A esfinge do Mediterrâneo
Ao longo de 5 mil anos de história, Malta já foi fenícia, romana, bizantina, francesa e inglesa. Com tanta mistura cultural, virou um lugar único e misterioso, entre a Sicília e a Tunísia
Texto e fotos de Lino Bocchini, de Marsaxlokk
Matéria publicada na edição 183 (Julho/2007) de Terra
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Malta já foi Grécia. E também Caribe, França, Turquia, Itália e até Palestina. Pelo menos no cinema. A escolha do país como locação para fazer as vezes de recantos tão diversos dá um bom panorama da pequena ex-colônia inglesa. A meio caminho entre a Sicília e o norte da África, Malta tem um histórico de conquistadores tão variado quanto a lista da ficção. Se por ali Spielberg gravou Munique, Madonna sofreu em Destino Insólito, Alan Parker dirigiu Expresso da Meia-Noite e Johnny Depp e Brad Pitt guerrearam de mentirinha em Piratas do Caribe e Tróia, a realidade foi bem mais dura. Fenícios, romanos, bizantinos, árabes, franceses e ingleses, entre outros, revezaram-se na tutela de Malta até 1964, quando esse minúsculo arquipélago finalmente ganhou a independência, tornando-se república dez anos depois. Mesmo assim, só em 1979 os malteses se livraram dos últimos soldados britânicos. Em suma, Malta tem mais de 5 mil anos de história, porém começou de fato a caminhar pelas próprias pernas nas últimas três décadas.
O país é de fato pequeno. Somadas, suas cinco ilhas (duas delas minúsculas e desabitadas) ocupam uma área equivalente a um quarto do município de São Paulo. Com 400 mil habitantes, exibe a maior densidade populacional da Europa. São 1 200 malteses por quilômetro quadrado, mais que o triplo do índice de um país reconhecidamente apertado como o Japão. A quantidade de ícones locais que ganharam fama mundo afora também é impressionante. O mais conhecido dos brasileiros é certamente a Cruz de Malta, que adorna a camiseta do Vasco da Gama, um dos nossos times de futebol mais populares. Mas há também o Falcão Maltês, célebre personagem de muitos livros e filmes, e a misteriosa Ordem de Malta, organização militar-religiosa sem pátria, fundada pelos cavaleiros de São João, que também ocuparam as ilhas.
Caminhando sem pressa pelas ruas do país é fácil perceber as marcas do passado. Cidades erguidas pelos romanos, muros fenícios, a língua meio árabe, suas 365 igrejas. Trata-se de um país pra lá de católico. Está na Constituição: o catolicismo é a religião oficial, e o ensino religioso é obrigatório nas escolas públicas. Não faltam praticantes. Levantamento feito pelo governo em 2005 mostrou que mais da metade da população freqüenta a missa aos domingos. O número vem caindo, mas a força da Igreja ainda é evidente.
O alinhamento de Malta às diretrizes mais polêmicas de Bento XVI aparece, por exemplo, na proibição ao divórcio. A condenação ao aborto, então, é tão ferrenha que o tema nem chega a ser discutido. E até o começo da década de 1970 havia uma lei expressa contra o homossexualismo. Nessas ilhas cercadas por um límpido mar azul-turquesa, muitos ainda vão à praia vestidos, e ninguém se atreve a andar de biquíni ou sem camisa nos calçadões à beira- mar. Não se vêem demonstrações públicas de afeto, como um beijo longo. E muitos ainda acham que a função da mulher é cuidar dos filhos ou dos mais velhos. Tanto que creches são raras em Malta.
O comportamento antiquado, em todo caso, começa a sucumbir diante da influência dos vizinhos europeus, que enviam cada vez mais visitantes às ilhas. "Os mais jovens pensam de outra forma, o país está mudando", avalia Trudy Grech, 29 anos, que trabalha como guia turística. "Claro que é difícil ter privacidade por aqui, pelo fato de vivermos num território pequeno com uma tradição católica tão presente. Mas não há mais preconceito com mulheres trabalhando fora", explica. Uma caminhada pela badalada região de Peaceville, em St. Julian, dá um exemplo prático do que a moça diz. Na área de vida noturna agitada, fica claro que os dogmas de Ratzinger & cia. não emplacam entre a molecada. Uma multidão de adolescentes fica até tarde na rua, usa minissaia, bebe nas boates e namora no escurinho.
