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Inferno no céu

A vida dura e inglória dos farejadores de ouro de La Rinconada, a cidade mais alta do mundo, erguida a 5.200 metros de altitude nos Andes peruanos

Henrique Skujis, de La Rinconada

Matéria publicada na edição 184 (Agosto/2007) de Terra


Ricardo Rollo

Visto de longe, o lugar pode até ser confundido com uma charmosa estação de esqui. Pura ilusão

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Respiro fundo para levar mais ar aos pulmões ou fecho o nariz para evitar o cheiro de esgoto? A dúvida atordoa. Faz a cabeça pulsar de dor e náuseas brotarem das entranhas. Enquanto desvio de crianças que correm e brincam sobre o lodo da rua principal, sou alvo de rajadas de vento carregadas de flocos de neve. Mal cheguei a La Rinconada e já quero ir embora. Miro com os olhos turvos aqueles pequenos peruanos de pele morena subindo e descendo pelas vielas. A noite chegou cedo ao isolado povoado andino e o breu só não é completo por conta de um emaranhado de fios que espalha lâmpadas amarelas entre os barracos feitos de madeira, barro e alumínio.

La Rinconada se equilibra a 5.200 metros de altitude - é a mais alta povoação permanente do mundo. Supera La Paz, Potosí, Wenzhuan, Lhasa, Tingri e outros tantos vilarejos nos Andes e no Himalaia. Dando de ombros para a geografia improvável, para o clima gelado e para a ausência dos mais básicos dos saneamentos básicos, 25 mil pessoas levam a vida neste pedaço inóspito do planeta. Para chegar aqui, são 170 quilômetros e seis horas de viagem a partir de Juliaca, nos arredores do Lago Titicaca. Quando surge ao longe, imponente, forrando a face da montanha Bella Durmiente, La Rinconada parece uma pacata e exuberante cidade andina. De certos ângulos, lembra um povoado dos Alpes suíços. É inevitável parar o carro, tirar uma dezena de fotografias e imaginar que em alguns minutos um hotel com vista para picos nevados abrirá suas portas e você será recebido com um chá quente de frente para a lareira. No entanto, conforme passam os quilômetros, as montanhas ganham altura, o ar começa a faltar, o carro a falhar e a cabeça a doer. Uma sucessão de crateras surge à beira da estrada e escavadeiras invadem a paisagem para infertilizar a imaginação.

O motivo do absurdo urbano e humano são as belas montanhas cobertas de neve e recheadas de ouro. A isca do valioso metal atrai gente para a região há mais de meio milênio. Primeiro vieram os incas, em busca de ouro para seus rituais e adornos. Depois os espanhóis, que levaram embora toda a riqueza que puderam carregar. O metal amarelo rareou e o lugar passou décadas esquecido. Nos anos 1950, novas descobertas atraíram camponeses dispostos a criar suas alpacas e arriscar a vida no garimpo em altitudes ainda mais elevadas. Até o início da década de 1990, no entanto, menos de mil pessoas viviam ali. Foi então que mais uma crise econômica no Peru empurrou milhares de desempregados para as montanhas dos Andes com o sonho do bamburro. La Rinconada e outras tantas minas artesanais respondem por um quarto do ouro encontrado no Peru, oitavo maior produtor do mundo.

Por não ter o status de distrito - é apenas um centro poblado, uma povoação informal, segundo a legislação peruana -, La Rinconada não tem apoio governamental e não aparece nos mapas. Mesmo assim, recebe gente de todas as partes. "Quando cheguei, eram 200 casinhas cercadas de montanhas cheias de ouro. Hoje devem ser quase 10 mil", conta Elisabeth Quispe, de 34 anos, que veio para a cidade em 1989, aos 16, com o namorado. Entre épocas de alpacas magras e gordas, muito ouro entrou no bolso do casal. Criaram dois filhos, abriram um pequeno armazém e fincaram raízes. "Não reclamo da vida. Nunca nos faltou nada aqui. Em Juliaca, jamais teríamos condições de sustentar duas crianças", compara.

Mas os tempos são outros e a maioria dos moradores tem biografias menos reluzentes para contar. Uma pesquisa feita em 2002 mostra que entre 80 e 90 por cento das famílias de La Rinconada dependem exclusivamente da mineração. O mesmo estudo mostra que mais da metade delas não consegue tirar da montanha nem sequer 100 dólares por mês. Mauro Vélez, de 41 anos, vive lá há 15 anos e cansou de trabalhar no ancestral sistema do cachorreo, pelo qual o garimpeiro trabalha um longo período para o dono da mina em troca de um pequeno salário e de um determinado número de dias nos quais ele poderá suar em causa própria. "O acordo varia, mas, normalmente, temos direito a um só dia nosso por mês", lamenta Mauro.

Levada a cabo pelo governo da região de Puno, a pesquisa foi bancada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), com a intenção de descobrir e banir a labuta infantil na cidade. Durante nossa estada em La Rinconada, não demos de cara com crianças perdendo a infância nas minas, mas era cena comum um bocado de adolescentes na faixa dos 16 ou 17 anos trabalhando como pallaqueros - os quebradores de pedra, de fundamental importância para a economia local. Cabe a eles martelar as rochas que sobram das explosões feitas nas montanhas, até transformá-las em pedregulhos, em busca de sinais de ouro. É essa também a tarefa reservada às mulheres, proibidas por uma questão cultural de entrar nas minas - reza a superstição que o ouro desaparece assim que elas dão o ar da graça nos túneis de garimpo. A dureza do trabalho é estampada nas mãos das moças de La Rinconada - muitas delas exibindo unhas achatadas por marteladas em falso.

