Improvável realidade
Um trekking de quatro dias e 50 quilômetros pelas areias, lagoas e incríveis povoados do "deserto" brasileiro
Henrique Skujis, da Queimada dos Paulos
Matéria publicada na edição 185 (Setembro/2007) de Terra
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Até prova em contrário, Elói é o mais antigo morador dali. De tão sereno, seu olhar passa uma sensação de dever cumprido. "Não sei se eu tinha um dever. Mas se tinha, eu cumpri", filosofa sem querer. Enquanto muda da rede para a cadeira, fala orgulhoso da prole: cinco filhos, dez netos e três bisnetos. A maioria não foi embora. Mora ali. Como o patriarca, não sucumbiu aos valores urbanos e, fenômeno raro até entre as plantas, fincou raízes no solo de areia. "Só peço que eles estudem. Hoje, quem não sabe ler é pior que cachorro", filosofa de novo. "As minhas escolas foram só a pesca e a roça. Pensava que leitura não era nada."
Elói chegou ali nos anos 40 ainda no colo dos pais, em fuga da seca cearense. Casou-se com a filha de Paulo Antônio de Jesus, também refugiado da falta de chuva e motivo do nome do lugar - Queimada dos Paulos. Lá perto fica a Queimada dos Britos, outro vilarejo fundado por um cearense foragido da estiagem nordestina. Horas de caminhada antes, esconde-se a Baixa Grande, onde vive apenas um casal. E outras tantas horas atrás, o Canto do Atins. Os quatro povoados, além de Santo Amaro, formam o traçado do trekking de quatro dias e 50 quilômetros que fizemos pelos Lençóis Maranhenses. A incessante combinação de dunas e lagoas pode parecer monótona assim colocada em palavras, mas fica linda, como você vê nas fotos desta reportagem, e mais sublime ainda quando o pé está na areia, o vento no rosto e os olhos precisam apenas ajudar o corpo a escolher a lagoa do próximo mergulho.
O cenário, apesar de já mostrado à exaustão desde a criação do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, em 1981, não perde o tom surreal. Dunas e lagoas parecem paisagens opostas unidas virtualmente por algum programa de computador - como icebergs no meio da floresta amazônica ou barreiras de corais crescidas na cidade de Belo Horizonte. Se fosse trazido para cá, um beduíno do Saara estranharia a coloração mais clara da areia e não daria bola para as lagoas, achando tratar-se de miragem.
Mas para os viajantes que suam o corpo vencendo a passos fundos o sol forte e as areias fofas, as piscinas naturais formadas pelas chuvas que caem na região de janeiro a julho e dividem o ano local entre inverno e verão são um merecido prêmio. Basta tirar a mochila das costas e correr para um refrescante mergulho.
Entre uma imersão e outra, é preciso caminhar. Há momentos de conversas, risadas, fotografias e marcha coesa, mas há também longos instantes de isolamento, nos quais se ouvem apenas a brisa e o arranhar dos próprios pés na areia. A beleza repetitiva e o sossego auditivo convidam para uma reflexão interior. Sem a preocupação com o calor excessivo, já que as pernadas diárias têm em média 15 quilômetros e ocorrem nas primeiras horas da manhã, o corpo segue em frente sem grandes exigências e deixa margem para os pensamentos divagarem.
Reflexão recorrente, além da escolha da lagoa mais gostosa, é tentar entender como existe vida humana naquela imensidão de areia do tamanho da cidade de São Paulo - o Ibama calcula existirem mais de 50 pequenos povoados nos Lençóis Maranhenses, somando pouco mais de 3.500 pessoas. Sim, há as lagoas e até um curso d'água, o Rio Negro, que corta o areal de norte a sul. Mas, acredite leitor, são povoados improváveis, onde os habitantes travam um duelo de mãos dadas com a natureza. Tudo é muito justo, apertado. A pesca, fonte de mesa posta desde a chegada dos primeiros habitantes, continua como o carro-chefe do menu local (não deixe de provar o camarão grelhado de receita misteriosa no Canto do Atins). No entanto, as redes começaram a falhar nos últimos anos por conta dos barcos de arrasto que varrem a vida marinha no litoral. O solo de areia também não permite maiores ousadias agrárias - nada além da mandioca (matéria-prima para vários pratos, inclusive para a tapioca e para a tiquira, uma "perigosa" mas imperdível aguardente) e de um pouco de milho, arroz e feijão. O resto precisa vir de Santo Amaro, a horas de caminhada.
