocorreu no passado, entre 3 mil e 5 mil anos atrás, por conta de um processo natural na dinâmica da maré. O grande problema, agora, é o agravamento desse processo pela ação humana sobre o Rio Paraíba do Sul, que deságua em Atafona após percorrer mais de mil quilômetros desde São Paulo.
José Maria Landim, do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia, explica que desembocaduras fluviais são áreas instáveis. "Se o rio fraqueja um pouco, a erosão da linha da costa irá acontecer fatalmente." E o Paraíba do Sul fraquejou bastante. Melhor dizendo, foi enfraquecido pelo homem. Com nascente na Serra da Mantiqueira, nas proximidades do litoral paulista, o curso d'água passa por áreas urbanas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Em seu curso estão 180 cidades e mais de 5 mil indústrias. O resultado é o lançamento diário de 1 bilhão de litros de esgoto não tratado em suas águas. Junte-se a isso o grande número de barragens de usinas hidrelétricas ao longo do percurso do rio e o dano à foz está feito: as barragens impedem a passagem dos sedimentos e o rio perde força. Sem a proteção natural das águas do Paraíba, as areias marinhas penetram na embocadura do rio, assoreando-o, quando deveriam ficar na praia.
Desde o final dos anos 1980, mais de 500 casas já foram engolidas total ou parcialmente pelo mar. "Estive lá há um ano e meio fotografando no canto norte da praia, no qual o rio desemboca. Hoje esse lugar não existe mais", conta o jornalista Érico Elias. Relatórios dos cientistas da UFF apontam para uma progressão assustadora do mar de 3 metros por ano na região. Para comparar, as previsões mais pessimistas de subida do nível dos oceanos em função do aquecimento global apontam para 50 centímetros nos próximos 100 anos. O destino de Atafona é incerto. Já se fala em construir uma nova capela para Nossa Senhora dos Navegantes. Dessa vez, com vista para o mar.
Para a ciência, no entanto, a investida marinha sobre aquele chão é muito mais remota. De acordo com os pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF), esse mesmo fenômeno já ocorreu no passado, entre 3 mil e 5 mil anos atrás, por conta de um processo natural na dinâmica da maré. O grande problema, agora, é o agravamento desse processo pela ação humana sobre o Rio Paraíba do Sul, que deságua em Atafona após percorrer mais de mil quilômetros desde São Paulo.
José Maria Landim, do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia, explica que desembocaduras fluviais são áreas instáveis. "Se o rio fraqueja um pouco, a erosão da linha da costa irá acontecer fatalmente." E o Paraíba do Sul fraquejou bastante. Melhor dizendo, foi enfraquecido pelo homem. Com nascente na Serra da Mantiqueira, nas proximidades do litoral paulista, o curso d'água passa por áreas urbanas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.
Em seu curso estão 180 cidades e mais de 5 mil indústrias. O resultado é o lançamento diário de 1 bilhão de litros de esgoto não tratado em suas águas. Junte-se a isso o grande número de barragens de usinas hidrelétricas ao longo do percurso do rio e o dano à foz está feito: as barragens impedem a passagem dos sedimentos e o rio perde força. Sem a proteção natural das águas do Paraíba, as areias marinhas penetram na embocadura do rio, assoreando-o, quando deveriam ficar na praia.
Desde o final dos anos 1980, mais de 500 casas já foram engolidas total ou parcialmente pelo mar. "Estive lá há um ano e meio fotografando no canto norte da praia, no qual o rio desemboca. Hoje esse lugar não existe mais", conta o jornalista Érico Elias. Relatórios dos cientistas da UFF apontam para uma progressão assustadora do mar de 3 metros por ano na região. Para comparar, as previsões mais pessimistas de subida do nível dos oceanos em função do aquecimento global apontam para 50 centímetros nos próximos 100 anos. O destino de Atafona é incerto. Já se fala em construir uma nova capela para Nossa Senhora dos Navegantes. Dessa vez, com vista para o mar.
PARA SABER MAIS www.ceivap.org.br (Comitê da Bacia do Rio Paraíba do Sul); www.uff.br/atafona (UFF); www.geo.ufba.br (Instituto de Geociências da UFBA).
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