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Terra > Julho/2007 > Feira de Caruaru

Planeta Caruaru

Livretos de cordel, fontes de computador, gibões de vaqueiro, celulares, bichos para encher uma arca de noé, engenhocas, o diabo. Você encontra tudo isso e mais um pouco no maior mercado do Brasil, armado todo santo dia nesta cidade do agreste pernambucano, há 200 anos

Walterson Sardenberg So

Matéria publicada na edição 183 (Julho/2007) de Terra


Eduardo Queiroga

Artesanato vendido na Feira de Caruaru

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Foi em maio. Caruaru completou 150 anos. Na típica comemoração nordestina, houve discursos barrocos - abusando da palavra sesquicentenário -, fanfarras e fanfarronice. Mas houve também a descontração da farra e do forró. Nesse sentido, nada muito diferente do que ocorre todos os dias na lendária e gigantesca feira instalada sob o céu aberto, luminoso e abafado desta cidade pernambucana.
A Feira de Caruaru é a maior do país e está entre as mais interessantes e movimentadas do mundo (veja quadro). No Brasil, é imbatível em tamanho, tradição e variedade de produtos. Ao se esparramar por uma área de quase 250 mil metros quadrados - ou um estádio e meio do Maracanã -, poderia até lembrar um latifúndio, se não estivesse dividida em mais de 22 mil pontos-de-venda. Suas barracas oferecem de tudo e mais um pouco, sendo esse pouco uma imensidão: frutas de todos os matizes, discos de vinil, urinóis de ágata, fontes de computador, livretos de cordel, chaves de bronze, máquinas de costura, engenhos de cana, gibões de vaqueiro, animais (vivos) capazes de lotar uma arca de Noé, jogo do bicho, legumes, anáguas, enxovais, celulares, fitas cassetes, brinquedos, fifós - por fifós entenda-se candeeiros. Sem esquecer das peças de trator, de tear, de teatro, de vigários e de vigaristas. Um mundo.

Há quem compare a feira de Caruaru a uma daquelas serpentes chinesas de papel, imensas, sinuosas, intermináveis, a percorrer as veredas de Pequim em ocasiões festivas. Outros a cotejam à Praça Djema el-Fna, em Marrakesh, no Marrocos, célebre por seus contadores de histórias, pitonisas, encantadores de najas e vendedores de víveres - enfim, personagens sobreviventes da Idade Média.
Nesse último caso, há de fato alguns pontos em comum. A praça marroquina e a feira nordestina são singulares em sua identidade e plurais no seu sortimento. Mas, sobretudo, assim como a praça foi a gênese de Marrakesh, também a feira fez despontar os primórdios de Caruaru. "Em geral, as cidades dão origem às feiras. Aqui ocorreu o contrário", pontua Mabel Neves Baptista, coordenadora do projeto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, que em fevereiro deste ano elevou a feira a Patrimônio Cultural Imaterial do país.

Caruaru fica a 130 quilômetros do Recife, na região conhecida como Agreste - o território de transição entre o sertão de perene carência e a Zona da Mata, onde há séculos vicejam os canaviais e boa parte da economia de Pernambuco. Essa localização estratégica, entre o árido e o fértil, entre a pobreza e a riqueza, entre o querer e o poder, transformou aquilo que nem chegava a ser um lugarejo em parada de comerciantes.
Era comum que vaqueiros do sertão, ao levar o gado para o litoral, encostassem o cansaço, a sede e o gibão nas rústicas acomodações de uma remota fazenda do agreste conhecida por Caruaru. Dela também se valiam os mascates ao percorrer o trajeto inverso. Desse encontro surgiu um espontâneo entreposto de comércio e, por extensão, o raiar da urbanização. Era a origem da feira. Ela ganharia ainda mais impulso quando José Rodrigues de Jesus, o dono da tal fazenda, fez erguer uma capela em honra a Nossa Senhora da Conceição. Era o que faltava para assentar uma população incipiente, mas tão apegada à religiosidade quanto à sobrevivência.

Se a feira teve a nobreza de permitir a Caruaru se expandir a ponto de transformar-se na segunda maior cidade do estado - hoje, com 300 mil habitantes -, a recíproca não se deu com tal fidalguia. Ao contrário. Já em 1853, o vereador Caetano da Fonseca esbravejava contra o portentoso mercado de rua, por sujar a Capela da Conceição. A campanha persistiu, insistente, ao longo de décadas, até que em 1922 o prefeito Celso Galvão mandou construir três mercados - de carne, de farinha e de açúcar. No entanto, enquanto a cidade se expandia, a feira seguia-lhe os passos no mesmo compasso, tornando a convivência cada vez mais hostil. A harmonia entre uma e outra só resistia no som das bandas de pífanos. Ou no baião "A Feira de Caruaru", de Onildo Almeida, gravado em 1957 por Luiz Gonzaga, e, depois dele, por outros 542 artistas - sendo o mais recente um grupo japonês, cantando em sua língua natal.