PESCAR, PLANTAR, CRIAR
Cardápio certo mesmo são as galinhas, as cabras e as vacas. Calcula-se haver ainda mais de mil cabeças criadas soltas pelas dunas em busca do verde não raro. Peço novamente licença ao leitor para citar outro pensamento de Milan Kundera, este sobre a relação dos homens com os animais. O escritor, de 78 anos, afirma que o homem é um parasita da vaca e que trata os animais com desdém, como máquinas à sua disposição e que o gemido de um bicho é, para o ser humano, apenas o ranger de um mecanismo que funciona mal. Essa reflexão surgiu enquanto eu balançava na rede pendurada sob uma mangueira nos fundos da casa de pau-a-pique e telhado de palha de buriti de seu Massu, 54 anos, e dona Bilu, 65.
Ao visual paradisíaco, apesar de improvável, de uma casa funcionando em harmonia com a rígida natureza, juntavase essa sensação inócua do parasitismo humano. Em apenas um enquadramento do olhar, sem precisar virar o pescoço, via uma galinha depenada em água fervente, um cavalo com as patas amarradas, dois cachorros em busca de qualquer pedaço de comida e um cabrito nascido com uma espécie de paralisia, mas que em breve, se engordar o suficiente, será abatido para o deleite carnívoro de todos.
O insólito pensamento foi-se da minha mente tão rápido quanto chegou, quando o externei em palavras para Lelé, de 27 anos, filho de seu Massu e dona Bilu. "Em vez de nos ajudar a construir um açude para armazenar água na época da seca, o Ibama vem aqui e proíbe a gente de plantar e de pescar. Só falta a gente não poder criar animais", respondeu com propriedade, referindo-se à rédea curta que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente impõe aos moradores do parque. Ao fim da conversa com Lelé, que apenas espera a chegada do padre prevista para outubro para casar com a prima Auriana, ficou claro que se há um lugar no mundo onde esse parasitismo do homem sobre os animais não é uma questão de escolha e sim de sobrevivência, este lugar são os Lençóis Maranhenses.
Quilômetros depois, encontramos um pescador que se apressou em negar o ofício quando eu e o fotógrafo Valdemir Cunha entramos na lagoa onde ele lançava sua rede e nos confundiu com fiscais do Ibama. "Não. Esta rede não é minha. Na verdade, eu sou lavrador." A negativa risível e sem motivo deu-se por medo do órgão federal, que, dizem, vira e mexe passa por lá fazendo a rapa, recolhendo o material de pesca de quem ousa buscar peixe nas lagoas do parque. O guia de turismo Elisvaldo Vilar Garcia, 25 anos, ex-morador dos Lençóis, conta que, em uma dessas investidas, o Ibama entrou na casa de um morador e "saqueou" redes, linhas, anzóis e caçoeiras. Quando os fiscais se preparavam para ir embora, o pescador sugeriu que eles levassem também sua mulher e seus filhos. "Se eu não puder pescar, eles morrem de fome", teria dito.
PROFESSORA JOINA PRECISA DE LÁPIS
Faltam lápis, não tem caneta, acabou a borracha, os cadernos estão cheios e os livros estão velhos, usados e rasgados. Energia elétrica não há. Mas, assim como a mãe e a avó, Joina Raimunda Brito, 30 anos, bisneta do fundador da Queimada do Britos, assumiu a responsabilidade de alfabetizar as crianças e os jovens da região. Para isso, morou em São Luís dos 10 aos 17 anos, onde estudou até a 8a série. De volta ao povoado, casou, teve cinco filhos e reservou um quarto de sua casa como sala de aula. Chegou a ter 35 alunos. Hoje, tem 13, com idades que variam dos 5 aos 19 anos. Sente-se feliz e dá de ombros para as dificuldades de ensinar pessoas sentadas no chão ou em bancos de madeira e de faixas etárias tão distintas ao mesmo tempo. No entanto, suplica por ajuda do governo. Desde a última troca de prefeito, há quatro anos, ela diz não ter recebido sequer um lápis para apoiar seu trabalho. Pede ajuda do estado e também a você, se um dia resolver aparecer por lá. "Tragam cadernos, livros, lápis, canetas..."
