Nas terras de Makunaima
Lá se vão anos de estagnação econômica, exploração desenfreada dos recursos da terra e espoliação dos índios de Roraima. Até agora, o estado mais ao norte do Brasil não se encontrou, mas as vozes que ecoam entre os antigos donos deste chão podem apontar um caminho
Thiago Medaglia, de Uiramutã
Matéria publicada na edição 184 (Agosto/2007) de Terra
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Fique atento: Roraima não é Rondônia e sua capital é Boa Vista, não Rio Branco. Esse é o nome da capital do Acre e também do principal rio roraimense, um dos maiores contribuintes da Bacia Amazônica. Por sinal, torrentes surgem por todos os cantos deste território, marcado por uma Amazônia de características desconhecidas para a maioria, rica em cores - seja nas penas das aves ou nas pétalas das orquídeas. Há uma enorme mancha de cerrado no mapa, chamada de savana ou lavrado por estas paragens, marcada por buritizais incomuns de tão grandes. Montanhas postadas sobre um dos solos mais antigos do planeta escondem o ouro e o diamante que alimentaram os sonhos dos forasteiros nordestinos e transformaram para pior a realidade dos índios do norte bravio. Roraima são muitas e ainda não é uma. Mas é Brasil.
No fundo do mato-virgem, nas terras que hoje chamamos Roraima, nasceu Makunaima, herói dos índios do norte. Dos irmãos, era o mais novo, mas também o mais safado. Ainda menino, fez coisas de sarapantar. Numa delas, a contragosto do mano Jigué, derrubou a árvore do mundo, na qual nasciam todos os frutos bons. Para o norte, caiu a copa. Por isso, até hoje nascem muitas frutas na úmida região de floresta, enquanto ao sul, onde se encontra a seca savana, é preciso trabalho duro para tirar do solo algo de comer. O tronco da árvore despencou sobre o Rio Caroni e se transformou numa grande rocha que impede a passagem dos barcos. Dos restos, ficou de pé o cepo, chamado desde então de Monte Roraima, a casa de Makunaima.
Entre as várias etnias indígenas do norte do Brasil, o mito de Makunaima é o mais importante. Na verdade, o alcance de seu poder ultrapassa as atuais fronteiras políticas. Para além de Roraima, o herói abre seus braços sobre os índios da Venezuela, da Guiana e de regiões caribenhas. São, na crença propagada por eles próprios, os sobreviventes do grande dilúvio originado após o surgimento do Monte Roraima, ao qual prestam devoção, apesar da aspereza de seu clima e de seu paredão rochoso. Para eles, a grande montanha sintetiza o amor por este chão.
Em se tratando do estado mais indígena do Brasil, esse sentimento faz toda a diferença. Roraima, com seus mais de 40 mil índios, sente a influência de Makunaimatodos os dias. Curiosamente, quem trouxe à tona o mito foi o antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, nos anos 1910, após duas bem-sucedidas expedições pela região - ele morreu de malária na terceira, no baixo Rio Branco. Seus cinco livros foram publicados na Europa, em 1926; na Venezuela, em 1979; e no Brasil - apenas o primeiro volume - no ano passado.
No restante do país, pouco se sabe sobre a casa de Makunaima. "Roraima só aparece nos noticiários da tevê quando surge um caso de corrupção política", lamenta o jornalista Thiago Chaves. Mesmo quem caminhe pelas largas ruas de Boa Vista não irá se deparar entre as praças arborizadas com qualquer menção ao herói indígena. Verá, contudo, no Centro Cívico, no qual estão as sedes dos três poderes locais e para o qual convergem as principais avenidas da cidade, a estátua de um garimpeiro.
"Deveria ser de um índio. Roraima ainda não se enxergou direito", protesta o antropólogo Paulo Santilli, da PUC de São Paulo.
Tendo a história marcada pelo garimpo, Roraima presta homenagens àquela que, por muito tempo, foi a única atividade econômica regional, praticada em diferentes períodos por milhares de imigrantes nordestinos. O asfalto que hoje conduz à estátua não existia em Boa Vista até o começo dos anos 1990. O chão batido corria por cima e havia rede de esgoto em apenas dois bairros da cidade. A população pobre assistia ao vaivém dos aviões bimotores carregados de ouro e diamante sacados das entranhas das terras de Makunaima. Sacos de dinheiro eram arrastados em plena luz do dia assim que as pedras preciosas eram trocadas nos bancos, num cenário digno de faroeste.