O aposentado Joe Azzopardi vive na capital, Valletta, desde que nasceu, há 79 anos. Há décadas cultiva o hábito de ler jornal sentado no agradável San Anton Gardens, que oferece uma das mais belas vistas do arquipélago. Tranqüilo, não se abala com o burburinho de forasteiros à sua volta. "Começou a ficar mais cheio na década de 80, mas não me incomodo, sei que é bom para Malta", comenta. O ancião sabe das coisas. Ano passado, 1,1 milhão de estrangeiros entraram na ilha. Neste ano, a previsão é que eles cheguem a 1,2 milhão, o dobro do que há uma década. A maioria são ingleses (40 por cento), e em seguida vêm alemães e italianos.
Para esses viajantes, Malta é uma novidade que merece ser conhecida mesmo com a concorrência direta de outros destinos do Mediterrâneo, como a badalada Grécia, ou opções mais baratas, como a Croácia ou os emergentes Líbia e Tunísia. O arquipélago tem a formidável vantagem de ser um destino agradável o tempo todo. O sol brilha em média 300 dias por ano, inclusive no inverno. Outro trunfo é a língua: embora usem um idioma indecifrável, de origem semita, quase todos os malteses falam inglês fluentemente e muitos também dominam o italiano, por influência da proximidade da Sicília, a menos de 100 quilômetros daqui. Isso fez de Malta um destino bastante procurado por estudantes de línguas - há 65 mil deles fazendo intercâmbio cultural no arquipélago. "Muitos pais preferem mandar os filhos para cá ao perceber que nossos índices de violência são praticamente zero", comenta Carlo Micallef, do Ministério do Turismo.
Valletta disputa com Vaduz, no minúsculo Liechtenstein, o título de menor capital européia. Com 7 mil habitantes, está acomodada em uma península de 1 quilômetro de extensão por 600 metros de largura máxima. É uma cidade pequena, mas linda e carregada de história, que pode ser percorrida de ponta a ponta em apenas uma tarde. O ideal, porém, é caminhar sem pressa, fazendo gostosas paradas para petiscar um saboroso gbejniet, um salgado queijo de cabra local, que vai muito bem com uma Cisk gelada, a principal cerveja maltesa. No almoço, prepare-se também para comer bem. Seguindo a tradição da cozinha italiana, a maioria dos restaurantes oferece cardápios completos, com entrada, primeiro e segundo pratos. Vale abusar dos frutos do mar, dos pratos tradicionais de coelho e arriscar os vinhos locais.
Outras cidades preciosas de Malta são Mdina e Marsaxlokk. A primeira, antiga capital do arquipélago, é uma cidadela medieval inteiramente preservada, com ruelas que convidam o visitante a se perder. A segunda é uma vila de pescadores esparramada à volta de uma baía calma, que funciona como um porto natural. Os barquinhos coloridos que são um dos símbolos do país ficam ancorados aqui. Com faixas amarelas, azuis, verdes e vermelhas, as embarcações, sem exceção, têm o Olho de Osíris incrustado na proa. Pela antiga tradição fenícia, o olho traz boa sorte no mar.
A única coisa que destoa nas belas cidades seculares de Malta são os automóveis. Verdadeira obsessão nacional, eles estão por toda parte. São dois carros para cada três habitantes, e sua entrada é permitida mesmo em sítios considerados Patrimônios da Humanidade pela Unesco, como Mdina. A febre automotiva é tamanha que, apesar de Malta ser minúscula e ter uma população que não chega a um terço de Guarulhos, na Grande São Paulo, os congestionamentos são comuns - na mão invertida, uma herança inglesa. Pelo menos são bem menores do que os nossos, e o pessoal não buzina.