MUITAS FEIRAS NUMA SÓ



Em maio de 1992, enfim, a feira se viu transferida para o Parque 18 de Maio, à beira dos trilhos da estrada de ferro. Se o projeto se arrastou por nove anos, a mudança se deu em um único dia - 17 de maio. Foi um milagre de astúcia, ritmo e rapidez, como na melhor das emboladas. A Feira de Caruaru, afinal, são muitas, atendendo 40 mil pessoas por dia - e quase 1,5 milhão ao ano. Um batalhão de cem policiais cuida da segurança dos freqüentadores, mas o registro de ocorrências é insignificante. "Há pequenos furtos e algumas brigas de vez em quando, mas nada de mais grave. Nosso maior trabalho é ajudar os visitantes que se perdem no meio de tantas barracas", conta o sargento Aldemir Cabral, que trabalha na feira há 13 anos. Se para o visitante desavisado ela parece um bricabraque aleatório, sem começo nem fim, na realidade está dividida em mercados diversos e cindidos, ainda que haja confusões e confluências entre eles.

Mabel Neves Baptista, do Iphan, calculava existirem 13 feiras diferentes em uma só. Ao realizar pesquisa mais aprofundada, descobriu pelo menos outras quatro a merecer distinção. Alheios aos critérios acadêmicos, os feirantes costumam resumir as subdivisões a apenas cinco: feira livre (de produtos alimentícios e congêneres), feira de artesanato, feira Paraguai, feira da Sulanca e, por fim, feira troca-troca. Se as duas primeiras carecem de explicação, as demais exigem algumas linhas de esclarecimento.
Pois bem, a feira Paraguai tem insuspeito nome irônico e suspeitíssimos produtos. Nessa área são vendidos uísques, perfumes, relógios, eletrônicos e demais artigos trazidos - em tese - do exterior. Ao passo que a feira da Sulanca tem batismo ainda mais curioso e produtos made in Brazil - roupas, sempre roupas. O nome veio da aglutinação das palavras sul e helanca, um tecido sintético e extensível, sucesso nos anos 1960, tempo de calças e causas justas. Mas a maioria das roupas vem mesmo é de Toritama, cidadezinha de 22 mil viventes, a 36 quilômetros de Caruaru, que a partir dos anos 1980 começou a fabricar jeans a torto e a direito. Hoje, dá conta de 16 por cento da produção nacional, sem ajuda oficial ou programas de incentivo.
Dos tempos em que o tecido se chamava brim e Toritama era só um vilarejo, não resta memória. Seus fabricantes talvez nem imaginem que feira é anagrama de féria, mas sabem muito bem que nas madrugadas das terças-feiras - único dia em que funciona a Sulanca - o faturamento compensa a noite insone.

O MÉDICO DAS PANELAS



A feira troca-troca, por sua vez, é um dos trechos mais animados, bem ao lado da linha de trem. Não tem a fragrância das especiarias da feira livre, nem as cantorias e repentes da feira de artesanato e, muito menos, a movimentação financeira da Sulanca. É aqui que se pratica o escambo. Exatamente como costumava ocorrer ainda nos primórdios da Feira de Caruaru, dois séculos atrás. A diferença é que, em vez da troca de cereais por verduras ou afins, como acontecia naqueles idos, os matutos se põem agora nos calcanhares para longas conversas que envolvem a troca de celulares por aparelhos MP3, fornos microondas ou outras engenhocas eletrônicas. No fundo, essas negociações são a metáfora da própria feira e da cidade por ela criada, na medida em que permeiam as relações entre o antigo e o moderno, o regional e o globalizado, o arcaico e o cibernético.

Enquanto os celulares são trocados, Élson Araújo, 33 anos, ergue a voz em sua minibarraca da feira livre para anunciar produtos que a globalização ainda não conseguiu eliminar. Entre outros remédios, ele vende creme de aroeira para espinhas, loção de copaíba para diabetes, óleo de cágado para dores musculares, catuaba para disfunções eréteis e jatobá com camomila para a mais moderna das enfermidades - ela mesma, o estresse. Em seu mundo não soa a tecnologia do MP3, mas as marteladas de Edson Torres, que se intitula "médico de panelas", ocupação abraçada há 26 anos. Numa época em que o descartável é a carta da vez, ele ainda aposta no durável. Renova uma frigideira por apenas 5 reais, mas não consegue dar cabo da desilusão: "O alumínio das panelas de hoje é fraco demais", reclama.