"O problema é que a riqueza não ficou aqui", lamenta Elizabeth Melo, historiadora do Centro Federal de Educação Técnica, ligado ao Ministério da Educação. Ainda assim, pobre e sem estrutura, Roraima virou estado em 1988, por meio de uma emenda na Constituição Federal - antes disso, era território ligado ao Amazonas. A mudança trouxe recursos na forma de repasses federais e Boa Vista viu nascer asfalto, pontes e esgoto. Planejada, se transformou numa cidade bonita e arborizada.
Está entre as capitais brasileiras nas quais os moradores podem desfrutar praias com águas limpas - as do Rio Branco. No verão, os boa-vistenses estendem suas toalhas na beira d'água, enquanto lanchas e jet-skis passam em velocidade. Em função da proximidade com a Linha do Equador, o sol brilha forte por oito meses do ano e o clima é menos úmido - e, portanto, mais agradável - do que em outras cidades amazônicas. Boa Vista, por sinal, é a única capital brasileira situada inteiramente no Hemisfério Norte - Macapá, no Amapá, tem um pé em cada metade do globo.
A localização influi na cara distinta da Amazônia por aqui. Esqueça o imenso tapete verde formado pelas copas das árvores quando vistas de cima. Roraima tem florestas, sim, mas também uma considerável faixa de cerrado, chamada por estas bandas de savana ou lavrado. A característica única intriga ecologistas estrangeiros - muitos pensam se tratar de desmatamento - e faz a festa dos tamanduás-bandeira no fim de tarde, horário do lanche para o bichão. Saindo de Boa Vista rumo ao norte do estado, é fácil vê-los da estrada, aos bandos. Mais surpreendente, no entanto, para quem não vive aqui, é atingir o Planalto das Guianas, a antiga formação montanhosa que corta o norte do Brasil e os países vizinhos, e dar de cara com buritizais, palmeiras comuns às baixas regiões agrestes do país.
É também nessas alturas que a voz de Makunaima ressoa com mais força. Ainda que em sua casa ovacionem quem veio de fora numa estátua, o herói dos índios é forte. Prova disso é que, em todo o estado, cresce o termo macuxi - a mais numerosa etnia indígena local - como forma de designar o roraimense. Assim como acontece com os capixabas no Espírito Santo, por exemplo. "Sou macuxi com orgulho", diz o jornalista Thiago Chaves, morador de Boa Vista sem o menor sinal de traço indígena na pele ou no rosto. Dizem haver quem se incomode com o apelido na capital. "Fazer o quê? Acham pejorativo", desdenha Thiago.
No passado, a negação dava lugar à opressão mesmo. "Presenciei muitas atrocidades contra índios", afirma Paulo Santilli, que se dedica a estudos na região da Raposa / Serra do Sol desde os anos 1980. "As barreiras policiais exigiam o português e proibiam os idiomas indígenas. O mesmo acontecia nas fazendas", lembra o antropólogo. "O cenário era o de índios e garimpeiros miseráveis se digladiando, incentivados pela ausência do poder público", completa a historiadora Elizabeth Melo. Roraima era terra de ninguém. E, pior: ocupada de forma desordenada.
Do Nordeste do país vieram, em diferentes períodos, milhares de pessoas em busca do sonho de riqueza nos garimpos. Uma delas foi a maranhense Helena, que veio para trabalhar como cozinheira em acampamentos de garimpo. Em 1988, pela janela do bimotor, sugestivamente apelidado de cai-cai, tudo o que ela via logo após decolar de Boa Vista era uma interminável seqüência de paisagens alternadas: ora as pequenas árvores e os campos limpos da savana, ora o mundaréu de copas verdes da floresta. Com algumas horas de vôo, no entanto, a segunda imagem se repetiria com mais freqüência. Mata fechada e verde, manchada de marrom apenas pela clareira reta e comprida da pista de pouso. Helena havia chegado à Terra Indígena Ianomâmi.