As piadas entre portugueses, italianos, espanhóis e, claro, brasileiros, são inevitáveis. Afinal, o nome da segunda maior ilha do arquipélago de Malta é este mesmo: Gozo. Ou seja, piada pronta. E é mesmo atrás de satisfação que os viajantes vão à ilha. Menor, mais verde e bem menos habitada do que Malta, Gozo também tem construções seculares e o mesmo mar azul-turquesa ao redor, mas é uma ilha mais tranqüila, com um terço do tamanho da vizinha, e muito menos moradores - 30 mil, contra mais de 350 mil.
A principal atração de Gozo é seu belo litoral. A ilha tem os principais pontos de mergulho do arquipélago e as praias mais bonitas, como a da baía de Ramla, de areia avermelhada. Foi aqui que o atual presidente francês, Nicolas Sarkozy, se refugiou em maio último, logo depois de ganhar as eleições em seu país. Como veio ao arquipélago exclusivamente para descansar, Sarkozy mal pôs os pés nas ilhas, preferindo relaxar a bordo de um espaçoso iate.
Além de praias, Gozo também tem belas construções históricas, a maioria delas em Citadel, uma cidade erguida pelos romanos há quase 2 mil anos, cujos muros são ainda mais antigos, da época dos fenícios, mil anos antes de Cristo. E ao redor da muralha esparramase Victoria, capital da ilha, igualmente bela e secular. O nome, em homenagem à então rainha inglesa, não pegou. Os locais preferem o nome anterior, Rabat.
Fica em Gozo também o mais antigo sítio arqueológico de Malta, o Templo de Ggantija, erguido entre 3600 e 3000 antes de Cristo, ou seja, contemporâneo a Stonehenge, na Inglaterra, e anterior às pirâmides egípcias. Pouco se sabe sobre a origem desse templo - segundo uma lenda local, ele teria sido erguido por uma mulher gigante.
Entre Malta e Gozo fica a terceira ilha habitada do arquipélago, Comino. É a menor de todas, com 2,5 quilômetros de extensão e apenas duas construções: um hotel que funciona apenas no verão e a Torre St. Mary, do século 17. Praticamente sem vegetação e tendo como únicos habitantes os funcionários do hotel, a maior atração de Comino é a chamada Lagoa Azul, uma pequena baía de água especialmente azulada. Para quem busca beleza e isolamento, esse é o lugar.
Como nação independente, Malta ainda busca seu espaço no continente europeu. O país está em seu sexto primeiro-ministro e participa da União Européia desde 2004. A adesão ao bloco foi decidida num plebiscito apertado, com 53 por cento de votos favoráveis. Agora vem o segundo passo: em 1º de janeiro de 2008, o euro substituirá a valorizada lira maltesa. A mudança é o assunto do momento no país. Domina o noticiário e preocupa o governo, uma vez que uma eventual subida geral dos preços (fenômeno que ocorreu em outros países com a mudança para o euro) pode inibir os visitantes e gerar inflação. Enquanto isso, o euro circula timidamente no arquipélago, pois a maioria dos comerciantes insiste em receber na moeda local.
A entrada na Comunidade Européia tradicionalmente opõe costumes e interesses locais às regras continentais, que devem ser seguidas por todos os países membros. Em Malta, um ponto de conflito é ambiental. Há cerca de 20 mil caçadores de pássaros no arquipélago, uma tradição tão secular como a caça às raposas na Inglaterra. Centenas de milhares de pássaros são abatidos em Malta anualmente, inclusive espécies migratórias em época de reprodução que estão apenas de passagem. O país recebeu seguidas advertências das autoridades da União Européia, mas mantém a mais longa temporada de caça a pássaros de toda a Europa, e não dá sinais de que vá mudar de posição.
Mais grave é a situação de imigração ilegal. A caminho da Itália, muitas embarcações saídas da África acabam chegando a Malta. O problema ainda é pequeno, há menos de 5 mil imigrantes, mas as autoridades locais mostram- se despreparadas para lidar com a situação. Em maio aconteceu um fato exemplar: um barco com cerca de 30 refugiados da Costa do Marfim naufragou em águas maltesas. Todos morreram, à exceção de um jovem. Assim que pisou na ilha, resgatado por pescadores após três dias à deriva, foi enviado à prisão. A frieza das autoridades locais com o drama do marfinense foi parar nas manchetes dos jornais. Joseph Mifsud, funcionário do Ministério de Relações Exteriores de Malta, reforça a impressão de falta de tato para lidar com a questão. Após afirmar que o país está fechando um acordo para despachar imigrantes para o Canadá, o representante do governo disparou para o repórter: "Vocês, que têm espaço de sobra no Brasil, não querem levá-los para lá?".
