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Sossego e aventura no Jalapão

No meio do cerrado do Tocantins, longe de qualquer sinal de civilização, um mundo de rios cristalinos, chamado Jalapão, alterna deliciosas piscinas naturais com corredeiras desafiadoras

Thiago Medaglia, de Mumbuca

Matéria publicada na edição 183 (Julho/2007) de Terra


Valdemir Cunha

O Jalapão oferece um mundo de rios cristalinos, como este

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"Sorte ter acontecido no Jalapão", lembra Mássimo, com bom humor. O lugar, nos confins do Tocantins, mal havia entrado no mapa nos anos 90, quando ele guiou um grupo de aventureiros para a primeira expedição de rafting na parte baixa do Rio Novo, um dos mais bonitos e desafiadores da região. A equipe, destinada a reconhecer a área ainda virgem, se organizou em dois botes, um com quatro passageiros e outro ocupado exclusivamente por Mássimo, o mais experiente dos guias. Sobre ele recairia a responsabilidade de conduzir o barco que levava barracas, equipamentos e toda a comida necessária para passar alguns dias longe da civilização. Era a embarcação mais pesada, mas também a mais estável e segura - pelo menos, na teoria.

A cada nova corredeira, os botes eram encostados nas margens, os homens desciam, avaliavam os riscos e escolhiam a melhor linha para seguir adiante. Pois numa queda-d'água despretensiosa, que nem parecia tão forte, o cargueiro virou. Foi um sufoco. Mássimo teve de se desdobrar, lutando para escapar da força da água ao mesmo tempo em que puxava o bote para fora do turbilhão. Os companheiros vieram em seu socorro. Juntos, desviraram o bote e se deram conta de que os suprimentos haviam naufragado.
Eles sabiam que não poderiam continuar sem comida. Ou recuperavam uma boa parte das provisões ou teriam de encurtar a expedição. Mergulharam atrás da carga perdida e perceberam, enfim, que a sorte não os havia abandonado. Primeiro, porque a própria correnteza tratara de levar toda a carga para um sossegado remanso. E bastava olhar para baixo para enxergar tudo que havia caído do bote. "Me lembro até hoje de uma embalagem de salame no fundo do rio", diz Mássimo. Aquelas eram as águas mais cristalinas que já haviam visto. A expedição iria seguir.

Apesar de contar com corredeiras classificadas no nível 4, numa escala que vai até 6 (inatingível mesmo para a maioria dos profissionais), há uma série de atrações na frente do radicalismo quando se trata de entrar num bote no Jalapão. Volumoso, o Rio Novo abre seus braços em margens amplas, tomadas por uma mata de galeria mais verdejante do que o cerradão dos campos. Onde as plantas não estão, surgem praias de areia branca, ideais para montar acampamento e dormir com o som das cachoeiras após fitar o incrível céu do Jalapão. Chega a ser um desafio não ver uma estrela cadente.
Nessas praias, durante o dia, pequenas dunas exibem pegadas de animais selvagens. Os rastros são mais freqüentes do que os bichos em si, embora tenhamos avistado uma capivara e um filhote de anta em momentos distintos. Desacostumados com a presença humana, eles não se exibem. É sabido que muitos animais habitam a região, pois o Jalapão, situado no meionorte brasileiro, conta com espécies da caatinga, do cerrado e da Amazônia. Onça, lontra e cachorro-vinagre são só alguns dos bichos a beber das águas claras do Rio Novo.

Uma água não só cristalina, mas também potável. No rafting, basta esticar o braço para matar a sede. Os remansos entre as corredeiras são providenciais e o calor convida a um mergulho. Nesses pontos tranqüilos, os guias verbalizam o desejo de todos: "Podem se jogar". De colete salva-vidas, boiando e seguindo adiante com a leve correnteza, a sensação de imersão na natureza aumenta conforme descemos o rio. Mas é importante ficar atento. A qualquer instante, o guia pode convocar os aventureiros de volta ao bote. E tome corredeira, água na cara e frio na barriga. No Jalapão, o perrengue e o deleite são vizinhos.
A formação desse cenário remonta há 350 milhões de anos, quando havia um grande oceano nessa área. Ao longo das eras, a água salgada avançou e recuou várias vezes, trazendo novos sedimentos e desenhando o relevo. Sobraram rochas sedimentares de textura arenosa. São, para todos os efeitos, pedras de areia. Isso significa que a água da chuva penetra facilmente no solo, onde é armazenada no lençol freático.

