Así está, así va seguir!
A curiosa história deste pequeno e pacífico país da América Central, que saiu do esquecimento para se transformar em exemplo de preservação mundial
Luiz Maciel, de La Fortuna
Matéria publicada na edição 185 (Setembro/2007) de Terra
|
|
Seis da manhã, em ponto, Esteban já está à nossa espera no saguão do hotel. Nosso destino é uma reserva privada em Monteverde, na região noroeste da Costa Rica, não muito longe do litoral banhado pelo Pacífico. São apenas dez minutos de carro até lá, mas o céu está nublado, ameaçando chuva a qualquer momento. Para compensar, seremos os únicos a enveredar pela mata nessa manhã de domingo, o que aumenta as chances de avistar animais. Se dermos sorte, poderemos ver diversas espécies de aves e, quem sabe, um bando de macacos-aranha nas copas mais altas. Talvez até topar com um quetzal (veja quadro), o pássaro de plumagem longa e brilhante encontrado apenas em alguns pontos da América Central - mas Esteban logo avisa que isso só acontece em uma entre dez incursões na floresta.
Esteban Mendez é um guia experiente, apesar de ter apenas 22 anos. Conta que aprendeu a reconhecer aves pelo canto ainda menino, e daí para imitá-las foi um passo. É o que ele faz agora, reproduzindo à perfeição o pio de um pássaro escuro, que ele chama de "bobo", mas no catálogo que carrega na mochila é identificado como Momoto coroniazul. O pássaro responde, nós nos aproximamos e o enquadramos na luneta. O costa-riquenho conhece a reserva como a palma da mão e vai falando de tudo que encontra pelo caminho. Da imensa figueira que cresceu em volta de outra árvore até esmagá-la completamente e tomar o seu lugar. Das flores e borboletas que estão por toda parte, quebrando a monocromia do verde com pontos vermelhos, amarelos, brancos e azuis. De outros pássaros que surgem, inclusive velhos conhecidos nossos, como sanhaços-vermelhos e tucanos-de-bico-verde. Dos macacos-aranha que também aparecem repentinamente - um bando inteiro, pulando de uma árvore a outra. A algazarra dura vários minutos, e então nos fartamos dela e partimos em busca do quetzal. A chuva ainda não veio, o que é um ótimo sinal.
Não é exagero dizer que a Costa Rica é um jardim tropical quase tão fantástico quanto aquele que Colombo encontrou, em 1502, ao aportar aqui em sua quarta viagem à América. Sim, o país perdeu boa parte da vegetação original para as cidades e as plantações de café e banana - mas o fato é que, de um jeito ou de outro, chegou ao século 21 com um patrimônio natural invejável, conservado não só por consciência ecológica, mas também por algumas circunstâncias felizes, começando pelo pouco interesse que a região despertou nos conquistadores espanhóis. Estes logo perceberam que a Costa Rica, apesar do nome pomposo e promissor dado por Colombo, não tinha as reservas de ouro do México nem as jazidas de prata do Peru. Em vez de devastar a colônia, preferiram esquecê-la.
Cinco séculos depois, o país de início tão desimportante, um naco de terra aparentemente sem riquezas minerais a oferecer, numa dobra perdida do istmo da América Central, tornou- se guardião de um precioso tesouro de biodiversidade. Com apenas 51 mil quilômetros quadrados - área menor que a da Paraíba -, reúne 5 por cento de todas as espécies vivas do planeta e 10 por cento das aves. Para se ter uma idéia do que representa isso, basta dizer que o Brasil, que é 170 vezes maior do que a Costa Rica e abriga a maior floresta tropical do mundo, tem um quinto das espécies conhecidas e 16,5 por cento das aves. O quadro fica mais claro ainda quando se compara a biodiversidade costa-riquenha com a de outros países. A variedade de pássaros dessa pequena nação centro-americana, por exemplo, é o dobro da encontrada nos territórios dos Estados Unidos e do Canadá, somados. E a de borboletas é maior do que a existente em todo o continente africano.