A alta densidade demográfica da ilha é a principal alegação governamental para recusar imigrantes. Saleh Issae, 19 anos, refugiado sudanês, escapou da guerra civil em seu país, mas não encontrou um mar de flores em Malta, onde faz bicos de pedreiro. "O pior é a forma como nos olham na rua", lamenta. Já a brasileira Orli Lopes, que é ajudante de cozinha em um dos melhores restaurantes da ilha, o La Dolce Vita, está feliz com o país, após três anos morando na Sicília. "Malta é um lugar para ganhar a vida e viver bem", afirma. Apesar dos tropeços da nação recém-estruturada, olhando para a muralha medieval e o belo mar azul-turquesa ao lado do restaurante, é difícil discordar dela.
Nem adianta prestar atenção. A conversa entre dois malteses, para falantes de línguas latinas como os brasileiros, soa tão estranho como os demais idiomas do ramo lingüístico semítico, do qual o maltês faz parte. O principal representante dessa família é o árabe, influência mais forte da língua local, ao lado do italiano - mais especificamente, do dialeto siciliano. Fazem parte desse grupo ainda uma série de idiomas presentes do norte da África à Ásia, como o hebraico, aramaico, amárico e tigrínia. Assim como alguns já extintos, como o acádio, amorita, fenício e moabita. O refresco para os forasteiros é que toda população fala um inglês perfeito, e o idioma britânico é considerado a segunda língua oficial do país.
5200 A.C. Data provável da chegada dos primeiros habitantes à ilha, vindos da Sicília
3600-3200 A.C.
Construção de templos de pedra em Malta e Gozo (não se sabe ao certo seu propósito)
800 A.C.-395 D.C.
Malta é dominada por povos invasores. Primeiro os fenícios, que controlam o arquipélago por quatro séculos. Depois os cartagineses, pelos 200 anos seguintes. E os romanos, por mais 200 anos
395-1090
Bizantinos conquistam o arquipélago e o dominam por quase cinco séculos. Em 870 perdem o território para os árabes
1090-1798
Período de dominação da nobreza siciliana. Em 1530, os Cavaleiros de São João recebem o território e fazem dele sua sede
1798
Napoleão toma Malta e os cavaleiros vão à Rússia. Em 1800, os ingleses ajudam a expulsar Napoleão. Em 1814, a Coroa britânica transforma Malta em colônia
1964
Malta ganha a independência da Inglaterra, mas a rainha Elizabeth segue como chefe de Estado. Em 1974, o país torna-se república
2004
O país entra na União Européia
O romance O Falcão Maltês, do escritor americano Dashiell Hammett, foi publicado em 1930 com muito sucesso e teve diversas adaptações para o cinema. A versão mais famosa, dirigida por John Houston em 1941, teve Humphrey Bogart (foto) no papel principal. Um dos pontos-chave da trama é a estátua de uma ave, que no filme lembra mais uma coruja. Falcão-maltês, o pássaro, é uma subespécie do falcão-peregrino, que nas últimas décadas foi caçado quase à total extinção pelos próprios malteses. Hoje restam poucos espécimes, em cativeiro.
O símbolo dos cavaleiros de São João, a Cruz de Malta, é presença constante na ilha. Os cavaleiros surgiram na época das Cruzadas cristãs dos séculos 11 e 12. Ganharam esse nome por conta do hospital para peregrinos que abriram em Jerusalém, no século 11, onde tinham como objetivo cuidar dos desvalidos e defender a fé católica. Expulsos da Ilha de Rodes, na Grécia, em 1530 receberam Malta do imperador Carlos V. A partir de então passaram a ser conhecidos como cavaleiros da Ordem de Malta. Ficaram na ilha por mais de 250 anos, sendo expulsos por Napoleão em 1798. Nesse período, deixaram marcas profundas na história e cultura maltesas. Fundadores da capital, Valletta, seus prédios ainda estão pela ilha, como a Sacra Infermaria, com 600 leitos.