Era só o começo de uma longa trajetória por diversos pontos de garimpo do estado. Pegou malária umas dez vezes, até que, em 1992, a Operação Selva Livre, ordenada pelo então presidente Fernando Collor, levou para a área Ianomâmi uma porção de policiais federais mal-encarados e bem armados, com a missão de interromper o uso de máquinas na exploração de minérios. Chegaram a explodir motores e, além disso, retiraram milhares de pessoas das áreas indígenas, entre elas, Helena, que acabou indo morar em outra zona de diamantes, a Serra do Tepequém - mas, dessa vez, para tocar o restaurante do lugar.
A Vila do Tepequém, dizem, já foi habitada por 5 mil homens nos tempos áureos do garimpo. Hoje restam poucos, porém persistentes. "Vou achar diamante", diz o velho Januário. Índio de nascimento, ele teve uma revelação num sonho: no meio da sala de sua casa, uma onça-pintada, das grandes, brincava com os filhotes. Na noite seguinte, outro sonho. Dessa vez, uma galinha branca cuidava de seus pintinhos. Januário entendeu a mensagem: tem diamante na sala, um maior e outros menores. Começou a cavar. Cavou muito. Não achou nada. Encheu o poço de água e soltou ali todos os jabutis que encontrou no mato. "Só como quando tô com fome", assegura.
Preso a seu devaneio, o velho Januário não conseguiu superar a decadência do garimpo. Nem Roraima, que ainda não encontrou sua matriz econômica. Atualmente, a maior parte da população é composta por funcionários públicos, alguns deles não concursados - o horário nas repartições vai das 7h30 até as 13h30. Impossível não surgirem atividades marginais, ainda por cima com o isolamento geográfico do estado. A realidade local, marcada por casos de corrupção, falta de iniciativa e abuso da força, não remete em nada à impetuosidade de Makunaima. Lembra mais as malandragens nas páginas de Macunaíma, o livro no qual o escritor paulista Mário de Andrade trocou a grafia, mas se baseou nos relatos coletados por Koch-Grünberg para criar uma caricatura das mazelas brasileiras. Em suas palavras, um tremendo anti-herói.
Mais ou menos como as pessoas que tiram proveito da proximidade com a Venezuela para contrabandear combustível. Viajar para o país de Hugo Chávez é mais fácil do que para o resto do Brasil - as estradas são melhores e as distâncias, menores. Quem segue para Pacaraima, na divisa, cruza incessantemente com camionetes na estrada. O motivo: elas foram adaptadas com dois tanques, o que facilita a vida dos contrabandistas. Eles vão até a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén, compram gasolina a menos de 10 centavos de real para revender no Brasil. Além de ilegal, é perigoso. Volta e meia há carros incendiados na beira da rodovia. São como bombas a 120 quilômetros por hora. Houve até um sujeito que, numa crise dos postos da capital, anunciou em rádios os 3 mil litros armazenados em sua casa. Acabou preso.
A verdade é que Roraima depende completamente do dinheiro de Brasília. "Com tanta terra indígena, não temos como nos desenvolver", reclama o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB), numa alusão aos processos demarcatórios vividos recentemente no estado. "A maior parte do nosso território pertence à Funai e ao Incra. Roraima é um estado virtual", completa. "O que nos atrapalha não são os índios, mas a corrupção", rebate Edinaldo Pereira, uma das lideranças indígenas na Terra de São Marcos. "Vivemos na região mais desconhecida do país, ninguém sabe direito onde fica Roraima. Me pergunto o que fazem os políticos em Brasília que não divulgam o próprio estado", complementa.
"Temos terra para trabalhar. O que não podemos fazer é ficar a reboque dos problemas", ameniza o também senador Romero Jucá (PMDB). A área mais polêmica é a Terra Indígena Raposa / Serra do Sol, uma das maiores do estado. Nem mesmo os próprios índios concordam quanto à demarcação contínua ou não da terra, homologada em 2005. O ponto central é a presença dos produtores de arroz na região. "Há interesses escusos por trás dessa demarcação. O que existe aqui são grupos internacionais representados por ONGs de olho na riqueza mineral do solo", acusa Paulo César Quartieiro, líder dos arrozeiros. Ele diz ter uma de suas propriedades invadidas por 150 índios. "Se tentarem entrar, pode estar certo: vão levar bala", avisa.