O teto urbano do planeta depende de Ananea, um distrito vizinho, até para serviços primários. "Não fazemos parte do mundo", resume Oscar Vargas Hilascis, que há oito anos fareja ouro nessas encostas. Não há, por exemplo, coleta de lixo. Todos os resíduos são jogados na rua, em terrenos ou, na melhor das hipóteses, em áreas ao redor da cidade, poluindo um lago azul-claro com potencial de estampar cartão-postal - para piorar, a sujeira escorre para o Rio Carabaya, que, 250 quilômetros mais tarde, desagua no sagrado Titicaca. A energia elétrica chegou a La Rinconada no ano 2000, mas como ainda é cara, milhares de casas carecem de aquecimento mesmo no inverno, entre abril e agosto, quando a temperatura despenca para 20 graus negativos. A água encanada também só existe para poucos. Para matar a sede, a grande maioria precisa recorrer às geleiras, poços e lagos. "Nos três casos, é água contaminada", nota Herman Ventura, médico do único posto de saúde do lugar.

Um dos números mais assombrosos trazidos à tona pela pesquisa foi que 97 por cento das habitações não têm banheiro. O número é de 2002, mas quando eu e o fotógrafo Ricardo Rollo procurávamos um local para dormir durante nossa passagem pela cidade, em abril, nos indicaram os três únicos hotéis existentes. "Prefira aquele ali, com banheiro", nos aconselhou um morador. A falta de saneamento e de água potável se reflete em outro índice assustador: uma ou duas crianças morrem por mês por conta disso. Desabamentos nas minas e doenças respiratórias são outras causas de ferimentos e mortes no povoado. Um dado antigo, do biênio 96-97, aponta para 27 óbitos nas minas. "A situação só não é pior porque a altitude não beneficia a proliferação de mosquitos transmissores de doenças", afirma o médico.

A não ser por esse mesmo rigor geográfico, que definitivamente impede fugas tranqüilas, La Rinconada tem a receita certa para um filme de faroeste. "A combinação de pobreza, ouro, prostituição e bebidas é absurdamente explosiva", diz Oscar Vargas. À noite, mais de uma dezena de bordéis abrem suas portas num dos extremos da rua principal da cidade. Como todo garimpo que se preze, a população de La Rinconada é formada majoritariamente por homens, muitos deles solteiros e na faixa dos 20 aos 40 anos. Há ainda egressos do Sendero Luminoso, o grupo revolucionário que desde os anos 60 é acusado por mais de 30 mil mortes no Peru. Pergunto a Oscar por que os próprios moradores não investem na melhoria da cidade o dinheiro alcançado no garimpo. "Quem ganha pouco acaba torrando tudo na noite aqui mesmo. Quem ganha muito prefere investir em Juliaca", responde, referindo- se à cidade de quase 200 mil habitantes, que compra boa parte da produção de ouro.

O prefeito de La Rinconada - sim, há um prefeito, indicado pelos empresários do garimpo - topou conversar comigo até descobrir que eu era jornalista. E isso foi logo na terceira pergunta. "Vocês vêm aqui só para falar mal de nós", explodiu, enquanto me expulsava gentilmente de seu armazém. Se havia um lado bom para ser mostrado na cidade de ares medievais, ele perdeu a oportunidade. Para um forasteiro, ficou a pior das impressões, infelizmente confirmada pelos bravos mineiros e suas famílias que sobrevivem por conta própria com os pés imundos e os sonhos muito perto do céu.

UMA NOITE NO PURGATÓRIO



17h30 Chegamos a La Rinconada. A primeira impressão assusta e constrasta com o visual dos arredores. O cheiro enjoa e a cabeça dói por conta da altitude

18h Uma caminhada pelas ruas suja nossas botas e barras das calças com o esgoto que corre a céu aberto

18h30 Visitamos o armazém do prefeito, que foge da conversa ao saber que somos jornalistas. Diz para voltarmos no dia seguinte

19h Conseguimos dois quartos apertados com cheiro de inseticida em um hotel de madeira. É o único da cidade com banheiro

19h30 No restaurante dos mineiros pagamos 4 reais por um pedaço de frango e uma sopa. Quando a comida vem à mesa, preferimos não comer

20h Em passeio pela rua principal, encontramos mineiros exaustos e mulheres comerciantes. Os bordéis abrem suas portas

21h Tentamos dormir, mas a falta de ar, a enxaqueca, o frio e o cheiro de esgoto não deixam. Para piorar, alguém toca um CD do Queen em volume altíssimo

23h Saímos para dar uma volta e encontramos vários mineiros bêbados. Os bordéis estão cheios

0h Voltamos ao hotel e pedimos que os vizinhos abaixem o som. Eles diminuem um pouco

6h Depois de breves cochilos, acordamos com a música do Queen ainda mais alta

7h Saímos para visitar as minas e os pallaqueros

9h Vamos ao encontro do prefeito, no horário marcado por ele. Esperamos por mais de hora, em vão. Ainda com dor de cabeça e náuseas, decidimos abandonar La Rinconada