É inevitável ao brasileiro que desembarca na Costa Rica encontrar muitos pontos de contato com o nosso país. As florestas são parecidas, as praias também. O litoral voltado para o Caribe lembra o do Nordeste do Brasil, com coqueiros a perder de vista e colônias de tartarugas-marinhas chegando para a desova nos pontos mais isolados. Na costa do Pacífico, a mata exuberante encosta na areia, como acontece no litoral norte de São Paulo. O café e a cana-de-açúcar são produtos típicos dos dois países. E até o prato mais consumido pelas duas populações é o mesmo arroz com feijão - que os costa-riquenhos preferem bem misturados e temperados, no estilo cubano, e comem até no café da manhã.
Mas há também diferenças marcantes entre as duas nações tropicais. Logo se percebe, por exemplo, que a Costa Rica é um país muito mais harmônico e homogêneo do que o nosso. Seu território é predominantemente verde, enquanto o do Brasil, até por ser muito mais extenso, alterna paisagens diversas. Os 4,4 milhões de costa-riquenhos descendem basicamente dos colonizadores europeus e não estão sujeitos a grandes desigualdades sociais. Já os 190 milhões de brasileiros, que são resultado de uma formidável mistura de etnias, formam uma sociedade complexa, cheia de contrastes e contradições. A Costa Rica mantém 30 por cento de suas terras intocadas e protegidas por lei, o que faz dela o país mais preservado do mundo. O Brasil, bem, já queimou florestas equivalentes a muitas Costas Ricas.
outra diferença, mais evidente ainda, está na grande presença de vulcões na Costa Rica. São quase 70 vulcões distribuídos ao longo das quatro cordilheiras que cortam o país de leste a oeste, dos quais pelo menos seis estão em erupção neste momento, liberando fumaça, poeira e até mesmo lava. O mais furioso deles é, sem dúvida, o Arenal, que disputa com o Kilauea, em Long Island, no Havaí, o título de mais ativo do planeta. Desde que despertou de uma hibernação de 500 anos, em 29 de julho de 1968, provocando 87 mortes e destruindo dois vilarejos, o Arenal despeja material incandescente com impressionante regularidade. A lava derramada é mais visível à noite, tingindo as encostas de vermelho e iluminando os arredores - um verdadeiro espetáculo em noites de céu limpo.
O Arenal fica no noroeste do país e é escala obrigatória para qualquer visitante. Mas há atrações naturais espalhadas em cada canto do território, o que leva os forasteiros a botar o pé na estrada logo após o desembarque na capital, San José - que, muito apropriadamente, aliás, ocupa a região central. A leste da capital, por exemplo, estão os rios Pacuare e Reventazión, cujas águas velozes, perfeitas para rafting, cavaram desfiladeiros belíssimos, cercados de verde, em direção ao Caribe. Na costa caribenha há vilarejos tranqüilos, onde o tempo passa devagar, e o notável Parque Nacional Tortuguero, onde tartarugas marinhas desovam o ano todo, especialmente no segundo semestre. Nos arredores de San José está o vulcão Poás, cuja cratera principal acomoda um lago azul, belíssimo, e pode ser visitada numa suave caminhada. Ao sul do Arenal estão as reservas de Monteverde, talvez as mais indicadas para safári fotográfico. Mais ao sul, e a leste, o litoral recortado do Pacífico, com praias ocupadas por resorts charmosos, outros parques nacionais e manguezais com crocodilos mais graúdos que os jacarés do Pantanal.
Para visitar tudo isso, reserve no mínimo uma semana, até porque a tentação de passar mais de um dia em cada um desses lugares é grande. As distâncias são pequenas, o que ajuda bastante - o país tem 480 quilômetros de norte a sul e 280 quilômetros de leste a oeste. Mas é preciso ter cuidado nos deslocamentos, pois as estradas, além de apertadas, também costumam acomodar pedestres e ciclistas distraídos. Leve em consideração, ainda, que seria uma pena pegar o céu nublado na região do Arenal ou chuva forte em Monteverde, sem poder esperar o tempo melhorar.
Como todo país tropical, a Costa Rica é um lugar chuvoso. O sol é mais presente de dezembro a abril, o que não significa que a qualquer momento não possa despencar um toró. De maio a novembro, as chuvas são praticamente diárias, mas - eis a grande notícia - dificilmente caem durante muitas horas seguidas. Nessa época, em geral, costuma chover à tarde ou à noite, com intervalos de sol pela manhã. A viagem será sempre aproveitável, até porque muitas atividades não são atrapalhadas pela chuva. O rafting fica até melhor, com os rios mais cheios. E o canopy, o arvorismo radical inventado aqui, também ganha uma emoção diferente.