Após a expulsão do arquipélago, os cavaleiros foram abrigados pelo então czar russo Paulo I, e amargaram anos desestruturados. No século 19 se instalaram no Palazzo di Malta, em Roma, onde estão até hoje. Curiosamente, a Ordem não é um Estado, mas é soberana em relação à Itália, e mantém relações diplomáticas com quase 100 países - entre eles, o Brasil.
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O país é de fato pequeno. Somadas, suas cinco ilhas (duas delas minúsculas e desabitadas) ocupam uma área equivalente a um quarto do município de São Paulo. Com 400 mil habitantes, exibe a maior densidade populacional da Europa. São 1 200 malteses por quilômetro quadrado, mais que o triplo do índice de um país reconhecidamente apertado como o Japão. A quantidade de ícones locais que ganharam fama mundo afora também é impressionante. O mais conhecido dos brasileiros é certamente a Cruz de Malta, que adorna a camiseta do Vasco da Gama, um dos nossos times de futebol mais populares. Mas há também o Falcão Maltês, célebre personagem de muitos livros e filmes, e a misteriosa Ordem de Malta, organização militar-religiosa sem pátria, fundada pelos cavaleiros de São João, que também ocuparam as ilhas.
Caminhando sem pressa pelas ruas do país é fácil perceber as marcas do passado. Cidades erguidas pelos romanos, muros fenícios, a língua meio árabe, suas 365 igrejas. Trata-se de um país pra lá de católico. Está na Constituição: o catolicismo é a religião oficial, e o ensino religioso é obrigatório nas escolas públicas. Não faltam praticantes. Levantamento feito pelo governo em 2005 mostrou que mais da metade da população freqüenta a missa aos domingos. O número vem caindo, mas a força da Igreja ainda é evidente.
O alinhamento de Malta às diretrizes mais polêmicas de Bento XVI aparece, por exemplo, na proibição ao divórcio. A condenação ao aborto, então, é tão ferrenha que o tema nem chega a ser discutido. E até o começo da década de 1970 havia uma lei expressa contra o homossexualismo. Nessas ilhas cercadas por um límpido mar azul-turquesa, muitos ainda vão à praia vestidos, e ninguém se atreve a andar de biquíni ou sem camisa nos calçadões à beira- mar. Não se vêem demonstrações públicas de afeto, como um beijo longo. E muitos ainda acham que a função da mulher é cuidar dos filhos ou dos mais velhos. Tanto que creches são raras em Malta.
O comportamento antiquado, em todo caso, começa a sucumbir diante da influência dos vizinhos europeus, que enviam cada vez mais visitantes às ilhas. "Os mais jovens pensam de outra forma, o país está mudando", avalia Trudy Grech, 29 anos, que trabalha como guia turística. "Claro que é difícil ter privacidade por aqui, pelo fato de vivermos num território pequeno com uma tradição católica tão presente. Mas não há mais preconceito com mulheres trabalhando fora", explica. Uma caminhada pela badalada região de Peaceville, em St. Julian, dá um exemplo prático do que a moça diz. Na área de vida noturna agitada, fica claro que os dogmas de Ratzinger & cia. não emplacam entre a molecada. Uma multidão de adolescentes fica até tarde na rua, usa minissaia, bebe nas boates e namora no escurinho.
ANCIÃOS E ESTUDANTES
O aposentado Joe Azzopardi vive na capital, Valletta, desde que nasceu, há 79 anos. Há décadas cultiva o hábito de ler jornal sentado no agradável San Anton Gardens, que oferece uma das mais belas vistas do arquipélago. Tranqüilo, não se abala com o burburinho de forasteiros à sua volta. "Começou a ficar mais cheio na década de 80, mas não me incomodo, sei que é bom para Malta", comenta. O ancião sabe das coisas. Ano passado, 1,1 milhão de estrangeiros entraram na ilha. Neste ano, a previsão é que eles cheguem a 1,2 milhão, o dobro do que há uma década. A maioria são ingleses (40 por cento), e em seguida vêm alemães e italianos.
