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Brasileiros sem fronteiras

Eles vão aos lugares mais perigosos do mundo cumprir sua missão. Lugares de onde todos só pensam em fugir, como vilarejos arrasados pela Aids, países esfomeados, regiões enredadas em guerras civis sem fim ou devastadas por terremotos ou tsunamis. Conheça o dia-a-dia dos Médicos sem Fronteiras pelas experiências de Simone, Otávio e Mônica, que saíram do Brasil para atuar numa das organizações mais admiradas do planeta

Luiz Maciel

Matéria publicada na edição 184 (Agosto/2007) de Terra


Gilvan Barreto

Simone Rocha

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Simone Rocha deixou para trás um promissor emprego de jornalista no Rio de Janeiro para se alistar em programas de vacinação e de ajuda a refugiados na África. Pegou malária na Guiné, arriscou-se em campos minados de Angola, viu de perto o drama dos mutilados de guerra de Serra Leoa. Adiou, durante quase dez anos, o sonho de ser mãe.
A médica Mônica Carvalho já era mãe de quatro filhos quando se mudou, aos 40 anos, para a miserável cidade de Tete, em Moçambique, onde um entre cinco moradores está infectado com o vírus da Aids. Especialista em medicina tropical, geriatria e saúde pública, ela se dispôs a aprimorar o inglês e esperar durante mais de um ano a indicação para um trabalho que lhe renderia a metade do que ganhava no Brasil. Suportou até o afastamento dos filhos nos primeiros três meses no exterior - só depois desse período os dois mais novos, de 8 e 10 anos, foram se juntar a ela.

O médico anestesista Otávio Omati foi outro que deu uma guinada na carreira e na vida. Profissional talentoso, aos 32 anos já fazia parte de uma equipe de cirurgiões que atua em cinco hospitais de ponta de São Paulo, como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês. Por mais que seu trabalho fosse reconhecido, porém, David sentia que precisava ir além, fazer algo mais para si mesmo e para os outros. Então jogou tudo para o alto e voou para a Indonésia, onde as vítimas do tsunami que devastou aquele país, no final de 2004, precisavam desesperadamente de voluntários como ele.
Simone, Mônica e Otávio são alguns dos brasileiros que atuam na linha de frente de uma das ONGs mais admiradas do mundo, os Médicos sem Fronteiras (MSF), ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1999. São 3500 pessoas que correm o planeta para atender as populações mais ameaçadas pelas guerras, epidemias, fome crônica e catástrofes naturais. Acostumados às emergências, conseguem prestar os primeiros socorros às vítimas já a partir do terceiro dia, em qualquer lugar do mundo, contando com o apoio de outras 20 mil pessoas contratadas nos locais das tragédias.

"Assim que acontece alguma emergência, enviamos um médico e um profissional de logística para a área mais afetada. Eles avaliam as necessidades mais prementes e acionam nossas centrais de estoque de medicamentos, que ficam na Bélgica e na França. Dois dias depois, já podemos atender com os primeiros kits médicos enviados", garante Simone, que dirige o escritório da organização no Brasil, baseado no Rio de Janeiro. Para agilizar esse processo, os Médicos sem Fronteiras desenvolveram 73 kits médicos e 98 logísticos. O "kit cirúrgico", por exemplo, permite a realização de 300 cirurgias numa simples tenda. Com o "kit cuidados básicos de saúde", os soldados da MSF podem atender até mil pessoas por mês, durante três meses.
A organização surgiu em 1971, por iniciativa de médicos franceses desencantados com a falta de autonomia da Cruz Vermelha. Eles tinham ido acudir vítimas da guerra de independência da Biafra, mas pouco puderam fazer diante dos obstáculos colocados pelo governo da Nigéria. A guerra matou entre 500 mil e 2 milhões de pessoas, terminando com a reincorporação de Biafra. A Cruz Vermelha, que atua sempre em sintonia com governos e órgãos oficiais, comprometendo-se a não revelar as atrocidades que testemunhar, viu-se de mãos amarradas nesse caso.