O canopy, ou a arte de deslizar em cabos de aço de uma plataforma a outra, no meio da floresta, é uma verdadeira mania nacional. O número de circuitos pelo país já passa de uma centena, e não pára de crescer. Os desafios também não: as etapas de travessia chegam a 750 metros, com até 200 metros de altura do cabo ao chão e velocidades superiores a 60 quilômetros por hora. Tudo muito profissional, com instruções detalhadas, acompanhamento de guias e equipamento adequado. Mas quando a descida começa, você precisará de nervos de aço e terá de decidir sozinho se é o caso de olhar para baixo. Alguns sobem de bondinho até a plataforma inicial e se contentam em ficar por ali mesmo, só observando os destemidos e ouvindo seus gritos. Deixam de experimentar uma sensação única, mas podem explorar as copas das árvores de outro jeito, bem mais tranqüilo, caminhando sobre pontes suspensas.
Os roteiros que cruzam as matas nessas pontes também se espalham cada vez mais, às vezes até compartilhando algumas plataformas com os canopys. Não descarregam tanta adrenalina, mas dão acesso a pontos de vista inusitados e permitem paradas para fotos e observação da vida selvagem na parte alta das florestas. Um passeio esplêndido, enfim, que complementa a descida acelerada nos cabos de aço, assim como as caminhadas ao rés do chão.
O canopy e o rafting são os esportes na natureza que mais chamam a atenção na Costa Rica, mas há muito mais. Com a maior parte do território num patamar acima de mil metros de altitude, o país está repleto de trilhas para montanhistas, assim como de cachoeiras para a prática do canyoning e do cascading. Roteiros de caminhadas, mountain bike e cavalgadas também estão por toda parte. Viadutos da ferrovia nacional desativada viraram rampa de bungee jumping. E a costa do Pacífico atrai surfistas e pescadores de marlim em busca de recordes - alguns exemplares podem chegar a 450 quilos.
A vocação para as atividades radicais ao ar livre fazem da Costa Rica a grande rival da Nova Zelândia nesse quesito. Não oferece esportes de neve, por motivos óbvios, mas compensa essa ausência com cenários ainda mais espetaculares que os da pátria dos kiwis, no outro lado do mundo. O rafting no Pacuare, por exemplo, não é só adrenalina - é uma experiência completa de imersão na natureza, o que faz recomendar que ele seja feito em dois dias, para que se tenha tempo de explorar as quedas-d'água com piscinas naturais em suas margens, parando para pernoite num lodge enfiado na mata. Para ter idéia do que estou falando, examine de novo a foto do início desta reportagem. Agora, imagine sons de pássaros e de uma retumbante cascata como a trilha sonora do lugar. Pois é isso. Depois de passar algumas horas remando para escapar de pedras no leito do rio, você dormirá como nunca numa dessas pousadas de selva.
Os muito chatos poderão reclamar um pouco dos mosquitos, mas, acredite, eles são mais pacíficos do que fazem crer. Até os pernilongos parecem tocados pela aura de paz que impera na Costa Rica há muito tempo. A última convulsão social do país aconteceu em 1948, quando partidários do candidato derrotado à Presidência denunciaram fraude eleitoral e levaram a população a uma guerra civil. Graças a outra circunstância feliz, o movimento vencedor era liderado por um grande estadista, José "Don Pepe" Figueres Ferrer, um socialista utópico que em poucos meses subiu ao poder, nacionalizou bancos, fez reformas sociais e patrocinou a extinção das Forças Armadas do país, algo impensável até hoje no resto do mundo. Um ano e meio depois, com a casa arrumada, Don Pepe passou o bastão ao candidato vitorioso nas últimas eleições, Otílio Ulate Blanco, e entrou definitivamente para a História.
Desde então a Costa Rica, livre da obrigação de se preparar para a guerra, pôde se dedicar mais a si mesma e ao seu fabuloso patrimônio natural. Encaixotada entre o Panamá e a Nicarágua, onde golpes de Estado e rebeliões sempre foram rotina, virou uma avis rara, uma ilha de paz na conturbada América Central. Em 1987, o presidente costa-riquenho Oscar Arias ganhou até o Prêmio Nobel da Paz, pelo papel de mediador que desempenhou na região, aparando arestas entre exacerbados países vizinhos.