Para esses viajantes, Malta é uma novidade que merece ser conhecida mesmo com a concorrência direta de outros destinos do Mediterrâneo, como a badalada Grécia, ou opções mais baratas, como a Croácia ou os emergentes Líbia e Tunísia. O arquipélago tem a formidável vantagem de ser um destino agradável o tempo todo. O sol brilha em média 300 dias por ano, inclusive no inverno. Outro trunfo é a língua: embora usem um idioma indecifrável, de origem semita, quase todos os malteses falam inglês fluentemente e muitos também dominam o italiano, por influência da proximidade da Sicília, a menos de 100 quilômetros daqui. Isso fez de Malta um destino bastante procurado por estudantes de línguas - há 65 mil deles fazendo intercâmbio cultural no arquipélago. "Muitos pais preferem mandar os filhos para cá ao perceber que nossos índices de violência são praticamente zero", comenta Carlo Micallef, do Ministério do Turismo.
Valletta disputa com Vaduz, no minúsculo Liechtenstein, o título de menor capital européia. Com 7 mil habitantes, está acomodada em uma península de 1 quilômetro de extensão por 600 metros de largura máxima. É uma cidade pequena, mas linda e carregada de história, que pode ser percorrida de ponta a ponta em apenas uma tarde. O ideal, porém, é caminhar sem pressa, fazendo gostosas paradas para petiscar um saboroso gbejniet, um salgado queijo de cabra local, que vai muito bem com uma Cisk gelada, a principal cerveja maltesa. No almoço, prepare-se também para comer bem. Seguindo a tradição da cozinha italiana, a maioria dos restaurantes oferece cardápios completos, com entrada, primeiro e segundo pratos. Vale abusar dos frutos do mar, dos pratos tradicionais de coelho e arriscar os vinhos locais.
ILHA DA PIADA PRONTA
Outras cidades preciosas de Malta são Mdina e Marsaxlokk. A primeira, antiga capital do arquipélago, é uma cidadela medieval inteiramente preservada, com ruelas que convidam o visitante a se perder. A segunda é uma vila de pescadores esparramada à volta de uma baía calma, que funciona como um porto natural. Os barquinhos coloridos que são um dos símbolos do país ficam ancorados aqui. Com faixas amarelas, azuis, verdes e vermelhas, as embarcações, sem exceção, têm o Olho de Osíris incrustado na proa. Pela antiga tradição fenícia, o olho traz boa sorte no mar.
A única coisa que destoa nas belas cidades seculares de Malta são os automóveis. Verdadeira obsessão nacional, eles estão por toda parte. São dois carros para cada três habitantes, e sua entrada é permitida mesmo em sítios considerados Patrimônios da Humanidade pela Unesco, como Mdina. A febre automotiva é tamanha que, apesar de Malta ser minúscula e ter uma população que não chega a um terço de Guarulhos, na Grande São Paulo, os congestionamentos são comuns - na mão invertida, uma herança inglesa. Pelo menos são bem menores do que os nossos, e o pessoal não buzina.
As piadas entre portugueses, italianos, espanhóis e, claro, brasileiros, são inevitáveis. Afinal, o nome da segunda maior ilha do arquipélago de Malta é este mesmo: Gozo. Ou seja, piada pronta. E é mesmo atrás de satisfação que os viajantes vão à ilha. Menor, mais verde e bem menos habitada do que Malta, Gozo também tem construções seculares e o mesmo mar azul-turquesa ao redor, mas é uma ilha mais tranqüila, com um terço do tamanho da vizinha, e muito menos moradores - 30 mil, contra mais de 350 mil.
A principal atração de Gozo é seu belo litoral. A ilha tem os principais pontos de mergulho do arquipélago e as praias mais bonitas, como a da baía de Ramla, de areia avermelhada. Foi aqui que o atual presidente francês, Nicolas Sarkozy, se refugiou em maio último, logo depois de ganhar as eleições em seu país. Como veio ao arquipélago exclusivamente para descansar, Sarkozy mal pôs os pés nas ilhas, preferindo relaxar a bordo de um espaçoso iate.