Os Médicos sem Fronteiras nasceram com a determinação de peitar governos, se necessário, e denunciá-los sempre que atrapalhassem a sua atuação. Defendem a "ingerência humanitária", o direito de violar a soberania nacional para salvar vidas - conceito que seria reconhecido e adotado pela ONU, anos depois. Por outro lado, estão dispostos a costurar acordos com qualquer tipo de autoridade, mesmo fora-da-lei, para garantir que a ajuda chegue a quem precise dela.
"Sempre que entramos em algum lugar, nosso primeiro passo é identificar quem são os controladores para nos entendermos com eles. Foi assim na comunidade do Vigário Geral, aqui no Rio, onde instalamos um posto de saúde em 1995 e ajudamos a criar uma associação que hoje toca vários projetos assistenciais. Temos um pacto com os controladores. Não atrapalhamos suas atividades e eles não atrapalham a nossa. Aliás, nos apóiam", conta Simone.

BRASIL NO PRIMEIRO MUNDO



No Brasil, os Médicos sem Fronteiras têm projetos pontuais, em bolsões de miséria. Implantam postos de saúde em comunidades carentes (três já foram beneficiadas, no Rio de Janeiro), encaminham moradores de rua para atendimento médico, socorrem vítimas de enchentes (atuaram em Barra Mansa e Resende, em 2000, e no Vale do Jequitinhonha, em 2002). Fazem convênios com prefeituras para treinamento de agentes de saúde e atraem voluntários e doações para os programas internacionais da entidade. Não fazem mais porque, no mapa das carências mundiais, nosso país não é prioridade.
"O Brasil é Primeiro Mundo quando comparado com a desgraceira de países africanos. Bem ou mal, temos uma política nacional de saúde pública e amplos programas de vacinação", resume Simone. Mônica Carvalho, que passou um ano cuidando de aidéticos desnutridos em Moçambique, reforça essa idéia. "Em Tete contamos com oito tipos de medicamentos para combater a Aids e temos de fiscalizar os pacientes em casa para não interromperem o tratamento. No Brasil, temos à disposição 17 retrovirais e o índice de controle da doença é incomparavelmente mais alto", nota.

Mônica voltou ao Brasil momentaneamente, por motivos particulares, mas não vê a hora de embarcar de novo para Moçambique. "A serenidade e até alegria com que os africanos lidam com seus problemas é comovente. Os aidéticos que eu arregimentava para ajudar no controle dos pacientes mais novos, por exemplo, faziam questão de dançar antes das reuniões. É gente ameaçada de morrer a qualquer momento, mas que não perde a menor oportunidade de festejar", conta.
O anestesiologista Otávio, que perambulou pelos mais diversos cenários de tragédias, também acabou de voltar ao Brasil, mas não sabe o rumo que tomará a partir de agora. Em dois anos como médico sem fronteiras, ele esteve na Indonésia arrasada pelo tsunami, no Paquistão pós-terremoto e no Chade, Sudão, Somália e República Democrátrica do Congo, todos devastados pelos efeitos de guerras recentes e pela fome. Depois de experiências tão intensas, Otávio está deixando a poeira assentar e matando a saudade da comida da mãe, dona Fusae, em São Paulo.