Até o modo de falar dos habitantes da Costa Rica deixa transparecer seu espírito pacífico. É uma linguagem delicada, permeada de diminutivos, que aqui ganham a terminação "tico" em lugar da mais usual "tito". A saudação mais comum no país também é bastante original: os costa-riquenhos dizem "Pura vida!" uns aos outros, um cumprimento muito mais carregado de significados do que um mero "Hola!". Seria como dizer "Oi", "Como vai você?", "Seja bem-vindo" e "Boa sorte", tudo de uma vez, em apenas duas palavrinhas. Pode parecer bobagem, mas um "Pura vida!" é capaz de melhorar o dia de qualquer um.
No dia em que saímos para o safári fotográfico em Monteverde, por exemplo, e Esteban nos recebeu com a típica saudação costa-riquenha, tive a sensação de que daríamos sorte de encontrar até um quetzal. E não deu outra. Em menos de uma hora de caminhada, no galho alto de um abacateiro, lá estava ele, altivo e elegante como nenhum outro, esperando por nós.
Arenal
Onde: entre as regiões de Alajuela e Guanacuaste, noroeste do país
Altura: 1.700 metros
Última grande erupção: 1968
É o arquétipo do vulcão: tem forma cônica e fumacinha no topo. E é um dos mais violentos e ativos vulcões do mundo, com derramamentos de lava regulares que iluminam as noites nos arredores. Sua última grande erupção, numa manhã de agosto de 1968, matou 87 pessoas e destruiu dois vilarejos.
Barva
Onde: região de Heredia, a nordeste de San José
Altura: 2.906 metros
Última grande erupção: século 18
É o menos conhecido dos vulcões do país, coberto por uma floresta densa. Apesar de "calmo" há muito tempo, possui forte atividade residual, com gases e fontes termais.
Irazú
Onde: próximo da cidade de Cartago, região central
Altura: 3.432 metros
Última grande erupção: 1963
O mais alto da Costa Rica. Do seu cume, num dia de céu claro, é possível avistar o Atlântico e o Pacífico. A cratera principal possui um lago de água sulfúrica de cor verde.
Poás
Onde: região de Alajuela, norte do país
Altura: 2.708 metros
Última grande erupção: 1954
Sua imensa cratera, com um lago cuja cor varia do azul celeste ao verde, apresenta erupções semelhantes às atividades de gêiseres.
Rincón de La Vieja
Onde: região de Guanacaste, no noroeste
Altura: 1.805 metros
Última grande erupção: 1983
Um dos mais antigos do país, formado há 1 milhão de anos. Fica dentro de um parque nacional de floresta tropical.
Turrialba
Onde: próximo da cidade de Cartago, região central da Costa Rica
Altura: 3.328 metros
Última grande erupção: 1864
Possui três crateras, todas com pequenas fumarolas. Está localizado próximo ao local de saída dos passeios de rafting pelos rios Pacuare e Reventazón.
10.000a.C.
Provável data de chegada dos primeiros grupamentos humanos à região, estabelecidos ao longo do Vale do Turrialba.
1502
Em sua quarta viagem ao continente americano, Cristóvão Colombo aporta na Costa Rica.
1723
Cartago, então a maior cidade do país, é destruída numa erupção do vulcão Irazú.
1821
O país torna-se independente da Espanha. Une-se ao México e, depois, a uma federação centro-americana, dissolvida em 1838.
1889
As primeiras eleições democráticas na América Central são realizadas em seu território.
1948
Denúncias de fraude eleitoral levam o país à guerra civil. José Figueres sobe ao poder e patrocina nova constituição, que extingue o Exército.
1968
Após cinco séculos de sonolência, o Arenal desperta furiosamente, causando 87 mortes.
1987
O presidente Oscar Arias ganha o Nobel da Paz por seu papel como mediador de conflitos em países vizinhos.
2003
A Suprema Corte aprova a reeleição presidencial, quebrando uma tradição de décadas.
2006
Oscar Arias é eleito presidente da República pela segunda vez.