Além de praias, Gozo também tem belas construções históricas, a maioria delas em Citadel, uma cidade erguida pelos romanos há quase 2 mil anos, cujos muros são ainda mais antigos, da época dos fenícios, mil anos antes de Cristo. E ao redor da muralha esparramase Victoria, capital da ilha, igualmente bela e secular. O nome, em homenagem à então rainha inglesa, não pegou. Os locais preferem o nome anterior, Rabat.
Fica em Gozo também o mais antigo sítio arqueológico de Malta, o Templo de Ggantija, erguido entre 3600 e 3000 antes de Cristo, ou seja, contemporâneo a Stonehenge, na Inglaterra, e anterior às pirâmides egípcias. Pouco se sabe sobre a origem desse templo - segundo uma lenda local, ele teria sido erguido por uma mulher gigante.
Entre Malta e Gozo fica a terceira ilha habitada do arquipélago, Comino. É a menor de todas, com 2,5 quilômetros de extensão e apenas duas construções: um hotel que funciona apenas no verão e a Torre St. Mary, do século 17. Praticamente sem vegetação e tendo como únicos habitantes os funcionários do hotel, a maior atração de Comino é a chamada Lagoa Azul, uma pequena baía de água especialmente azulada. Para quem busca beleza e isolamento, esse é o lugar.
A LIRA MALTESA RESISTE
Como nação independente, Malta ainda busca seu espaço no continente europeu. O país está em seu sexto primeiro-ministro e participa da União Européia desde 2004. A adesão ao bloco foi decidida num plebiscito apertado, com 53 por cento de votos favoráveis. Agora vem o segundo passo: em 1º de janeiro de 2008, o euro substituirá a valorizada lira maltesa. A mudança é o assunto do momento no país. Domina o noticiário e preocupa o governo, uma vez que uma eventual subida geral dos preços (fenômeno que ocorreu em outros países com a mudança para o euro) pode inibir os visitantes e gerar inflação. Enquanto isso, o euro circula timidamente no arquipélago, pois a maioria dos comerciantes insiste em receber na moeda local.
A entrada na Comunidade Européia tradicionalmente opõe costumes e interesses locais às regras continentais, que devem ser seguidas por todos os países membros. Em Malta, um ponto de conflito é ambiental. Há cerca de 20 mil caçadores de pássaros no arquipélago, uma tradição tão secular como a caça às raposas na Inglaterra. Centenas de milhares de pássaros são abatidos em Malta anualmente, inclusive espécies migratórias em época de reprodução que estão apenas de passagem. O país recebeu seguidas advertências das autoridades da União Européia, mas mantém a mais longa temporada de caça a pássaros de toda a Europa, e não dá sinais de que vá mudar de posição.
Mais grave é a situação de imigração ilegal. A caminho da Itália, muitas embarcações saídas da África acabam chegando a Malta. O problema ainda é pequeno, há menos de 5 mil imigrantes, mas as autoridades locais mostram- se despreparadas para lidar com a situação. Em maio aconteceu um fato exemplar: um barco com cerca de 30 refugiados da Costa do Marfim naufragou em águas maltesas. Todos morreram, à exceção de um jovem. Assim que pisou na ilha, resgatado por pescadores após três dias à deriva, foi enviado à prisão. A frieza das autoridades locais com o drama do marfinense foi parar nas manchetes dos jornais. Joseph Mifsud, funcionário do Ministério de Relações Exteriores de Malta, reforça a impressão de falta de tato para lidar com a questão. Após afirmar que o país está fechando um acordo para despachar imigrantes para o Canadá, o representante do governo disparou para o repórter: "Vocês, que têm espaço de sobra no Brasil, não querem levá-los para lá?".