Mistura de épocas, de técnicas e de cheiros - conta com cerca de 200 postos de alimentação -, a Feira de Caruaru é original até na oferta de produtos industrializados. Em suas barracas despontam marcas que não costumam freqüentar as prateleiras dos supermercados dos grandes centros. Ou mesmo dos pequenos. Exemplo disso são as sandálias de dedo Mi Kalce, Marcarena e New Way, vendidas ao lado de pacotes de cigarros de batismos e preços curtíssimos: GP, WL, 777, Yes, Skin, Mega, Oscar, LLL, 21. Para matar a sede, o guaraná Frevo. Ou uma caninha D'Ouro, anunciada em cartazes pelo cantor Reginaldo Rossi.

Para queixa dos puristas, a pequena indústria também enveredou pela feira de artesanato. Bonecos de argila, chapéus, sandálias de couro; a maioria dessas peças parece saída de uma linha de montagem. Quem procura a mais criativa arte popular sabe que o endereço não é a feira, mas o Alto da Moura, bairro a 8 quilômetros, onde morou Mestre Vitalino, o mais famoso artesão de Caruaru. Tocador de pífano nas horas vagas, Vitalino Pereira dos Santos utilizava as demais para modelar no barro os usos e costumes do cotidiano rural. Morreu de varíola em 1963, aos 54 anos, deixando por legado fiéis seguidores.

A saga de Vitalino é cantada em versos pelo poeta de cordel José Severino Cristóvão, que completou só o primário, condição para ele secundária. Aos 70 anos, Cristóvão mantém uma barraca na feira, onde vende não só a biografia do mestre do Alto da Moura, mas também de outras figuras de vulto, de Lampião a Juscelino. Todas, claro, de sua lavra. A biografia do próprio trovador é resumida numa placa: "Poeta Cristóvão - Cordel científico, regional e biografia - Conhecido em 43 países". A fama multinacional é justificada por uma amarelada reportagem no jornal New York Times. Nada a estranhar. O cordel sempre foi literatura adaptável aos tempos, capaz de cantar as façanhas de cangaceiros e cosmonautas.

O que a muitos pode parecer anacrônico é o trecho da feira onde são vendidos animais vivos. Em especial, aos olhos dos fiscais do Ibama. Em dois dias de fiscalização, no final do mês de abril, o órgão apreendeu 150 pássaros silvestres, presos em gaiolas. Havia azulões, galos-de-campina, papa-capins e graúnas, entre outros.
É melhor deixar claro: o granjeiro Roseno Barbosa da Silva não tem nada com isso. Seu artigo são galinhas caipiras, legalizadas até a última pena. Aos sábados e domingos, ele viaja os 40 quilômetros que separam Cachoeirinha de Caruaru, trazendo quase duas centenas de galináceos em sua carcomida caminhonete. As penosas chegam acondicionadas em rústicos gaiolões de madeira conhecidos por grajais e valem de 10 a 14 reais, conforme o tamanho. O destino delas é uma incógnita. Seriam as vetustas frigideiras do "médico das panelas" ou o forno de microondas trocado por um celular?
Crescendo e se debatendo entre o arcaico e o globalizado, a Feira de Caruaru vive a mesma dialética das galinhas

O HINO DE CARUARU



A música "Feira de Caruaru", de Onildo Almeida, é a melhor tradução deste imenso mercado a céu aberto. Confira a letra:

A Feira de Caruaru,
Faz gosto a gente ver,
de tudo que há no
mundo, Nela tem
pra vender,
Na feira de Caruaru
Tem massa de mandioca,
Batata assada
tem ovo cru,
Banana, laranja e
manga, Batata-doce,
queijo e caju,
Cenoura, jabuticaba,
Guiné galinha,
Pato e Peru,
Tem Bode, carneiro
e porco, Se duvidar
inté cururu,
Tem cesto, balaio, corda,
Tamanco, greia, Tem boi
tatu, Tem fumo, tem
tabaqueiro Tem tudo
e chifre de boi zebu
Caneco, arcoviteiro,
Peneira, boi, Mel de uruçu,
Tem carça de Alvorada,
Qué pra matuto,
Não andar nu.
Na Feira de Caruaru,
Tem coisa pra gente ver
De tudo que há no mundo,
Nela tem pra vender,
Na feira de Caruaru.
Tem rede, Tem balieira,
mó de menino
Caçar Nhandu,
Maxixe, cebola verde,
Tomate, coentro,
Coco e chuchu
Armoço feito na corda,
Pirão mexido
Que nem angu,
Mobília de tamborete,
Feita de tronco
de mulungu
Tem louça,
tem ferro véio,
Sorvete de raspa
que faz jaú,
Gelado, caldo de cana,
Fruta de parma
e mandacaru
Boneco de Vitalino,
Que são conhecido
inté no Sul,
De tudo que há no mundo,
Tem na feira de Caruaru.

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