Veja mais em COSTA RICA
Esteban Mendez é um guia experiente, apesar de ter apenas 22 anos. Conta que aprendeu a reconhecer aves pelo canto ainda menino, e daí para imitá-las foi um passo. É o que ele faz agora, reproduzindo à perfeição o pio de um pássaro escuro, que ele chama de "bobo", mas no catálogo que carrega na mochila é identificado como Momoto coroniazul. O pássaro responde, nós nos aproximamos e o enquadramos na luneta. O costa-riquenho conhece a reserva como a palma da mão e vai falando de tudo que encontra pelo caminho. Da imensa figueira que cresceu em volta de outra árvore até esmagá-la completamente e tomar o seu lugar. Das flores e borboletas que estão por toda parte, quebrando a monocromia do verde com pontos vermelhos, amarelos, brancos e azuis. De outros pássaros que surgem, inclusive velhos conhecidos nossos, como sanhaços-vermelhos e tucanos-de-bico-verde. Dos macacos-aranha que também aparecem repentinamente - um bando inteiro, pulando de uma árvore a outra. A algazarra dura vários minutos, e então nos fartamos dela e partimos em busca do quetzal. A chuva ainda não veio, o que é um ótimo sinal.
Não é exagero dizer que a Costa Rica é um jardim tropical quase tão fantástico quanto aquele que Colombo encontrou, em 1502, ao aportar aqui em sua quarta viagem à América. Sim, o país perdeu boa parte da vegetação original para as cidades e as plantações de café e banana - mas o fato é que, de um jeito ou de outro, chegou ao século 21 com um patrimônio natural invejável, conservado não só por consciência ecológica, mas também por algumas circunstâncias felizes, começando pelo pouco interesse que a região despertou nos conquistadores espanhóis. Estes logo perceberam que a Costa Rica, apesar do nome pomposo e promissor dado por Colombo, não tinha as reservas de ouro do México nem as jazidas de prata do Peru. Em vez de devastar a colônia, preferiram esquecê-la.
Cinco séculos depois, o país de início tão desimportante, um naco de terra aparentemente sem riquezas minerais a oferecer, numa dobra perdida do istmo da América Central, tornou- se guardião de um precioso tesouro de biodiversidade. Com apenas 51 mil quilômetros quadrados - área menor que a da Paraíba -, reúne 5 por cento de todas as espécies vivas do planeta e 10 por cento das aves. Para se ter uma idéia do que representa isso, basta dizer que o Brasil, que é 170 vezes maior do que a Costa Rica e abriga a maior floresta tropical do mundo, tem um quinto das espécies conhecidas e 16,5 por cento das aves. O quadro fica mais claro ainda quando se compara a biodiversidade costa-riquenha com a de outros países. A variedade de pássaros dessa pequena nação centro-americana, por exemplo, é o dobro da encontrada nos territórios dos Estados Unidos e do Canadá, somados. E a de borboletas é maior do que a existente em todo o continente africano.
É inevitável ao brasileiro que desembarca na Costa Rica encontrar muitos pontos de contato com o nosso país. As florestas são parecidas, as praias também. O litoral voltado para o Caribe lembra o do Nordeste do Brasil, com coqueiros a perder de vista e colônias de tartarugas-marinhas chegando para a desova nos pontos mais isolados. Na costa do Pacífico, a mata exuberante encosta na areia, como acontece no litoral norte de São Paulo. O café e a cana-de-açúcar são produtos típicos dos dois países. E até o prato mais consumido pelas duas populações é o mesmo arroz com feijão - que os costa-riquenhos preferem bem misturados e temperados, no estilo cubano, e comem até no café da manhã.
VERDE, MAS TAMBÉM VULCÂNICA
Mas há também diferenças marcantes entre as duas nações tropicais. Logo se percebe, por exemplo, que a Costa Rica é um país muito mais harmônico e homogêneo do que o nosso. Seu território é predominantemente verde, enquanto o do Brasil, até por ser muito mais extenso, alterna paisagens diversas. Os 4,4 milhões de costa-riquenhos descendem basicamente dos colonizadores europeus e não estão sujeitos a grandes desigualdades sociais. Já os 190 milhões de brasileiros, que são resultado de uma formidável mistura de etnias, formam uma sociedade complexa, cheia de contrastes e contradições. A Costa Rica mantém 30 por cento de suas terras intocadas e protegidas por lei, o que faz dela o país mais preservado do mundo. O Brasil, bem, já queimou florestas equivalentes a muitas Costas Ricas.