O clima tenso, muitas vezes, dita a vida em Uiramutã, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Para os visitantes entrarem nas comunidades indígenas, é preciso autorização prévia, conseguida por rádio. Do contrário, o risco de levar flechadas ou permanecer amarrado durante vários dias é grande. Até os soldados do 6º Pelotão de Fronteira, localizado na área, têm de se cuidar. Há alguns anos, quando o Exército brasileiro se instalou na região, os tuchauas - líderes indígenas, no linguajar local - tentaram impedir. Antes que se armasse um conflito, os soldados fizeram uma demonstração de força com tanques, helicópteros e armamento pesado para que recuassem.
"Precisamos nos integrar como um estado miscigenado", opina Dílson Ingarikó, integrante da tribo que lhe empresta o nome. Ele é professor primário numa escola indígena e vereador pela cidade de Uiramutã. "Essa é a nossa casa", fala Orlando Moraes, o tuchuaua de uma comunidade da etnia macuxi na Área da Raposa/ Serra do Sol. "Me criei com um branco", conta. Aos 8 anos de idade, viu a amizade com garimpeiros levar seu pai ao alcoolismo. Sobrou para ele, que acabou "vendido" a um negociador de diamantes em troca de uma pedra de valor razoável. "Sou contra a presença de brancos aqui, mas sou a favor do contato entre nós. Somos brasileiros", finaliza o velho tuchaua.
"Os políticos de Roraima ainda não acordaram para o futuro: o valoroso patrimônio que é a biodiversidade do estado. Aí está a chave para o desenvolvimento", ensina Paulo Santilli. De fato, o convívio desses povos com as riquezas da floresta é milenar. "Nenhuma universidade do mundo tem acesso a um banco de dados tão grande", completa o antropólogo. "Não adianta ensinarmos aos alunos quem foi Santos Dumont, precisamos falar também de Makunaima", reforça Dílson Ingarikó. Nada mais justo. Afinal de contas, estas são suas terras.
Área:
225 000 km2
Capital:
Boa Vista
População:
400 mil (250 mil na capital)
População indígena:
46 mil (aproximadamente)
Densidade:
1,8 habitante por km2
Ponto mais elevado:
Monte Roraima (2 785 metros)
Governador:
Ottomar Pinto (PTB)
Eleitores:
233 596 (0,2 por cento do Brasil)
Participação no PIB nacional:
0,1 por cento (a menor do país)
COMO CHEGAR
TAM e Gol voam para Boa Vista, a partir de São Paulo, com escalas. Em ambas, as tarifas variam conforme a época, mas ficam entre 700 e 1 500 reais. Dentro do estado, a malha rodoviária é terrível. A BR-174 é asfaltada, porém esburacada. Liga Boa Vista a Manaus e, no sentido oposto, à Venezuela. A BR-210 conecta o Pará ao Amazonas, cortando Roraima. De Boa Vista para Uiramutã são 300 quilômetros, grande parte em estrada de terra - evite viajar entre junho e setembro, quando chove. Para o Tepequém são 180 quilômetros, sendo a maior parte asfaltada.
QUANDO IR
O ano todo, mas vale a pena evitar a viagem entre os meses de junho e setembro, em função das chuvas. No resto do ano, o tempo é seco e firme.
ONDE FICAR
Em BOA VISTA, fique no Aipana Plaza Hotel, no Centro Cívico, 53, tel. (95) 3224 -4116, com diárias para casal por 165 reais. A 35 quilômetros da capital, está o Eco Park, tel. (95) 3224-5930, uma área de lazer com represa, piscinas e chalés com diárias a 300 reais. No TEPEQUÉM, procure pela Estação Ecológica do Sesc, tel. (95) 3621 -4303. São casas de madeira que acomodam mais de dez pessoas, com diária também a 300 reais. Em UIRAMUTÃ, a Pousada Preciosa, tel. (95) 3624-4700, oferece tarifa para casal por volta de 130 reais.
QUEM LEVA
A Cia. de Ecoturismo, tel. (11) 5517-2525, www.ciaecoturismo.com.br, em parceria com a Roraima Adventures, tel. (95) 3624-9611, www.roraima-brasil.com.br, oferece diversos pacotes pelo estado, entre eles um de sete dias pela região da Raposa / Serra do Sol. O roteiro inclui passagem pela cidade de Uiramutã, visita a comunidades indígenas, cachoeiras e trilhas. Custa 2545 reais por pessoa, incluindo passagem aérea, traslado, hotel e guias.