Lentamente, a água precipitada retorna na forma de inúmeras nascentes, como os fervedouros. São pequenos nascedouros posicionados sobre o grande aqüífero subterrâneo, no qual a pressão da água impede o afundamento de quem ali se banha. Parece um mergulho num poço de areia movediça ao contrário, que expele em vez de tragar o corpo. Os visitantes saem encantados.
Na base das escarpas das serras estilo "mesa", outro componente da paisagem local, surge uma profusão de riachos. São morros aplainados, integrantes da Chapada das Mangabeiras, da qual o Jalapão faz parte. A erosão dessas pequenas montanhas (não passam dos 800 metros de altitude), compostas do mesmo material frágil das rochas, deu origem a dunas, que se espalham aos pés da Serra do Espírito Santo. No pôr-do-sol, o reflexo avermelhado nas encostas da serra se mistura com o amarelo forte dos morros de areia. Não devem nada em beleza às dunas do litoral nordeste do Brasil.

O PRIMEIRO CARRO EM 1980



Poucos anos atrás, todas as estradas que cortam o Jalapão eram tomadas por essa mesma areia. Hoje, grande parte dos acessos se encontra coberta por uma terra mais úmida. Isso simplificou um pouco a vida dos motoristas - muito pouco, na verdade. Conta-se que o primeiro automóvel chegou a Mateiros, uma das poucas cidades destas vizinhanças, em 1980. Mesmo hoje, os 34 mil quilômetros quadrados do Jalapão estão entre as áreas mais isoladas e de menor densidade demográfica do Brasil, com 1,3 habitante por quilômetro quadrado.

Em 2001, a zona Jalapão/Chapada das Mangabeiras foi considerada uma das 13 regiões de bolsões de pobreza do Brasil pelo governo federal. A maior parte da população local - distribuída pelos municípios de Mateiros, Ponte Alta do Tocantins, São Félix do Tocantins e Novo Acordo (veja no mapa) - vive do cultivo de milho e arroz. É uma gente não nativa, que por aqui chegou em meados do século 19, tempos depois do desaparecimento da tribo indígena local, os acroás (leia quadro). Os antepassados dos atuais habitantes vieram do Nordeste em função da pecuária, por se tratar de uma região de passagem de gado.
Entre os descendentes dessas levas iniciais estão os moradores de Mumbuca, vilarejo de antigos quilombolas cujo nome homenageia um tipo de abelha local. "Somos filhos de negros e índios", afirma Noemi Ribeiro, a "Doutora", uma das líderes dessa comunidade matriarcal. São cerca de 200 pessoas, todas evangélicas, seguidoras da igreja Assembléia de Deus, presente na região desde a década de 1940. A fé estrangeira os impede de dançar. "O pastor não deixa", dizem.

Ao menos algumas amostras culturais foram mantidas. Principalmente o artesanato com o capim dourado, um tipo de planta rasteira que cresce nos campos úmidos do cerrado, próximos das veredas, os caminhos de vegetação vigorosa formados ao longo de córregos e riachos. As veredas são identificadas pela presença dos buritis, a palmeira típica das regiões agrestes brasileiras. Do buriti, a gente do cerrado faz de tudo: doces com o fruto (o sorvete em Mateiros é imperdível), óleo com o caroço, taipas com o tronco, telhado com as folhas maduras e seda das folhas novas, chamadas de olho e usadas na costura das peças de capim dourado.
Esse tipo de artesanato ganhou fama com a chegada dos primeiros viajantes ao Jalapão, no final dos anos 1990, mudando a vida da comunidade, mas não suas regras sociais: são as mulheres que comandam a produção. "Em tempo de costura, os homens têm mais é que ficar calados", ensina Neide Ribeiro, moradora de Mumbuca. A colheita ocorre entre setembro e outubro, após a polinização das sementes. Em vista da grande demanda, todos se envolvem. Há até encomendas do exterior. "Nossa vida mudou", reconhece Doutora.

O apelido foi dado após as inúmeras curas promovidas pelas "garrafadas", como são chamadas as misturas de ervas do cerrado produzidas por Noemi. Embaladas em garrafas, são usadas pela população de Mumbuca na cura de doenças. A fama de Doutora começou ainda menina, num tempo em que médico era lenda no Jalapão. Com o pai adoentado da vista, os olhos "vermelhos que nem fogo", a então jovem Noemi teve um impulso e foi ao quintal de casa colher alfavacas. "Moço, foi coisa de Deus a receita. Ninguém tinha me ensinado", garante.
Depois de cozinhar bem as folhas e deixálas esfriar, Noemi ofereceu o extrato ao pai, que lavou os olhos. No dia seguinte, estava de volta ao roçado. "Deus usou a gente pequenininha. E foi um recurso fundamental." Hoje, há atendimento médico razoável em Mateiros, a pouco mais de 30 quilômetros dali, o que não serviu para aposentar a Doutora, ainda muito procurada para tratar de dores de barriga e enxaquecas, entre outros desconfortos.