outra diferença, mais evidente ainda, está na grande presença de vulcões na Costa Rica. São quase 70 vulcões distribuídos ao longo das quatro cordilheiras que cortam o país de leste a oeste, dos quais pelo menos seis estão em erupção neste momento, liberando fumaça, poeira e até mesmo lava. O mais furioso deles é, sem dúvida, o Arenal, que disputa com o Kilauea, em Long Island, no Havaí, o título de mais ativo do planeta. Desde que despertou de uma hibernação de 500 anos, em 29 de julho de 1968, provocando 87 mortes e destruindo dois vilarejos, o Arenal despeja material incandescente com impressionante regularidade. A lava derramada é mais visível à noite, tingindo as encostas de vermelho e iluminando os arredores - um verdadeiro espetáculo em noites de céu limpo.
SAN JOSÉ, O PONTO DE PARTIDA
O Arenal fica no noroeste do país e é escala obrigatória para qualquer visitante. Mas há atrações naturais espalhadas em cada canto do território, o que leva os forasteiros a botar o pé na estrada logo após o desembarque na capital, San José - que, muito apropriadamente, aliás, ocupa a região central. A leste da capital, por exemplo, estão os rios Pacuare e Reventazión, cujas águas velozes, perfeitas para rafting, cavaram desfiladeiros belíssimos, cercados de verde, em direção ao Caribe. Na costa caribenha há vilarejos tranqüilos, onde o tempo passa devagar, e o notável Parque Nacional Tortuguero, onde tartarugas marinhas desovam o ano todo, especialmente no segundo semestre. Nos arredores de San José está o vulcão Poás, cuja cratera principal acomoda um lago azul, belíssimo, e pode ser visitada numa suave caminhada. Ao sul do Arenal estão as reservas de Monteverde, talvez as mais indicadas para safári fotográfico. Mais ao sul, e a leste, o litoral recortado do Pacífico, com praias ocupadas por resorts charmosos, outros parques nacionais e manguezais com crocodilos mais graúdos que os jacarés do Pantanal.
PENDURADOS COMO TARZAN
Para visitar tudo isso, reserve no mínimo uma semana, até porque a tentação de passar mais de um dia em cada um desses lugares é grande. As distâncias são pequenas, o que ajuda bastante - o país tem 480 quilômetros de norte a sul e 280 quilômetros de leste a oeste. Mas é preciso ter cuidado nos deslocamentos, pois as estradas, além de apertadas, também costumam acomodar pedestres e ciclistas distraídos. Leve em consideração, ainda, que seria uma pena pegar o céu nublado na região do Arenal ou chuva forte em Monteverde, sem poder esperar o tempo melhorar.
Como todo país tropical, a Costa Rica é um lugar chuvoso. O sol é mais presente de dezembro a abril, o que não significa que a qualquer momento não possa despencar um toró. De maio a novembro, as chuvas são praticamente diárias, mas - eis a grande notícia - dificilmente caem durante muitas horas seguidas. Nessa época, em geral, costuma chover à tarde ou à noite, com intervalos de sol pela manhã. A viagem será sempre aproveitável, até porque muitas atividades não são atrapalhadas pela chuva. O rafting fica até melhor, com os rios mais cheios. E o canopy, o arvorismo radical inventado aqui, também ganha uma emoção diferente.
O canopy, ou a arte de deslizar em cabos de aço de uma plataforma a outra, no meio da floresta, é uma verdadeira mania nacional. O número de circuitos pelo país já passa de uma centena, e não pára de crescer. Os desafios também não: as etapas de travessia chegam a 750 metros, com até 200 metros de altura do cabo ao chão e velocidades superiores a 60 quilômetros por hora. Tudo muito profissional, com instruções detalhadas, acompanhamento de guias e equipamento adequado. Mas quando a descida começa, você precisará de nervos de aço e terá de decidir sozinho se é o caso de olhar para baixo. Alguns sobem de bondinho até a plataforma inicial e se contentam em ficar por ali mesmo, só observando os destemidos e ouvindo seus gritos. Deixam de experimentar uma sensação única, mas podem explorar as copas das árvores de outro jeito, bem mais tranqüilo, caminhando sobre pontes suspensas.