A alta densidade demográfica da ilha é a principal alegação governamental para recusar imigrantes. Saleh Issae, 19 anos, refugiado sudanês, escapou da guerra civil em seu país, mas não encontrou um mar de flores em Malta, onde faz bicos de pedreiro. "O pior é a forma como nos olham na rua", lamenta. Já a brasileira Orli Lopes, que é ajudante de cozinha em um dos melhores restaurantes da ilha, o La Dolce Vita, está feliz com o país, após três anos morando na Sicília. "Malta é um lugar para ganhar a vida e viver bem", afirma. Apesar dos tropeços da nação recém-estruturada, olhando para a muralha medieval e o belo mar azul-turquesa ao lado do restaurante, é difícil discordar dela.
SOPA DE LETRAS
Nem adianta prestar atenção. A conversa entre dois malteses, para falantes de línguas latinas como os brasileiros, soa tão estranho como os demais idiomas do ramo lingüístico semítico, do qual o maltês faz parte. O principal representante dessa família é o árabe, influência mais forte da língua local, ao lado do italiano - mais especificamente, do dialeto siciliano. Fazem parte desse grupo ainda uma série de idiomas presentes do norte da África à Ásia, como o hebraico, aramaico, amárico e tigrínia. Assim como alguns já extintos, como o acádio, amorita, fenício e moabita. O refresco para os forasteiros é que toda população fala um inglês perfeito, e o idioma britânico é considerado a segunda língua oficial do país.
LINHA DO TEMPO
5200 A.C. Data provável da chegada dos primeiros habitantes à ilha, vindos da Sicília
3600-3200 A.C.
Construção de templos de pedra em Malta e Gozo (não se sabe ao certo seu propósito)
800 A.C.-395 D.C.
Malta é dominada por povos invasores. Primeiro os fenícios, que controlam o arquipélago por quatro séculos. Depois os cartagineses, pelos 200 anos seguintes. E os romanos, por mais 200 anos
395-1090
Bizantinos conquistam o arquipélago e o dominam por quase cinco séculos. Em 870 perdem o território para os árabes
1090-1798
Período de dominação da nobreza siciliana. Em 1530, os Cavaleiros de São João recebem o território e fazem dele sua sede
1798
Napoleão toma Malta e os cavaleiros vão à Rússia. Em 1800, os ingleses ajudam a expulsar Napoleão. Em 1814, a Coroa britânica transforma Malta em colônia
1964
Malta ganha a independência da Inglaterra, mas a rainha Elizabeth segue como chefe de Estado. Em 1974, o país torna-se república
2004
O país entra na União Européia
SÍMBOLO EM EXTINÇÃO
O romance O Falcão Maltês, do escritor americano Dashiell Hammett, foi publicado em 1930 com muito sucesso e teve diversas adaptações para o cinema. A versão mais famosa, dirigida por John Houston em 1941, teve Humphrey Bogart (foto) no papel principal. Um dos pontos-chave da trama é a estátua de uma ave, que no filme lembra mais uma coruja. Falcão-maltês, o pássaro, é uma subespécie do falcão-peregrino, que nas últimas décadas foi caçado quase à total extinção pelos próprios malteses. Hoje restam poucos espécimes, em cativeiro.
OS CAVALEIROS DE MALTA
O símbolo dos cavaleiros de São João, a Cruz de Malta, é presença constante na ilha. Os cavaleiros surgiram na época das Cruzadas cristãs dos séculos 11 e 12. Ganharam esse nome por conta do hospital para peregrinos que abriram em Jerusalém, no século 11, onde tinham como objetivo cuidar dos desvalidos e defender a fé católica. Expulsos da Ilha de Rodes, na Grécia, em 1530 receberam Malta do imperador Carlos V. A partir de então passaram a ser conhecidos como cavaleiros da Ordem de Malta. Ficaram na ilha por mais de 250 anos, sendo expulsos por Napoleão em 1798. Nesse período, deixaram marcas profundas na história e cultura maltesas. Fundadores da capital, Valletta, seus prédios ainda estão pela ilha, como a Sacra Infermaria, com 600 leitos.
Após a expulsão do arquipélago, os cavaleiros foram abrigados pelo então czar russo Paulo I, e amargaram anos desestruturados. No século 19 se instalaram no Palazzo di Malta, em Roma, onde estão até hoje. Curiosamente, a Ordem não é um Estado, mas é soberana em relação à Itália, e mantém relações diplomáticas com quase 100 países - entre eles, o Brasil.
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