Ela sempre deu força às decisões do filho, por mais surpreendentes que fossem. "Quando o Otávio estava no terceiro ano de Engenharia, avisou que ia largar tudo para fazer Medicina. Foi um baque para nós, mas, fazer o quê?, tivemos de respeitar. Depois veio com essa idéia de ir para o exterior. Eu pensava que ele ia fazer um curso, quando na verdade estava indo para a guerra. Quando soube, fiquei assustada, mas entendi que é a vocação dele", revela Fusae, com sua suave sabedoria oriental.
Otávio está em nova encruzilhada profissional, mas sabe que voltou outro homem. Se decidir se reincorporar à antiga equipe de cirurgiões paulistanos, o fará com o espírito apaziguado, já que cumpriu à risca o compromisso de fazer "algo mais" pela humanidade. Logo depois do terremoto no Paquistão, trabalhou cinco semanas direto, sem folga, chegando a ficar 21 horas seguidas passando de uma cirurgia para outra. No Sudão, ficou baseado numa aldeia com péssimas condições de higiene, sofrendo na própria pele as conseqüências da água e da comida contaminadas. "Das 20 pessoas envolvidas no atendimento, havia sempre quatro ou cinco com diarréia. Foi ali também que peguei malária e emagreci 10 quilos", lembra Otávio.
Se há uma regra no trabalho dos Médicos sem Fronteiras é a de que as adversidades que encontram são sempre maiores do que se imagina. A entidade se viu obrigada a se retirar recentemente do Afeganistão, por exemplo, depois que cinco de seus integrantes foram mortos em uma emboscada. Otávio também não esperava enfrentar tanta encrenca por onde passou, mas não se arrepende de nada. "Aprendi a me envolver mais com os pacientes, a intervir também como clínico geral, conselheiro e amigo. E nunca fui tão valorizado como jogador de futebol", brinca, lembrando dos jogos que fazia com colegas e pacientes. Era sempre reverenciado como um artilheiro da terra de Pelé e Ronaldinho.

Para reforçar que cada minuto seu na organização valeu a pena, Otávio lembra de um menino de 15 anos que atendeu na República Democrática do Congo. "Ele chegou com uma fratura grave que deixou seu pé virado para trás, como o folclórico Curupira. Para animá-lo, combinei que lhe ensinaria inglês e ele me ensinaria o dialeto local. Quando eu repetia o que ele me dizia, porém, os outros pacientes riam. Descobri que falava 'estou indo fazer xixi' achando que era 'está tudo bem'. Mesmo naquele estado ele achava um jeito de se divertir. No fundo, ele me ensinou a ver a vida com mais otimismo e bom humor. E isso não tem preço", diz.

MSF EM NÚMEROS



+ Arrecada por ano 660 milhões de euros, dos quais 75% (ou 500 milhões de euros) vindos de doações particulares
+ Tem 3,4 milhões de contribuintes no mundo todo
+ Destina 83% do orçamento aos projetos
+ Atua em 77 países
+ Conta com 3500 voluntários expatriados, dos quais 11 são brasileiros. Eles são apoiados por 20 mil profissionais contratados nas áreas de atuação
+ Em 2005 deu atendimento médico a 10 milhões de pessoas. Vacinou 1,4 milhão contra sarampo e febre amarela e realizou 83 mil cirurgias e 91 mil partos. Cuidou ainda de 161 mil pacientes com o vírus da Aids, dos quais 60 mil já com a doença desenvolvida
+ O salário de um profissional expatriado varia de 1000 a 2500 euros

FUNDADOR E DISSIDENTE



Principal líder do movimento que levou à fundação dos Médicos sem Fronteiras, o francês Bernard Kouchner deixou a organização em 1980 para criar uma entidade semelhante, Médicos do Mundo. A razão da saída foi a discordância em relação à assistência a 2 564 refugiados vietnamitas que estavam à deriva no Mar da China. Kouchner queria encher um navio com médicos e jornalistas para dar assistência aos refugiados e denunciar as violações do governo do Vietnã. Os demais diretores da MSF acharam a iniciativa publicitária demais. Depois disso, Kouchner foi representante das Nações Unidas no Kosovo e exerceu altos cargos públicos em seu país. Assumiu recentemente o Ministério das Relações Exteriores do novo governo, o que provocou, aliás, a sua expulsão do Partido Socialista. Os Médicos do Mundo tocam 380 projetos de ajuda humanitária atualmente, com um orçamento de 67 milhões de euros - dez vezes menor que o dos Médicos sem Fronteiras.

COMO PARTICIPAR



Para participar como voluntário ou doador de programas humanitários, basta acessar os portais das organizações. A seguir, uma relação das mais atuantes:
+ Médicos sem Fronteiras www.msf.org / www.msf.org.br
+ Cruz Vermelha www.cicr.org
+ Médicos do Mundo www.mdm-international.org
+ Comitê de Oxford contra a Fome www.oxfam.org.uk
+ Anistia Internacional www.amnesty.org