Veja mais em RORAIMA
No fundo do mato-virgem, nas terras que hoje chamamos Roraima, nasceu Makunaima, herói dos índios do norte. Dos irmãos, era o mais novo, mas também o mais safado. Ainda menino, fez coisas de sarapantar. Numa delas, a contragosto do mano Jigué, derrubou a árvore do mundo, na qual nasciam todos os frutos bons. Para o norte, caiu a copa. Por isso, até hoje nascem muitas frutas na úmida região de floresta, enquanto ao sul, onde se encontra a seca savana, é preciso trabalho duro para tirar do solo algo de comer. O tronco da árvore despencou sobre o Rio Caroni e se transformou numa grande rocha que impede a passagem dos barcos. Dos restos, ficou de pé o cepo, chamado desde então de Monte Roraima, a casa de Makunaima.
Entre as várias etnias indígenas do norte do Brasil, o mito de Makunaima é o mais importante. Na verdade, o alcance de seu poder ultrapassa as atuais fronteiras políticas. Para além de Roraima, o herói abre seus braços sobre os índios da Venezuela, da Guiana e de regiões caribenhas. São, na crença propagada por eles próprios, os sobreviventes do grande dilúvio originado após o surgimento do Monte Roraima, ao qual prestam devoção, apesar da aspereza de seu clima e de seu paredão rochoso. Para eles, a grande montanha sintetiza o amor por este chão.
Em se tratando do estado mais indígena do Brasil, esse sentimento faz toda a diferença. Roraima, com seus mais de 40 mil índios, sente a influência de Makunaimatodos os dias. Curiosamente, quem trouxe à tona o mito foi o antropólogo alemão Theodor Koch-Grünberg, nos anos 1910, após duas bem-sucedidas expedições pela região - ele morreu de malária na terceira, no baixo Rio Branco. Seus cinco livros foram publicados na Europa, em 1926; na Venezuela, em 1979; e no Brasil - apenas o primeiro volume - no ano passado.
No restante do país, pouco se sabe sobre a casa de Makunaima. "Roraima só aparece nos noticiários da tevê quando surge um caso de corrupção política", lamenta o jornalista Thiago Chaves. Mesmo quem caminhe pelas largas ruas de Boa Vista não irá se deparar entre as praças arborizadas com qualquer menção ao herói indígena. Verá, contudo, no Centro Cívico, no qual estão as sedes dos três poderes locais e para o qual convergem as principais avenidas da cidade, a estátua de um garimpeiro.
"Deveria ser de um índio. Roraima ainda não se enxergou direito", protesta o antropólogo Paulo Santilli, da PUC de São Paulo.
Tendo a história marcada pelo garimpo, Roraima presta homenagens àquela que, por muito tempo, foi a única atividade econômica regional, praticada em diferentes períodos por milhares de imigrantes nordestinos. O asfalto que hoje conduz à estátua não existia em Boa Vista até o começo dos anos 1990. O chão batido corria por cima e havia rede de esgoto em apenas dois bairros da cidade. A população pobre assistia ao vaivém dos aviões bimotores carregados de ouro e diamante sacados das entranhas das terras de Makunaima. Sacos de dinheiro eram arrastados em plena luz do dia assim que as pedras preciosas eram trocadas nos bancos, num cenário digno de faroeste.
MACUXI. E COM ORGULHO
"O problema é que a riqueza não ficou aqui", lamenta Elizabeth Melo, historiadora do Centro Federal de Educação Técnica, ligado ao Ministério da Educação. Ainda assim, pobre e sem estrutura, Roraima virou estado em 1988, por meio de uma emenda na Constituição Federal - antes disso, era território ligado ao Amazonas. A mudança trouxe recursos na forma de repasses federais e Boa Vista viu nascer asfalto, pontes e esgoto. Planejada, se transformou numa cidade bonita e arborizada.