NA ROTA DE PRESTES



Na verdade, por todo o Jalapão, o uso das ervas do cerrado ainda é bastante difundido, assim como uma série de outras práticas tradicionais. Na criação de animais, por exemplo, os pequenos rebanhos são soltos no campo. Na larga, como se diz por estas bandas. Quem vem de fora é melhor tomar conhecimento. "Aqui não se cerca a criação, mas sim a plantação", ensina Camilo, agricultor paulista que, há seis anos, viu no Jalapão uma perspectiva de valorização imobiliária. A área de sua fazenda, de 20 quilômetros quadrados, foi trocada por uma casa e um carro velho avaliados em 300 mil reais. "Hoje as terras valem 5 milhões", diz.
É bem verdade que Camilo tirou proveito da ânsia do antigo proprietário em se desfazer do terreno. Era um gaúcho chamado Ronaldo, que, desavisado do funcionamento das coisas, foi logo plantando mil mudas de maracujá, outras 100 de caju e uma porção de coco. Sua mulher caprichou no colorido canteiro de flores. Em pouco tempo, os bichos das propriedades vizinhas - criados na larga - descobriram a boca-livre.

O gaúcho passou a meter bala em tudo que se movesse no seu quintal. Até o fatídico dia em que atirou no jumento de um sujeito vingativo. Ronaldo virou alvo. Era uma quinta-feira. Ferido, correu para dentro de casa. O autor dos disparos fugiu e o homem nada podia fazer senão morrer. Como de costume, sua mulher só chegaria de Palmas no dia seguinte. Entretanto, sem explicação, a esposa veio um dia antes. Correram para o hospital e Ronaldo se salvou. Nunca mais deu as caras. Voltou para o Sul assim que Camilo ofereceu o carro velho e a casa.
Não é todo mundo que se adapta ao Jalapão e, mesmo ao longo da história, apenas alguns naturalistas se aventuraram por aqui. Além deles, passaram pela região os integrantes da Coluna Prestes, nos anos 1920 (veja quadro) . O fato é que, por mais encantador que pareça, este é um lugar que cobra o seu preço. Seja pelo isolamento, seja pelo calor de 30 e tantos graus, que castiga forte quando não se está dentro de algum rio. Só não judia mais do que as moscas, implacáveis a cada parada do bote.

CARCARADOM, O ABRE-ALAS



As picadas dos mosquitos, porém, são um preço baixo. Há até quem veja nessas adversidades um motivo a mais para ir ao Jalapão, como é o caso de Mássimo Desiati. Quando veio à região pela primeira vez, em 1994, ele já era um consagrado campeão de rafting e de canoagem. Detinha uma série de títulos nacionais e internacionais e só não foi à Olimpíada de Barcelona, na Espanha, em 1992, por falta de patrocínio.
Formado em Agronomia, Mássimo sempre teve intimidade com a água. Na faculdade, buscava estágios em fazendas com rios para poder remar. Durante os anos de competição fora do país, era comum esticar a estadia para explorar locais desconhecidos. "A partir das viagens, decidi operar uma expedição de rafting no Brasil." Faltava encontrar o lugar ideal.

Em 1994, já fora do circuito, Mássimo abriu as páginas da revista TERRA (então, em seu terceiro ano de vida) e viu uma foto do Rio Novo, na qual identificou uma corredeira. "Chequei no mapa e vi que o desnível era característico de rios para rafting", explica. Socou bote e equipamentos na sua velha Elba e tocou para o desconhecido Tocantins (leia quadro sobre o estado). "Nem sei como consegui passar pela estrada."
Hoje, em vez da Elba, um caminhão chamado de Carcaradom conduz Mássimo. Batizado com o nome científico do tubarão-branco, habitante do oceano pré-histórico que havia aqui, o Carcaradom é, na verdade, um antigo caminhão dos bombeiros. Bancos foram adaptados na carroceria e a impressão é de um safári na África, ainda mais com a cara de savana do cerrado.
Dessa forma, os empecilhos na parte terrestre foram vencidos. Na água, o problema era outro. Ninguém jamais havia descido o Rio Novo - pelo menos, não em botes. Mássimo descobriu dois sujeitos que desciam o rio em canoas feitas com troncos de buriti. Levou os dois para o rafting. "Morreram de medo." Mas também vibraram ao vencer as corredeiras que lhes obrigavam a encostar as canoas e seguir pela margem.