JEGUE OU BICICLETA
Junto com Elisvaldo, nos acompanharam na caminhada Paulo César de Menezes Santos, de 38 anos, morador de Santo Amaro, e Bruno Brito, cujo sobrenome dá a pista de sua ascendência. Aos dois, coube levar as pequenas mochilas de roupas dos demais viajantes e um suprimento de comida e água. A idéia inicial dos organizadores do passeio era que a dupla tivesse o apoio de um jegue. No entanto, quando soube da possibilidade do uso de bicicletas em substituição ao animal, pedi que o bicho fosse poupado do sacrifício, mesmo sob os protestos de alguns que diziam que "jegue foi feito para isso". Coube a César e Bruno a dura tarefa de empurrar as magrelas. Sobre a areia endurecida, principalmente no topo das dunas, os dois montavam no selim e conseguiam pedalar até descer deliciosamente em alta velocidade as suaves paredes diagonais das montanhas de areia.
Uma dessas descidas parece ter despertado do sossego as duas gaivotas que até então apenas aproveitavam as térmicas para planar lá no alto. De um bater de asas para outro, o casal trocou o canto melodioso por um grunhido agudo e passou a embicar em nossa direção. Eram rasantes assustadores, com um pé no filme Os Pássaros, de Alfred Hitchcock. Restava caminhar olhando para cima e se esquivar quando o bico amarelo da ave chegava a uma assustadora distância de menos de 2 metros de nossas cabeças. Intrigados com o comportamento agressivo dos animais, os forasteiros logo receberam a explicação de César: "Devemos estar pertos dos ovos ou dos filhotes do casal". Minutos depois, conforme previra o guia, encontramos os dois pequenos ovos que motivavam a fúria das gaivotas.
Para acalmá-las, saímos de seus domínios, seguimos em frente e encontramos uma série de construções de ferro carcomido sobre uma base de concreto. São os destroços deixados pela Petrobras, que nos anos 70 esteve por ali em busca de petróleo. A estatal teria encontrado o ouro negro, mas, segundo Elisvaldo, de má qualidade, o que a levou a abandonar os planos. A sede pelo líquido continua, no entanto. Em dezembro do ano passado, um senador maranhense subiu ao palanque para solicitar ao Ibama a permissão para a exploração de petróleo e gás natural na região. Segundo Vossa Excelência, a caça ao tesouro poderia ser feita "de forma compatível com o equilíbrio ambiental".
Talvez seja mais urgente fazer chegar ali o programa federal Luz para Todos. Apesar de as cidades vizinhas ao parque terem ganho energia elétrica nos últimos anos, a geografia arenosa dentro dos limites da reserva impede a fixação de postes elétricos. Por isso, apesar da recepção calorosa, simpática e refrescante, com direito a frutas e ducha, esqueça a água ou a cerveja gelada quando entrar suado nos povoados. "Podiam colocar aqui aquela energia solar", pede seu Massu, que, coincidência ou não, tem o nome do personagem vivido pelos cantores Seu Jorge e Luiz Melodia em Casa de Areia, filme de Andrucha Waddington. Gravado nos arredores de Santo Amaro, a ficção fala sobre uma família que se muda para a região no começo do século passado.
Ao chegar ao local, dona Maria, a personagem interpretada por Fernanda Montenego, não demora a perceber que ali não é o melhor lugar da Terra para levar seu estilo de vida. Como ela poderia saber disso se não havia vivido outra vez? Ela tenta de todas as formas ir embora, mas, como diz Kundera, a vida é condicionada por escolhas irrevogáveis e acontecimentos fortuitos. Elói, de certa maneira, inspira a ficção, mas, em um enredo mais feliz, entra realizado à sua oitava década de vida. Pede apenas aos netos e bisnetos que estudem, como já dito no segundo parágrafo. Os herdeiros de Elói, como todos nós, não tiveram uma vida anterior, mas, como todos nós, têm no patriarca o exemplo a seguir.
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