Está entre as capitais brasileiras nas quais os moradores podem desfrutar praias com águas limpas - as do Rio Branco. No verão, os boa-vistenses estendem suas toalhas na beira d'água, enquanto lanchas e jet-skis passam em velocidade. Em função da proximidade com a Linha do Equador, o sol brilha forte por oito meses do ano e o clima é menos úmido - e, portanto, mais agradável - do que em outras cidades amazônicas. Boa Vista, por sinal, é a única capital brasileira situada inteiramente no Hemisfério Norte - Macapá, no Amapá, tem um pé em cada metade do globo.
A localização influi na cara distinta da Amazônia por aqui. Esqueça o imenso tapete verde formado pelas copas das árvores quando vistas de cima. Roraima tem florestas, sim, mas também uma considerável faixa de cerrado, chamada por estas bandas de savana ou lavrado. A característica única intriga ecologistas estrangeiros - muitos pensam se tratar de desmatamento - e faz a festa dos tamanduás-bandeira no fim de tarde, horário do lanche para o bichão. Saindo de Boa Vista rumo ao norte do estado, é fácil vê-los da estrada, aos bandos. Mais surpreendente, no entanto, para quem não vive aqui, é atingir o Planalto das Guianas, a antiga formação montanhosa que corta o norte do Brasil e os países vizinhos, e dar de cara com buritizais, palmeiras comuns às baixas regiões agrestes do país.
É também nessas alturas que a voz de Makunaima ressoa com mais força. Ainda que em sua casa ovacionem quem veio de fora numa estátua, o herói dos índios é forte. Prova disso é que, em todo o estado, cresce o termo macuxi - a mais numerosa etnia indígena local - como forma de designar o roraimense. Assim como acontece com os capixabas no Espírito Santo, por exemplo. "Sou macuxi com orgulho", diz o jornalista Thiago Chaves, morador de Boa Vista sem o menor sinal de traço indígena na pele ou no rosto. Dizem haver quem se incomode com o apelido na capital. "Fazer o quê? Acham pejorativo", desdenha Thiago.
No passado, a negação dava lugar à opressão mesmo. "Presenciei muitas atrocidades contra índios", afirma Paulo Santilli, que se dedica a estudos na região da Raposa / Serra do Sol desde os anos 1980. "As barreiras policiais exigiam o português e proibiam os idiomas indígenas. O mesmo acontecia nas fazendas", lembra o antropólogo. "O cenário era o de índios e garimpeiros miseráveis se digladiando, incentivados pela ausência do poder público", completa a historiadora Elizabeth Melo. Roraima era terra de ninguém. E, pior: ocupada de forma desordenada.
Do Nordeste do país vieram, em diferentes períodos, milhares de pessoas em busca do sonho de riqueza nos garimpos. Uma delas foi a maranhense Helena, que veio para trabalhar como cozinheira em acampamentos de garimpo. Em 1988, pela janela do bimotor, sugestivamente apelidado de cai-cai, tudo o que ela via logo após decolar de Boa Vista era uma interminável seqüência de paisagens alternadas: ora as pequenas árvores e os campos limpos da savana, ora o mundaréu de copas verdes da floresta. Com algumas horas de vôo, no entanto, a segunda imagem se repetiria com mais freqüência. Mata fechada e verde, manchada de marrom apenas pela clareira reta e comprida da pista de pouso. Helena havia chegado à Terra Indígena Ianomâmi.
Era só o começo de uma longa trajetória por diversos pontos de garimpo do estado. Pegou malária umas dez vezes, até que, em 1992, a Operação Selva Livre, ordenada pelo então presidente Fernando Collor, levou para a área Ianomâmi uma porção de policiais federais mal-encarados e bem armados, com a missão de interromper o uso de máquinas na exploração de minérios. Chegaram a explodir motores e, além disso, retiraram milhares de pessoas das áreas indígenas, entre elas, Helena, que acabou indo morar em outra zona de diamantes, a Serra do Tepequém - mas, dessa vez, para tocar o restaurante do lugar.
BURACO NA SALA DE CASA
A Vila do Tepequém, dizem, já foi habitada por 5 mil homens nos tempos áureos do garimpo. Hoje restam poucos, porém persistentes. "Vou achar diamante", diz o velho Januário. Índio de nascimento, ele teve uma revelação num sonho: no meio da sala de sua casa, uma onça-pintada, das grandes, brincava com os filhotes. Na noite seguinte, outro sonho. Dessa vez, uma galinha branca cuidava de seus pintinhos. Januário entendeu a mensagem: tem diamante na sala, um maior e outros menores. Começou a cavar. Cavou muito. Não achou nada. Encheu o poço de água e soltou ali todos os jabutis que encontrou no mato. "Só como quando tô com fome", assegura.