Mássimo só vibrou. Já naquele ano trouxe uns poucos aventureiros. Não parou mais. Mesmo assim, o roteiro permanece restrito. Menos de mil pessoas tiveram o privilégio de conhecer o cerrado embaladas pelas correntezas do Rio Novo. Ou de admirar as duas enormes ferraduras da Cachoeira da Velha, cada uma com uma centena de metros de largura por mais de 15 metros de altura. Lembra uma minicatarata do Iguaçu. Com a ajuda dos guias, é possível entrar atrás de um dos véus d'água e admirar a potência da natureza, literalmente, de dentro da cachoeira.
"Este é um dos dez rios para rafting mais bonitos do mundo", assegura Mássimo. "Fico contando os meses para voltar ao Jalapão", completa Paulo Spinelli, outro guia da equipe. Como a temporada se restringe entre os meses de maio e setembro, o curitibano Paulo não pode se dedicar exclusivamente ao seu local preferido. Na primeira vez em que foi chamado para trabalhar no Jalapão, há pouco mais de dois anos, ele não pôde acreditar. "Estava acostumado com água escura e gelada", conta o jovem guia, com passagem por rios em todo o Brasil.

Alguns anos atrás, ele protagonizou um cena inusitada em outro rafting: no Rio Pojuca, na Bahia, quando conduziu um grupo de cinco coreanos, entre eles um tradutor. Resoluto, o homem lhe exigiu o encontro com alguma ave em extinção. Sem sucesso, Paulo tentou explicar que a visualização dos animais é incerta. Pode ou não acontecer. Diante da reação irritada, se calou. À medida que desciam o Pojuca, a tensão foi tomando conta do guia.
Os coreanos até se empenhavam, mas perguntavam sem parar sobre as tais aves raras. Sem saber como agir, Paulo avistou um grupo de oito quero-queros - aquele pássaro barulhento tão comum aos estádios quanto a torcida do Flamengo - e apontou para o céu: "Lá estão as aves em extinção". Os coreanos foram ao êxtase. Fotografaram sem parar e cobriram Paulo de abraços. O tradutor não cabia em si - seja lá em qual idioma.

Já no Rio Novo, enquanto conduz o bote, Paulo enche o peito de certeza e afirma: "Algumas curvas à frente, assim que avistarmos uns buritis bem altos, veremos araras-azuis". Não dá outra. Três casais da espécie passam voando sobre nossas cabeças. Ninguém se abraça, mas a alegria é geral. Para completar, a sorte que faltara a Paulo na Bahia, lhe sobra no Tocantins: uma dupla de raros patos mergulhões se banha nas águas cristalinas, enquanto um urubu-rei exibe sua cabeça branca, os coloridos penachos e seu metro e meio de envergadura nas asas em cima de uma árvore. Todas espécies em risco de extinção. Nem é preciso inventar. A realidade do Jalapão dispensa a imaginação humana.

POUCAS E BOAS



GUARDE NA MEMÓRIA
O rafting, o céu estrelado, o pôr-do-sol nas dunas

DEIXE PRA LÁ
As picadas dos mosquitos, o calor na estrada, o ronco na barraca ao lado

NÃO VIAJE SEM
Espírito expedicionário, repelente, MP3 (para as longas horas na estrada)

NÃO VIAJE COM
Anseio por luxo, roupas pesadas, telefone celular (não pega)

UMA EXPERIÊNCIA
Sair correndo em direção ao barranco formado pelas dunas aos pés da Serra do Espírito Santo, saltar o mais alto possível, cair na areia e seguir rolando até o riozinho lá embaixo

UM VISUAL
As duas ferraduras da Cachoeira da Velha, cada uma com uma centena de metros de comprimento por 15 de altura

UMA SENSAÇÃO
O refrigério delicioso nos remansos entre as corredeiras do Rio Novo

UM DADO
Uma planta do cerrado chamada jalapa deu origem ao nome deste paraíso

TRÊS PALAVRAS PARA DESCREVER O JALAPÃO
Divino, distinto e distante

REBELDES NO JALAPÃO



Acampados na cabeceira do Riacho Muriçoca, os rebeldes comandados por Luís Carlos Prestes ficaram admirados com a beleza do lugar. O secretário Lourenço Moreira Lima escreveu, em abril de 1926: "Essa região é povoada de belas colinas, numerosas vertentes e vastos areais". Apesar do encanto, os soldados desse movimento contra a República Velha estavam em suas últimas forças. Tanto que a revolta acabou menos de um ano depois.

Veja mais em JALAPÃO
  1. CARTA DE NAVEGAÇÃO

PARA SABER MAIS:
Jalapão, Sertão das Águas. Miguel von Behr.
Somos Editora.