Os roteiros que cruzam as matas nessas pontes também se espalham cada vez mais, às vezes até compartilhando algumas plataformas com os canopys. Não descarregam tanta adrenalina, mas dão acesso a pontos de vista inusitados e permitem paradas para fotos e observação da vida selvagem na parte alta das florestas. Um passeio esplêndido, enfim, que complementa a descida acelerada nos cabos de aço, assim como as caminhadas ao rés do chão.
VOCAÇÃO RADICAL
O canopy e o rafting são os esportes na natureza que mais chamam a atenção na Costa Rica, mas há muito mais. Com a maior parte do território num patamar acima de mil metros de altitude, o país está repleto de trilhas para montanhistas, assim como de cachoeiras para a prática do canyoning e do cascading. Roteiros de caminhadas, mountain bike e cavalgadas também estão por toda parte. Viadutos da ferrovia nacional desativada viraram rampa de bungee jumping. E a costa do Pacífico atrai surfistas e pescadores de marlim em busca de recordes - alguns exemplares podem chegar a 450 quilos.
A vocação para as atividades radicais ao ar livre fazem da Costa Rica a grande rival da Nova Zelândia nesse quesito. Não oferece esportes de neve, por motivos óbvios, mas compensa essa ausência com cenários ainda mais espetaculares que os da pátria dos kiwis, no outro lado do mundo. O rafting no Pacuare, por exemplo, não é só adrenalina - é uma experiência completa de imersão na natureza, o que faz recomendar que ele seja feito em dois dias, para que se tenha tempo de explorar as quedas-d'água com piscinas naturais em suas margens, parando para pernoite num lodge enfiado na mata. Para ter idéia do que estou falando, examine de novo a foto do início desta reportagem. Agora, imagine sons de pássaros e de uma retumbante cascata como a trilha sonora do lugar. Pois é isso. Depois de passar algumas horas remando para escapar de pedras no leito do rio, você dormirá como nunca numa dessas pousadas de selva.
EXÉRCITO PARA QUÊ?
Os muito chatos poderão reclamar um pouco dos mosquitos, mas, acredite, eles são mais pacíficos do que fazem crer. Até os pernilongos parecem tocados pela aura de paz que impera na Costa Rica há muito tempo. A última convulsão social do país aconteceu em 1948, quando partidários do candidato derrotado à Presidência denunciaram fraude eleitoral e levaram a população a uma guerra civil. Graças a outra circunstância feliz, o movimento vencedor era liderado por um grande estadista, José "Don Pepe" Figueres Ferrer, um socialista utópico que em poucos meses subiu ao poder, nacionalizou bancos, fez reformas sociais e patrocinou a extinção das Forças Armadas do país, algo impensável até hoje no resto do mundo. Um ano e meio depois, com a casa arrumada, Don Pepe passou o bastão ao candidato vitorioso nas últimas eleições, Otílio Ulate Blanco, e entrou definitivamente para a História.
Desde então a Costa Rica, livre da obrigação de se preparar para a guerra, pôde se dedicar mais a si mesma e ao seu fabuloso patrimônio natural. Encaixotada entre o Panamá e a Nicarágua, onde golpes de Estado e rebeliões sempre foram rotina, virou uma avis rara, uma ilha de paz na conturbada América Central. Em 1987, o presidente costa-riquenho Oscar Arias ganhou até o Prêmio Nobel da Paz, pelo papel de mediador que desempenhou na região, aparando arestas entre exacerbados países vizinhos.
Até o modo de falar dos habitantes da Costa Rica deixa transparecer seu espírito pacífico. É uma linguagem delicada, permeada de diminutivos, que aqui ganham a terminação "tico" em lugar da mais usual "tito". A saudação mais comum no país também é bastante original: os costa-riquenhos dizem "Pura vida!" uns aos outros, um cumprimento muito mais carregado de significados do que um mero "Hola!". Seria como dizer "Oi", "Como vai você?", "Seja bem-vindo" e "Boa sorte", tudo de uma vez, em apenas duas palavrinhas. Pode parecer bobagem, mas um "Pura vida!" é capaz de melhorar o dia de qualquer um.