Preso a seu devaneio, o velho Januário não conseguiu superar a decadência do garimpo. Nem Roraima, que ainda não encontrou sua matriz econômica. Atualmente, a maior parte da população é composta por funcionários públicos, alguns deles não concursados - o horário nas repartições vai das 7h30 até as 13h30. Impossível não surgirem atividades marginais, ainda por cima com o isolamento geográfico do estado. A realidade local, marcada por casos de corrupção, falta de iniciativa e abuso da força, não remete em nada à impetuosidade de Makunaima. Lembra mais as malandragens nas páginas de Macunaíma, o livro no qual o escritor paulista Mário de Andrade trocou a grafia, mas se baseou nos relatos coletados por Koch-Grünberg para criar uma caricatura das mazelas brasileiras. Em suas palavras, um tremendo anti-herói.
ESTADO VIRTUAL
Mais ou menos como as pessoas que tiram proveito da proximidade com a Venezuela para contrabandear combustível. Viajar para o país de Hugo Chávez é mais fácil do que para o resto do Brasil - as estradas são melhores e as distâncias, menores. Quem segue para Pacaraima, na divisa, cruza incessantemente com camionetes na estrada. O motivo: elas foram adaptadas com dois tanques, o que facilita a vida dos contrabandistas. Eles vão até a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén, compram gasolina a menos de 10 centavos de real para revender no Brasil. Além de ilegal, é perigoso. Volta e meia há carros incendiados na beira da rodovia. São como bombas a 120 quilômetros por hora. Houve até um sujeito que, numa crise dos postos da capital, anunciou em rádios os 3 mil litros armazenados em sua casa. Acabou preso.
A verdade é que Roraima depende completamente do dinheiro de Brasília. "Com tanta terra indígena, não temos como nos desenvolver", reclama o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB), numa alusão aos processos demarcatórios vividos recentemente no estado. "A maior parte do nosso território pertence à Funai e ao Incra. Roraima é um estado virtual", completa. "O que nos atrapalha não são os índios, mas a corrupção", rebate Edinaldo Pereira, uma das lideranças indígenas na Terra de São Marcos. "Vivemos na região mais desconhecida do país, ninguém sabe direito onde fica Roraima. Me pergunto o que fazem os políticos em Brasília que não divulgam o próprio estado", complementa.
A VEZ DOS TUCHAUAS
"Temos terra para trabalhar. O que não podemos fazer é ficar a reboque dos problemas", ameniza o também senador Romero Jucá (PMDB). A área mais polêmica é a Terra Indígena Raposa / Serra do Sol, uma das maiores do estado. Nem mesmo os próprios índios concordam quanto à demarcação contínua ou não da terra, homologada em 2005. O ponto central é a presença dos produtores de arroz na região. "Há interesses escusos por trás dessa demarcação. O que existe aqui são grupos internacionais representados por ONGs de olho na riqueza mineral do solo", acusa Paulo César Quartieiro, líder dos arrozeiros. Ele diz ter uma de suas propriedades invadidas por 150 índios. "Se tentarem entrar, pode estar certo: vão levar bala", avisa.
O clima tenso, muitas vezes, dita a vida em Uiramutã, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana. Para os visitantes entrarem nas comunidades indígenas, é preciso autorização prévia, conseguida por rádio. Do contrário, o risco de levar flechadas ou permanecer amarrado durante vários dias é grande. Até os soldados do 6º Pelotão de Fronteira, localizado na área, têm de se cuidar. Há alguns anos, quando o Exército brasileiro se instalou na região, os tuchauas - líderes indígenas, no linguajar local - tentaram impedir. Antes que se armasse um conflito, os soldados fizeram uma demonstração de força com tanques, helicópteros e armamento pesado para que recuassem.
"Precisamos nos integrar como um estado miscigenado", opina Dílson Ingarikó, integrante da tribo que lhe empresta o nome. Ele é professor primário numa escola indígena e vereador pela cidade de Uiramutã. "Essa é a nossa casa", fala Orlando Moraes, o tuchuaua de uma comunidade da etnia macuxi na Área da Raposa/ Serra do Sol. "Me criei com um branco", conta. Aos 8 anos de idade, viu a amizade com garimpeiros levar seu pai ao alcoolismo. Sobrou para ele, que acabou "vendido" a um negociador de diamantes em troca de uma pedra de valor razoável. "Sou contra a presença de brancos aqui, mas sou a favor do contato entre nós. Somos brasileiros", finaliza o velho tuchaua.
"Os políticos de Roraima ainda não acordaram para o futuro: o valoroso patrimônio que é a biodiversidade do estado. Aí está a chave para o desenvolvimento", ensina Paulo Santilli. De fato, o convívio desses povos com as riquezas da floresta é milenar. "Nenhuma universidade do mundo tem acesso a um banco de dados tão grande", completa o antropólogo. "Não adianta ensinarmos aos alunos quem foi Santos Dumont, precisamos falar também de Makunaima", reforça Dílson Ingarikó. Nada mais justo. Afinal de contas, estas são suas terras.
ENTENDA RORAIMA
Área:
225 000 km2
Capital:
Boa Vista
População:
400 mil (250 mil na capital)
População indígena:
46 mil (aproximadamente)
Densidade:
1,8 habitante por km2
Ponto mais elevado:
Monte Roraima (2 785 metros)
Governador:
Ottomar Pinto (PTB)
Eleitores:
233 596 (0,2 por cento do Brasil)
Participação no PIB nacional:
0,1 por cento (a menor do país)
CARTA DE NAVEGAÇÃO
COMO CHEGAR
TAM e Gol voam para Boa Vista, a partir de São Paulo, com escalas. Em ambas, as tarifas variam conforme a época, mas ficam entre 700 e 1 500 reais. Dentro do estado, a malha rodoviária é terrível. A BR-174 é asfaltada, porém esburacada. Liga Boa Vista a Manaus e, no sentido oposto, à Venezuela. A BR-210 conecta o Pará ao Amazonas, cortando Roraima. De Boa Vista para Uiramutã são 300 quilômetros, grande parte em estrada de terra - evite viajar entre junho e setembro, quando chove. Para o Tepequém são 180 quilômetros, sendo a maior parte asfaltada.
QUANDO IR
O ano todo, mas vale a pena evitar a viagem entre os meses de junho e setembro, em função das chuvas. No resto do ano, o tempo é seco e firme.
ONDE FICAR
Em BOA VISTA, fique no Aipana Plaza Hotel, no Centro Cívico, 53, tel. (95) 3224 -4116, com diárias para casal por 165 reais. A 35 quilômetros da capital, está o Eco Park, tel. (95) 3224-5930, uma área de lazer com represa, piscinas e chalés com diárias a 300 reais. No TEPEQUÉM, procure pela Estação Ecológica do Sesc, tel. (95) 3621 -4303. São casas de madeira que acomodam mais de dez pessoas, com diária também a 300 reais. Em UIRAMUTÃ, a Pousada Preciosa, tel. (95) 3624-4700, oferece tarifa para casal por volta de 130 reais.
QUEM LEVA
A Cia. de Ecoturismo, tel. (11) 5517-2525, www.ciaecoturismo.com.br, em parceria com a Roraima Adventures, tel. (95) 3624-9611, www.roraima-brasil.com.br, oferece diversos pacotes pelo estado, entre eles um de sete dias pela região da Raposa / Serra do Sol. O roteiro inclui passagem pela cidade de Uiramutã, visita a comunidades indígenas, cachoeiras e trilhas. Custa 2545 reais por pessoa, incluindo passagem aérea, traslado, hotel e guias.
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PARA SABER MAIS
Do Roraima ao Orinoco, V. 1, Theodor Koch-Grünberg, Ed. Unesp / Makunaima e Jurupari, Cosmogonias Ameríndias, Sérgio Medeiros, Ed. Perspectiva / Makunaima, Mário de Andrade.
Pra levar
Wing Cooler
Conjunto de 2 mesas, 2 bancos e 1 cooler
Saco de dormir
Nautika Viper de poliamida resinado
Pá dobrável
Articula-se em 2 posições
Fogareiro
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