No dia em que saímos para o safári fotográfico em Monteverde, por exemplo, e Esteban nos recebeu com a típica saudação costa-riquenha, tive a sensação de que daríamos sorte de encontrar até um quetzal. E não deu outra. Em menos de uma hora de caminhada, no galho alto de um abacateiro, lá estava ele, altivo e elegante como nenhum outro, esperando por nós.
VULCÕES
Arenal
Onde: entre as regiões de Alajuela e Guanacuaste, noroeste do país
Altura: 1.700 metros
Última grande erupção: 1968
É o arquétipo do vulcão: tem forma cônica e fumacinha no topo. E é um dos mais violentos e ativos vulcões do mundo, com derramamentos de lava regulares que iluminam as noites nos arredores. Sua última grande erupção, numa manhã de agosto de 1968, matou 87 pessoas e destruiu dois vilarejos.
Barva
Onde: região de Heredia, a nordeste de San José
Altura: 2.906 metros
Última grande erupção: século 18
É o menos conhecido dos vulcões do país, coberto por uma floresta densa. Apesar de "calmo" há muito tempo, possui forte atividade residual, com gases e fontes termais.
Irazú
Onde: próximo da cidade de Cartago, região central
Altura: 3.432 metros
Última grande erupção: 1963
O mais alto da Costa Rica. Do seu cume, num dia de céu claro, é possível avistar o Atlântico e o Pacífico. A cratera principal possui um lago de água sulfúrica de cor verde.
Poás
Onde: região de Alajuela, norte do país
Altura: 2.708 metros
Última grande erupção: 1954
Sua imensa cratera, com um lago cuja cor varia do azul celeste ao verde, apresenta erupções semelhantes às atividades de gêiseres.
Rincón de La Vieja
Onde: região de Guanacaste, no noroeste
Altura: 1.805 metros
Última grande erupção: 1983
Um dos mais antigos do país, formado há 1 milhão de anos. Fica dentro de um parque nacional de floresta tropical.
Turrialba
Onde: próximo da cidade de Cartago, região central da Costa Rica
Altura: 3.328 metros
Última grande erupção: 1864
Possui três crateras, todas com pequenas fumarolas. Está localizado próximo ao local de saída dos passeios de rafting pelos rios Pacuare e Reventazón.
LlNHA DO TEMPO
10.000a.C.
Provável data de chegada dos primeiros grupamentos humanos à região, estabelecidos ao longo do Vale do Turrialba.
1502
Em sua quarta viagem ao continente americano, Cristóvão Colombo aporta na Costa Rica.
1723
Cartago, então a maior cidade do país, é destruída numa erupção do vulcão Irazú.
1821
O país torna-se independente da Espanha. Une-se ao México e, depois, a uma federação centro-americana, dissolvida em 1838.
1889
As primeiras eleições democráticas na América Central são realizadas em seu território.
1948
Denúncias de fraude eleitoral levam o país à guerra civil. José Figueres sobe ao poder e patrocina nova constituição, que extingue o Exército.
1968
Após cinco séculos de sonolência, o Arenal desperta furiosamente, causando 87 mortes.
1987
O presidente Oscar Arias ganha o Nobel da Paz por seu papel como mediador de conflitos em países vizinhos.
2003
A Suprema Corte aprova a reeleição presidencial, quebrando uma tradição de décadas.
2006
Oscar Arias é eleito presidente da República pela segunda vez.
Veja mais em COSTA RICA
Pra levar
Wing Cooler
Conjunto de 2 mesas, 2 bancos e 1 cooler
Saco de dormir
Nautika Viper de poliamida resinado
Pá dobrável
Articula-se em 2 posições
Fogareiro
Útil para camping, diversos modelos
Multi-ferramenta
Diversos acessórios em uma ferramenta
Assine Terra
Ganhe até 20% de desconto!
Facão pra mato
Tramontina, com garantia
Lanterna
Com carregador de celular, sem pilha
Capacete
Para alpinismo. Várias cores e marcas para sua segurança.
Repelente
Key West, contra o mosquito da dengue
Kit para Rapel
Com cadeirinha, freio e mosquetão
Mochila Wind
Montana, 40 litros, 100% a prova d´água












